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A misteriosa morte de Alexandre von Baumgarten, o jornalista que denunciou a corrupção na ditadura

Dossiê produzido por ele denunciava a existência de um esquema de lavagem de dinheiro que envolvia empresas privadas, o Serviço Nacional de Informação e a revista O Cruzeiro

Fabio Previdelli Publicado em 29/01/2020, às 11h26

João Figueiredo e Alexandre von Baumgarten em uma reunião
João Figueiredo e Alexandre von Baumgarten em uma reunião - Memorial da Democracia

Em 25 de janeiro de 1982, um corpo apareceu boiando na praia da Macumba, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Em um dos bolsos da vítima estavam os documentos de Alexandre von Baumgarten, famoso jornalista que estava desaparecido há 13 dias.

A última aparição de Baumgarten ocorreu na manhã de 13 de outubro. Na ocasião, ele deixava, junto com sua esposa Jeanette Hansen, o prédio onde morava e partiu para uma pescaria. Já no cais da Praça XV, o casal se encontrou com o barqueiro Manuel Valente Pires. De lá, eles embarcaram a bordo da traineira Mirimi rumo ao mar aberto, próximo das ilhas Cagarras. O tempo estava fechado, mas não foi o responsável por eles nunca mais voltarem.

Após três dias de sua identificação pelo Instituto Médico Legal, o jornalista foi enterrado após ter sido "vítima de um afogamento". No entanto, essa versão mudou em 1983 — após a publicação de uma matéria na revista Veja. Nela, o periódico revela que Baumgarten foi assassinado com dois tiros na cabeça e um no tórax.

Capa da Veja com o dossiê de Alexandre von Baumgarten / Crédito: Reprodução

 

A alegação foi comprovada com o laudo do IML e as capsulas de bala que estavam alojadas em seu corpo. As provas estavam anexadas ao inquérito que estava arquivado na 16ª DP da Barra da Tijuca — o crime só começou a ser investigado após ordem da Justiça.

Em fevereiro, a Veja publicou um dossiê que havia sido escrito por Baumgarten. Nele, o jornalista denunciava a existência de um esquema de lavagem de dinheiro que envolvia empresas privadas, o Serviço Nacional de Informação (SNI) e a revista O Cruzeiro.

Contexto histórico

A revista O Cruzeiro foi editada pelos Diários Associados — do jornalista Assis Chateaubriand — e circulou de 1928 até 1975. Quatro anos depois, em 1979, Alexandre von Baumgarten readquiriu os direitos do título e relançou o periódico com o mesmo nome, com a intenção de criar uma vertente de opinião publica favorável à ditadura militar, que era cada vez mais impopular na época. Para isso, o SNI extorquia verbas de publicidade e repassava para a publicação.

O dossiê foi enviado apenas para dez pessoas. Cada envelope havia uma indicação de que seu conteúdo só poderia ser lido em caso de desaparecimento ou morte de Baumgarten. O documento revelava que o jornalista havia sido jurado de morte pelo general Newton Cruz, até então, chefe da Agência Central do SNI.

Militares são acusados... e julgados

Em 20 de setembro de 1985, o delegado Ivan Vasques confrontou os coronéis da reserva do Exército, Francisco Homem de Carvalho — que era ex-membro do SNI — e Dickson Grael. Após a acareação, o delegado divulgou a imprensa o nome de cinco suspeitos de participar do sequestro e morte de Baumgarten, sua esposa e o barqueiro Manuel Pires.

Grael revelou ter conhecimento dos fatos depois de uma confissão feita por Carvalho cinco meses antes. Segundo ele, os suspeitos seriam, além de Newton Cruz, os coronéis Ary Aguiar Freire e Ary Pereira; o tenente-coronel Paulo Malhães e o sargento Roberto Fábio.

Além dos militares ligados ao SNI, o nome de Ailton Guimarães, ex-capitão e oficial do DOI-CODI, também foi citado. Francisco Homem de Carvalho negou tudo, mas isso não impediu que Newton Cruz fosse indiciado. Na semana seguinte, Cruz foi fichado e prestou depoimento na delegacia.

No mês seguinte, uma nova fonte surgiu para acalentar ainda mais o caso. O ex-cabo do Exército David Antônio do Couto — que estava preso em Brasília por envolvimento na morte do jornalista Mário Eugênio — relatou à procuradoria geral da Justiça Militar que teria informações de outras quatro pessoas que estariam envolvidas na morte de Baumgarten.

Seriam eles: o coronel Sávio Costa, que, na época, ocupava a segunda seção do Exército no comando militar do Planalto; o coronel Arídio de Souza; o sargento Paulo Roberto Fábio e um major de codinome Marcos. Todos negaram i envolvimento no crime.

O general Newton Cruz foi acusado de ser o mandante do assassinato / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em dezembro de 1987, o juiz do 1º Tribunal do Rio de Janeiro enviou Newton Cruz, Carlos Alberto Duarte da Silva e Mozart Belo da Silva a julgamento pelo sequestro e morte do jornalista.

O dia 1º de julho de 1992 ficou marcado pela absolvição, em júri popular, de Newton Cruz e Mozart Belo da Silva. O julgamento durou 30 horas. Na ocasião, o público considerou como insuficiente as provas apresentadas para condenar Cruz por sequestro, homicídio qualificado e ocultação do cadáver. Newton foi absolvido por 7 votos a 1.

Depoimento à Comissão da Verdade

Em 21 de março de 2014, o coronel da reserva do Exército Paulo Malhães, que até então tinha passado despercebido no inquérito, foi convidado pela Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro para prestar depoimento sobre o caso. Por mais de 3 horas, Malhães admitiu ter praticado crimes de tortura e assassinatos durante a ditadura militar.

Ele também assumiu que atuou na Casa da Morte, contou detalhes de tortura e acusou o coronel Freddie Perdigão  — que morreu no anos 1990 — de ter matado Alexandre von Baumgarten e atirado seu corpo no mar.

Segundo seu depoimento, o ato foi considerado um erro, já que o Exército não costumava descartar o corpo de suas vítimas desta maneira. “O único corpo que jogaram no mar foi o Perdigão, foi uma cagada”. Quando questionado quem era a vítima em questão, ele relatou: “Foi aquele cara que escrevia no Cruzeiro”. “Von Baumgarten”, questionaram o jornalista Marcelo Auler e a advogada Nadine Borges, integrantes da Comissão. “Von Baumgarten”, assentiu Malhães.

A versão de Paulo Malhães contrariava a perícia da época. O coronel afirmou que Perdigão perseguiu a traineira Mirimi na Baía de Guanabara, matou o jornalista e afundou a embarcação. Caso julgassem necessário, a Comissão da Verdade poderia solicitar um novo depoimento de Malhães para mais esclarecimentos.

Paulo Malhães em depoimento à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro / Crédito: Reprodução Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro

 

No entanto, no dia 25 de abril de 2014, Malhães foi encontrado morto em seu sítio, na Baixada Fluminense. Segundo a esposa de Malhães, Cristina, ela, o marido e o caseiro do sítio foram rendidos por três homens encapuzados e mantidos como reféns por 9 horas. Ela e o caseiro teriam sido rendidos e imobilizados, já Malhães, foi levado para um quarto onde foi morto — seu corpo apresentava marcas de asfixia no rosto e pescoço.

Além do assassinato de Malhães, o grupo de criminosos revirou a casa e levou um computador, três armas antigas da coleção do coronel e outros objetos de valor. Apesar de o crime ter sido apontado como latrocínio, há uma hipótese que afirma que Paulo Malhães foi morto por queima de arquivo.


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