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As múmias sul-americanas de 2 mil anos com piolhos

Cientistas extraíram DNA de humanos antigos e piolhos, em uma pesquisa ‘um pouco como Jurassic Park’

Isabela Barreiros Publicado em 30/01/2022, às 08h00

Uma das múmias analisadas no estudo, descoberta na Argentina
Uma das múmias analisadas no estudo, descoberta na Argentina - Divulgação/Universidad Nacional de San Juan

Uma equipe de cientistas de cinco universidades ao redor do mundo, liderados por Maria Alejandra Perotti, professora de biologia de invertebrados da Universidade de Reading, na Inglaterra, foi responsável por um estudo impressionante, divulgado recentemente.

Os pesquisadores foram capazes de extrair DNA de piolhos e seus hospedeiros, antigas múmias humanas que habitaram a Argentina entre 1.300 e 2 mil anos atrás, encontradas nas cavernas de Calingasta, na província de San Juan.

Eles retiraram cerca de seis lêndeas por corpo, que revelaram estar em um excelente estado de conservação, e investigaram informações importantes sobre o passado da região, incluindo rotas de migração, sexo e até as possíveis causas da morte dos indivíduos.

O estudo foi descrito em um artigo publicado no periódico científico Molecular Biology and Evolution em 28 de dezembro de 2021. 

Piolhos nas múmias

Embora hoje em dia não seja muito difícil se livrar de piolhos, os antigos humanos não contavam com métodos eficazes para se livrarem dos pequenos insetos em suas cabeças. Infelizmente para eles, mas por muita sorte para Maria Alejandra Perotti.

Como ela explicou à BBC News, a lêndea, como é chamado o ovo do piolho, pode permanecer intacta por milhares de anos em decorrência de suas características bastante singulares, em especial por sua “cola” própria.

Esse “cimento” usado pelos piolhos para colar as lêndeas no cabelo das pessoas mostrou-se como uma fonte importantíssima, de “muito boa qualidade” de informação genética para os especialistas, que descobriram células humanas dentro do material.

Ela ainda fez uma comparação que pode ajudar os fãs de produções cinematográficas a entenderem mais a fundo o objetivo da pesquisa: “[...] É um pouco como Jurassic Park", explicou Perotti.

"Claro que o filme é fictício, mas fazemos a analogia porque o objetivo é o mesmo: caracterizar o hospedeiro através de um parasita com uma substância produzida pelo próprio parasita”, ressaltou.

A pesquisa nas múmias

Lêndea de piolho no cabelo de múmia / Crédito: Divulgação/Universidad de Reading

Ao perceber que os piolhos poderiam permanecer por muito tempo intactos nas cabeças de seus hospedeiros, armazenando dados genéticos notáveis para a ciência, a pesquisadora logo começou a procurar por múmias que tivessem cabelos.

"Há muito tempo, eu procurava amostras das populações indígenas originais da América do Sul. Pesquisei mais até ter acesso a coleções de restos humanos que continham cabelos”, disse a especialista à publicação.

Foi assim que ela se deparou com os corpos mumificados descobertos e preservados em San Juan, na Argentina, nas proximidades da Cordilheira dos Andes. Ainda assim, o estudo mostrou-se um pouco controverso porque extrair DNA de amostras antigas é complicado.

Geralmente retira-se o material genético dos dentes ou do osso petroso, que fica atrás da orelha. Isso, no entanto, deixa subentendido que a amostra será praticamente destruída para a extração, o que é ainda pior quando ela se encontra em um bom estado de conservação.

Os cientistas perceberam, porém, que o “envoltório” sobre a lêndea, que guardava o DNA humano, era de “altíssima qualidade” e também estava bastante protegido devido às qualidades químicas da cola. Eles também devem armazenar as amostrar para próximos estudos.

"Uma vez que o ovo ficou preso no cabelo, ele imediatamente absorveu as células da pele, provavelmente do couro cabeludo", explicou Mikkel Winther Pedersen, da Universidade de Copenhague.

"O interessante aqui é que [o material] foi protegido da degradação. Tudo se degrada, inclusive eu. Desaparecemos com o tempo. E ainda temos aqui essas amostras", acrescentou.

Descobertas com o DNA

"É muito interessante", afirmou Perotti. "Os piolhos sempre me chamaram a atenção porque moram muito perto do hospedeiro e agem como um espelho. Comecei a usá-los para interpretar o que havia acontecido com o hospedeiro. Graças a eles podemos estudar milhares de anos de história. Eles são um espelho da história evolutiva”, completou.

Foi possível perceber que houve um grande movimento migratório no continente há milhares de anos, quando descobriu-se que uma múmia de 2 mil anos era da Amazônia e outras eram, de entre 1.300 e 1.500 anos, da Patagônia, por exemplo.