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Naufragado em 1892 e redescoberto em 2020: A saga do Abner O'Neal

O navio a vapor é, desde seu ressurgimento, um pedaço fundamental da história do estado da Dakota do Norte

Pedro Paulo Furlan, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 04/12/2021, às 09h00

Navio Abner O'Neal naufragado e ressurgido em 2020
Navio Abner O'Neal naufragado e ressurgido em 2020 - Reprodução / Sociedade Histórica Estadual de Dakota do Norte

Construído em 1884, na cidade de Freedom, no estado norte-americano da Pensilvânia, o Abner O’Neal foi desenvolvido como mais um barco a vapor comercial durante a época em que eram os principais transportes de produtos nas águas dos Estados Unidos, no entanto, seu final foi trágico.

O barco Abner O’Neal transportava, na maior parte das vezes, grãos e outros produtos agrícolas, tanto que, no momento de seu naufrágio, carregava uma grande quantidade de trigo.

Todavia, a Abner O’Neal tornou-se um pedaço da história, registrado devido a sua grande importância na trajetória do comércio estadunidense, da Dakota do Norte, estado onde afundou, até ressurgir pela primeira vez em uma década no ano passado, 2020. 

Usualmente, devido à sua posição, encalhado nos bancos de areia do rio Missouri, o barco é visível a qualquer um que passa nas margens do corpo de água, porém, em 2011, com uma série de inundações, causadas por fortes nevascas, a embarcação foi completamente coberta por quase dez anos.

Quando o navio a vapor Abner O’Neal apareceu na superfície no ano passado, e de novo neste ano, 2021, devido a uma seca no estado da Dakota do Norte, surpreendeu muitos especialistas na história americana e na arqueologia devido a sua condição, além de ser uma possibilidade para que pessoas enamoradas com a embarcação possam vê-la.

Encantado pela história do barco e desejando ver o Abner O’Neal, o americano Nyk Edinger adotou como missão presenciar a embarcação, segundo a cobertura do portal de notícias News Nation. Ele explicou à publicação a importância deste navio no estado da Dakota do Norte.

Muito da nossa história [da Dakota do Norte] foi destruída porque o clima é extremo, então, ter algo tão antigo quanto o Abner O’Neal e ainda poder ver o ferro e a madeira de verdade, originais na sua construção, é uma experiência incrível. Algo tão histórico, algo tão antigo, algo que veio muito antes de mim e estará aqui muito depois de eu me ir, foi muito importante para mim”, declarou.

O que foi o Abner O’Neal?

A construção do navio, em 1884, foi uma decisão conjunta do capitão e dono da embarcação George O’Neal e seu pai, Abner O’Neal, que a deu seu nome. Os dois, figuras conhecidas na região dos municípios de Steubenville, no estado de Ohio, e Wheeling, em Virgínia Ocidental, já tinham experiência com barcos a vapor.

Por anos, a Abner O’Neal foi uma embarcação bastante útil para seus construtores, sendo operada sucessivamente na região do rio de Ohio, no entanto, com as novas rodovias e a transferência da função de transporte para outro tipo de veículo, decidiram vender o navio para Companhia de Transportação do Rio Missouri, em 1890.

O novo rio, todavia, era diferente, seus obstáculos, como congelamento, margens estreitas, bancos de areia, rochas e galhos, eram mais intensos que os de Ohio, e, no fim, resultaram na fatalidade de Abner O’Neal.

Cartão postal com uma fotografia do Abner O'Neal - Foto: Reprodução / Sociedade Histórica Estadual de Dakota do Norte

 

Em primeiro momento tudo parecia correr bem, a população da região adorava o navio e seus movimentos provavam às autoridades que o rio Missouri era facilmente navegável. O problema, na verdade, começou no inverno, em novembro de 1891, em uma das regiões mais perigosas, a Floresta Pintada (Painted Woods, na língua original).

Congelado no meio do rio, o navio Abner O’Neal ficou preso naquela seção do Missouri por quatro meses, devido ao gelo intenso que se acumulou na superfície. Sem nenhuma ideia do quanto os meses de encalhamento e contato direto com o gelo haviam prejudicado a embarcação, o Abner O’Neal navegou de novo em abril de 1892.

Foi na tarde de 17 de julho, no entanto, que o barco encontrou seu final definitivo — seu casco teria sido impactado por uma grande raiz ou tronco, ou pedra, o que criou um grande buraco, como noticiou a Tribuna Semanal de Bismarck, na época.

Toda a tripulação escapou com segurança, mas o navio e a carga vão ser uma perda total. Mesmo submerso em uma profundidade de água tão pequena, não acredita-se ser possível reerguê-la. A maquinaria vai ser provavelmente salva", descreveu o veículo na época.