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O Massacre do Caldeirão e o Boi Milagreiro

No século 20, o beato Zé Lourenço, seguidor de padre Cícero, fez alguns inimigos dispostos a qualquer coisa para derrubá-lo

Xico Sá Publicado em 05/12/2021, às 09h00

Fotografia dos sobreviventes do Massacre do Caldeirão
Fotografia dos sobreviventes do Massacre do Caldeirão - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

O paraibano José Lourenço era um crente. Em 1894, sua fé o levou a Juazeiro, onde, pelo que sabia, um padre fazia milagres. Na cidade, ganhou fama de radical, praticante e defensor da autoflagelação. Conheceu padre Cícero e, com o tempo, tornou-se homem de sua confiança e um dos líderes de sua congregação.

O padim confiou-lhe a missão de cuidar de um sítio nos arredores do Crato, onde abrigava deserdados e miseráveis que chegavam à região fugindo da seca. Lá, Zé Lourenço organizava o trabalho coletivo e chegou a acolher até 5 mil pessoas.

Apesar da proteção de padre Cícero, o beato vivia às turras com a polícia e era tido como inimigo de Floro Bartolomeu, que via nele um perigo por causa de seu fanatismo. Exemplo dessa briga foi o caso da morte do Boi Mansinho, um touro zebu presenteado pelo industrial Delmiro Gouveia ao padre Cícero.

O animal era criado por Zé Lourenço e ganhara a fama de “milagreiro”. Até a urina do animal era usada para “curar doenças”. Floro não gostava do barulho em torno do boi e mandou matá-lo em setembro de 1923.

O beato foi obrigado a comer a carne do bicho, mas não conseguiu, regurgitando-a. José Lourenço foi levado preso e passou uns dias na cadeia. Mas o pior estava por vir. Após a morte de padre Cícero, a liderança do beato cresceu a ponto de não ser mais tolerada.

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Fotografias de Zé Lourenço e padre Cícero, respectivamente / Crédito: Domínio Público, via Wikimedia Commons

 

Em 10 de maio de 1937, três aviões despejavam fogo sobre a mata fechada da Serra do Araripe, onde os fiéis seguidores de José Lourenço tentavam escapar, em desespero, do massacre. Parecia o apocalipse, lembrariam os remanescentes do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, a comunidade rural e coletivista atacada por ordem do ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra. O episódio ficou conhecido como o Massacre do Caldeirão.

Era o governo do presidente Getúlio Vargas que usava ali, pela primeira vez na história do Brasil, a Força Aérea no combate ao que chamava de “antro de fanáticos e desordeiros”. O temor do poder federal era que uma nova Canudos estivesse sendo erguida. Na época, o sítio abrigava cerca de mil moradores.

Além da chuva de bombas, 200 homens da Polícia Militar do Ceará combateram por terra. Em artigos publicados na imprensa na época, os líderes da operação admitiam ter matado 700 pessoas, mas não há um número inteiramente confiável.

A pequena resistência dos fiéis resultou na morte do capitão José Bezerra e pelo menos mais quatro policiais. O beato escapou, escondendo-se em cavernas de pedra na serra. E dizem que jamais retomou sua liderança na região, morrendo vítima de peste bubônica no dia 12 de fevereiro de 1946, aproximadamente aos 75 anos.