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O curioso dia em que Padre Cícero encontrou Lampião — que foi enganado

Frente a frente pela primeira e única vez, o episódio rendeu uma peculiar narrativa

Lira Neto Publicado em 19/09/2020, às 08h00

Lampião (à esqu.) Padre Cícero (à dir.)
Lampião (à esqu.) Padre Cícero (à dir.) - Wikimedia Commons

Ali estavam, frente a frente, pela primeira e única vez, os dois maiores mitos de toda a história nordestina. Uma terceira figura era indiretamente responsável pelo singular encontro: Luis Carlos Prestes, o comandante da Coluna Prestes, movimento militar guerrilheiro que desde o ano anterior serpenteava pelo interior do país, enfrentando as tropas do presidente Artur Bernardes.

Quando a marcha da coluna rumou para o Nordeste, o governo federal não teve dúvidas: convocou os chefes políticos locais para formarem exércitos próprios e assim combater os rebeldes. No livro O General  Góes Depõe, da  década  de 1950, o próprio general Góes Monteiro, chefe de estado-maior das operações contra a Coluna Prestes, assume que partiu dele a ideia de convocar jagunços e cangaceiros para fazer frente ao avanço de Prestes.

Lampião, o Rei do Cangaço /Crédito: Divulgação

 

No Ceará, coube ao deputado Floro Bartolomeu, médico e aliado político do Padre Cícero, fazer o convite oficial ao bando de Lampião para se engajar no “Batalhão Patriótico”. Em fevereiro de 1926, Cícero ainda tentou uma solução pacífica. Assim, enviou ao bando uma carta em que incitava a depor armas.

Em troca, prometeu abrigo em Juazeiro do Norte, onde seriam submetidos a um tratamento justo. De acordo com o relato de Lourenço Moreira Lima, secretário da Coluna Revolucionária, a mensagem foi recebida.

“Tivemos a oportunidade de ler essa carta escrita com uma grande ingenuidade, mas da qual ressaltava o desejo íntimo e sincero do padre no sentido de conseguir fazer a paz”, escreveu Moreira Lima em seu diário de campanha, publicado em 1934.

O pedido, como se sabe, foi ignorado. Quando Lampião chegou no dia 4 de março à cidade de Juazeiro do Norte, atendendo ao chamado de Floro, este não se encontrava mais por lá. Doente, o deputado federal viajara para o Rio de Janeiro, onde acabaria morrendo.

Padre Cícero /Crédito: Divulgação

 

Padre Cícero se viu então com um problema nas mãos: recepcionar o bandido e seus cabras na cidade e mais ainda, cumprir o que havia sido combinado entre Lampião e o deputado, com a devida aprovação do governo federal: o cangaceiro deveria receber dinheiro, armas e a patente de capitão do “Batalhão Patriótrico”.

Lampião e outros 49 cangaceiros ocuparam uma casa próxima à fazenda de Floro, nas imediações da cidade, e, em seguida, alojaram-se em Juazeiro do Norte, no sobrado onde residia João Mendes de Oliveira, conhecido poeta da região.

Foi lá que o Padre Cícero encontrou o bando. Os bandidos, ajoelhados, teriam escutado padre tentar convencer seu líder de largar o cangaço logo após voltasse da campanha contra Prestes. Mandou-se então chamar o único funcionário federal disponível na cidade, o agrônomo Pedro de Albuquerque Uchoa, para redigir um documento que, supostamente, garantiria salvo-conduto ao bando pelos sertões.

O papel, como Lampião viria a descobrir tão logo saiu da cidade, não tinha qualquer valor legal, o que não o impediu de assinar, daí por diante, “Capitão Vírgulino”, um título que não existia.  Ciente da desfeita, o cangaceiro não se preocupou mais em dar combate à Coluna Prestes.

Já obtivera dinheiro e armas em número suficiente para seguir seu caminho de bandoleiro. Mais tarde, Uchoa justificou seu papel no episódio: diante de Lampião, assinaria qualquer coisa. “Até a destituição de presidente da República”, disse.


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