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Matérias / Segunda Guerra

O momento da redenção: o Dia da Vitória durante a Segunda Guerra

A cerimônia de rendição da Alemanha teria de ser em Berlim, marcando o fim da guerra e o início de uma nova era

Ricardo Lobato* Publicado em 21/05/2022, às 17h37

Imagem meramente ilustrativa - Pixabay
Imagem meramente ilustrativa - Pixabay

Maio é o mês em que se comemora o aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa ou, simplesmente, dia VE (Vitória na Europa). Ainda que a guerra como um todo tenha acabado apenas em setembro de 1945 (com a capitulação do Japão), foi com a derrota da Alemanha Nazi, e o fim da guerra em solo europeu, que o mundo respirou mais aliviado.

Em tempos em que um conflito entre nações volta a assombrar a Europa, é importante relembrar o que foi o Dia da Vitória. Tema desta coluna. Dia 6 de maio de 1945, Europa devastada. Hitler cometera suicídio em 30 de abril e os soviéticos tomaram Berlim em 2 de maio, mas então, por que ainda havia guerra?

Nazistas espalhados

Mesmo que americanos e russos tivessem se encontrado (vindos do oeste e leste respectivamente) em Torgau, nas margens do Rio Elba, e a capital tivesse caído, as forças da Alemanha encontravam-se espalhadas pelo país inteiro. Pior, por toda a Europa havia bolsões de resistência da Wehrmacht e pesados combates ainda eram travados.

Em seu testamento político, o Führer passara o comando para o almirante Karl Dönitz, nomeando-o chefe de Estado, e instigara seus seguidores a continuar resistindo até o final. Em resumo, mesmo perto do fim, na Alemanha e na Europa em princípio de maio de 1945, o caos estava instalado.

Com Berlim nas mãos do Exército Vermelho, o almirante Dönitz movera a sede do governo para Flensburg, uma cidade no norte da Alemanha, na fronteira com a Dinamarca. Mas embora mostrasse intenções de estabelecer uma nova administração, nem norte-americanos nem soviéticos, os dois principais Aliados, davam credibilidade a um regime que era a continuação direta do III Reich e que mantinha muitas figuras dos Partido Nazista em postos-chave.

Eisenhower

Para contornar esta situação inusitada, Dönitz enviou o general Alfred Jodl, chefe do Alto-Comando da Wermacht, para a cidade francesa de Reims. Lá estava situado o Quartel do general Eisenhower, Comandante Aliado Supremo. Em Reims, Jodl escutou de Eisenhower que “nada, senão a capitulação imediata, simultânea e em todos os fronts” das tropas alemãs era aceitável.

Caso isso não ocorresse, Ike, como o Comandante Supremo Aliado era chamado, ordenaria a “destruição total de todas as forças alemãs”. Depois de se consultar por telefone com Dönitz, Jodl foi autorizado a assinar a rendição.

Entretanto, havia um problema: o oficial de ligação soviético com os Aliados Ocidentais, general Ivan Susloparov, não estava autorizado por Moscou a assinar em nome da União Soviética. Eisenhower e os alemães sabiam disso, mas, diante da urgência em resolver a questão, no dia 7 de maio de 1945, na sede do Alto-Comando Aliado em Reims, foi feita a assinatura do documento.

O general Jodl assinou pela Alemanha; o general norte-americano, Bedell Smith, assinou em nome dos Aliados Ocidentais; o general Susloparov pela URSS; e o general francês, François Sevez, como testemunha.

Entretanto, seis horas depois das canetadas – antes mesmo que a imprensa fosse autorizada a liberar as imagens da cerimônia – Ike recebeu um telefonema do quartel-general soviético na Berlim ocupada dizendo que a assinatura era “inaceitável” e que Stalin, o líder máximo da URSS, não ratificava a firma de Susloparov.

Os soviéticos defenderam que o texto assinado era “vago”, pois, além de não estar conforme os protocolos previamente aprovados na Conferência de Ialta, deixava margem para interpretação. Apesar de falar em “rendição incondicional de todas as Forças alemãs”, em nenhum momento fazia menção ao desarmamento das tropas da Wermacht – algo que Eisenhower de pronto concordou.

Todavia, além das questões legais, havia o simbolismo. A URSS foi quem mais sofrera – em custo humano e material – com a Segunda Guerra. Não à toa, até hoje o conflito é conhecido na Rússia como "A Grande Guerra Patriótica” e, tendo derrotado “o invasor fascista” em sua capital, os russos não aceitavam que a cerimônia de rendição fosse feita em uma cidade na França.

Teria de ser em Berlim, marcando o fim do conflito e o início de uma nova era. Um novo documento foi então assinado em 8 de maio, em Berlim. Os soviéticos também exigiram que todos os principais Aliados e um representante de cada Força Armada da Alemanha assinassem – e assim foi.

Pela URSS o marechal Zhukov; pelos EUA o general Spaatz; pelo Reino Unido o marechal do Ar Tedder; e pela França o general De Lattre. Já pelas Forças Armadas da Alemanha e pelo Exército alemão o marechal Keitel; pela Luftwaffe o general Stumpff; e pela Kriegsmarine o almirante Von Friedeburg.

Embora no horário de Berlim ainda fosse dia 8 de maio, ao consultar a data em seu relógio, o comandante soviético viu que em Moscou já era dia 9 e, por isso, escreveu essa data no documento. A cerimônia marcou o fim do conflito mais mortífero da História e o início de uma nova era para a humanidade.

No mês do Dia VE para os Aliados Ocidentais (inclusive para nós, brasileiros) e do Den Pobedy (Dia da Vitória) na Rússia e ex-Repúblicas Soviéticas e, diante de tantos desafios atuais, que possamos celebrar a paz. A todos(as), um Feliz Dia da Vitória (na Europa)!


Maio é um mês muito especial. Há dois anos, este colunista, leitor de AVENTURAS NA HISTÓRIA desde a infância, publicava a primeira coluna da seção Forças Armadas e Assuntos Militares. Ao longo dos últimos dois anos, esta parceria cresceu e evoluiu para matérias completas e até uma capa, como foi a do mês passado sobre A Origem da Guerra na Ucrânia. Um obrigado especial a Izabel Duva Rapoport, atual editora; à maravilhosa equipe, que se esmerou para continuar trazendo conteúdos de qualidade mesmo durante os tempos pandêmicos; ao Grupo Perfil, pela vida nova para a revista; e sobretudo a você, leitor(a) querido(a), que nos acompanha mês a mês nessas aventuras pelas guerras ao longo da história.


Ricardo lobato (@ricolobato07) é sociólogo e mestre em economia pela Unb, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro
e Consultor-Chefe de Política e Estratégia da EQUILIBRIUM – Consultoria, Assessoria e Pesquisa (@equilibrium_cap)