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"Ao comandante alemão, Nuts!": O natal nas Ardenas

Em 16 de dezembro de 1944, os exércitos de Hitler avançaram pela Floresta de Ardenas e surpreenderam as tropas Aliadas

Ricardo Lobato Publicado em 05/12/2021, às 11h00

Tropas norte-americanas na Floresta de Ardenas
Tropas norte-americanas na Floresta de Ardenas - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Quando os Aliados desembarcaram na Normandia em 6 de junho de 1944 e, apesar dos combates ferozes, conseguiram atravessar a França e libertar Paris em 25 de agosto, havia o sentimento geral de que seria possível acabar com a guerra até o Natal.

Com o Exército Vermelho avançando pela Ucrânia, Polônia e Bielorrússia, e na Frente Ocidental com França e Bélgica praticamente libertadas, parecia que finalmente o domínio da suástica estava chegando ao fim na Europa. Entretanto, apesar de já darem a guerra como perdida desde agosto de 1943, os alemães estavam decididos a resistir até o final, cobrando um preço alto pela derrota.

Os comandantes militares em Berlim sabiam que as linhas de suprimento Aliadas estavam muito esticadas. Quanto mais avançavam na Europa, maiores eram as dificuldades logísticas que norteamericanos, ingleses e canadenses encontravam.

Por esse motivo, a tomada do porto belga da Antuérpia era tão importante para os Aliados. Com uma linha de abastecimento direto perto da Alemanha, poderiam finalmente se preparar para lançar o assalto final contra o Reich.

Mesmo que tivessem assegurado o porto, as forças Aliadas estavam enfraquecidas depois de longos meses de combate, a oportunidade perfeita para o contra-ataque alemão. No Alto-Comando em Berlim, a maior parte dos generais queria concentrar os últimos esforços dos quais dispunha a Alemanha contra os soviéticos, mas, vendo a aparente fraqueza dos norte-americanos na Bélgica, Hitlervislumbrou a oportunidade de retomar a Antuérpia e atrasar o avanço Aliado.

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Tropas de Hitler avaçando pela Floresta de Ardenas / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Como a vontade do Führer era uma ordem, os comandantes alemães se apressaram em bolar um plano de ação rápida e letal contra as forças concentradas na região das Ardenas. O ataque deveria ser coordenado e contar com as melhores Unidades das quais o país ainda dispunha. Uma vez assegurada a supremacia na fronteira, as forças seguiriam para o norte e retomariam o porto belga.

A operação foi lançada em 16 de dezembro e pegou os Aliados de surpresa. Mesmo que os alemães tivessem usado a Floresta das Ardenas como passagem para tomar a França em 1940, dadas as informações das quais a inteligência norte-americana dispunha, nada indicava que um ataque ocorreria na época do Natal, por esse motivo, possuíam apenas algumas poucas unidades na região.

Quem respondeu ao ataque germânico foi a 101ª Divisão Aerotransportada dos EUA, a famosa tropa paraquedista. Entretanto, como foram pegos de surpresa, estavam mal armados, mal equipados e, para piorar, em meio a um inverno terrível, sem roupas adequadas para enfrentar o frio.

Tanques da Alemanha alinhados no front / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Àquela altura dos combates, parecia que o curso da guerra de fato se invertera. A Alemanha estava à beira do colapso, mas as forças do Reich na linha de frente dispunham do que havia de melhor e mais moderno no arsenal alemão, enquanto que as tropas dos EUA se encontravam em condições deploráveis e cercadas.

Mesmo diante de todas as adversidades, os paraquedistas mostraram seu valor. Os alemães, admirados pela tenacidade com que seu adversário havia respondido aos ataques, resolveram fazer uma oferta de rendição.

No dia 22 de dezembro, o comandante alemão general Heinrich von Lüttwitz enviou uma mensagem a seu homólogo norte-americano, general Anthony McAuliffe, em que, em linhas gerais, se lia: “Ao comandante dos EUA na cidade cercada de Bastogne. A sorte da guerra está mudando. Há apenas uma possibilidade de salvar as tropas americanas cercadas da aniquilação total: essa é a rendição. Assinado: O comandante alemão”.

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Tropas norte-americanas marchando em janeiro de 1945 / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Ao tomar conhecimento do documento, a primeira reação do general McAuliffe foi a de entender que os alemães queriam se render. Só então que compreendeu que estavam na verdade demandando a rendição dos americanos, ao que exclamou, “Nuts!”, que em tradução literal significa “nozes”, mas, na linguagem informal pode ser entendida como “Loucos!”. Ao contrário de outros comandantes norte-americanos, que eram conhecidos por usarem palavras de baixo calão, McAuliffe não tinha o costume de xingar, sendo “Nuts!” o mais próximo que expressava.

No QG dos EUA pairavam então duas dúvidas: a oferta deveria ser respondida? Todos concordaram que sim; e como responder? Foi então que o tenente-coronel Kinnard, auxiliar de McAuliffe, sugeriu que a resposta deveria ser a própria reação do general.

Trataram, então, de escrever: “Ao comandante alemão: ‘Nuts!’ Assinado: O comandante americano, general Anthony McAuliffe”. Incumbiram então o coronel Harper de levar a mensagem com a resposta até os emissários alemães.

Quando o tradutor leu a mensagem a seu superior, este, confuso, respondeu: “Nozes!? Isso é positivo ou negativo?”. Com uma gargalhada o coronel Harper replicou: “Definitivamente negativo!”. E depois de responder à ameaça alemã que se seguira, emendou: “Isto é guerra!”.

Os combates na batalha se arrastaram até 25 de janeiro de 1945, um mês após o Natal. Ao final, as tropas do general Patton romperam o cerco libertando a 101ª e as forças alemãs se renderam. Em 8 de maio daquele ano a Alemanha capitularia, chegando ao fim a Guerra na Europa. Feliz Dia V.E. (Vitória na Europa) e Feliz Natal!

Tropas norte-americanas em janeiro de 1945 / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Ricardo Lobato é sociólogo e mestre em economia pela unb, oficial da reserva do exército brasileiro e consultor-chefe de política e estratégia da Equilibrium — consultoria, assessoria e pesquisa.