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O paciente mais demonizado da história: a melancólica saga de Gaetan Dugas

O homem que morreu com peso de ter sido o primeiro a contrair aids na América acabou sendo inocentado após estudos genéticos

Giovanna de Matteo Publicado em 09/08/2020, às 08h00

Gaetan Dugas em registro pessoal
Gaetan Dugas em registro pessoal - Divulgação

O canadense Gaetan Dugas ficou conhecido como o "paciente zero"de Aids na América. Todavia, depois de muitos anos com essa fama, cientistas descobriram que na verdade havia ocorrido um erro de interpretação nos exames do rapaz.

Gaetan Dugas era homossexual e comissário de bordo da companhia Air Canada. Morreu por complicações da Aids em 1984. O erro, que por muitos anos demonizou o paciente como um dos responsáveis por espalhar a epidemia de aids intencionalmente na América, surgiu por uma má interpretação dos exames, que confundiu a letra O com o numeral zero. Um "paciente O" na verdade significava "out-of-California", que identificava uma pessoa infectado com vírus HIV de fora do Estado da Califórnia. 

Em outros surtos, como o de Ebola na África, a expressão "Paciente Zero" é usada para definir o primeiro caso registrado da doença. No caso de Dugas, porém, a letra foi confundida com o numeral ao longo do tempo, e ele passou a ser julgado por um erro.

Acreditava-se que a disseminação de Aids aconteceu de maneira diferente ás outras doenças, e que foi em 1981 que essa síndrome começou a se popularizar, após relatos de sintomas anormais advindos principalmente de homens gays.

Coleta de sangue / Pixabay

 

Investigadores, no entanto, conseguiram se aprofundar nos estudos e analisaram amostras de sangue que, até então, estavam armazenadas como provas de hepatite na década de 1970, mas que na realidade, descobriram que algumas delas já continham HIV.

Porém, com a notícia de que o canadense não seria o "paciente Zero", a equipe da Universidade do Arizona reconstruiu o código genético do vírus nesses pacientes e depois de avaliar 2 mil amostras, provindas de Nova York e São Francisco, os cientistas conseguiram detectar oito códigos genéticos completos do HIV. Isso facilitou a construção de uma árvore genealógica do HIV, que pode identificar quando o vírus chegou nos Estados Unidos.

Michael Worobey, um dos pesquisadores do estudo disse que datas mais precisas sobre a origem da epidemia nos Estados Unidos seriam por volta de 1970 e 1971, e declarou que "as amostras apresentam tamanha diversidade genética que não é possível que elas tenham origem no final da década de 1970".

"Os pesquisadores do CDC inicialmente se referiram a ele como Paciente O - a letra "O" é a abreviação de "Out of California, desde que ele não era um residente do estado. Esse apelido evoluiu, inadvertidamente, para se tornar "Paciente 0" na versão final do estudo de cluster publicado em 1984", explica Richard  McKay, autor de Patient Zero e the Making of the Epidemic AIDS, em entrevista à HIV Plus Magazine.