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Quilombos urbanos: Os focos de resistência na luta abolicionista

Nos arredores das grandes cidades, escravos fugitivos plantaram comunidades clandestinas que sobreviviam do intercâmbio com os negros libertos

Márcio Sampaio de Castro Publicado em 25/08/2019, às 06h00

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- Crédito: Reprodução

Era o ano de 1880. Pelas acanhadas ruas da cidade de São Paulo, um negro descalço e vestindo calça de algodão carrega um pedaço de pau com quatro galinhas amarradas nas extremidades. Ao dobrar a esquina, ele se depara com uma patrulha policial. Sua trajetória é, então, bruscamente interrompida.

Os oficiais querem saber a quem o homem pertence e o que faz por ali. Com duas ou três respostas muito bem decoradas, o escravo disfarçado se livra da patrulha e segue seu caminho. Deixa a mercadoria no Largo do Rosário com uma quituteira, também negra, e rapidamente desaparece no meio da multidão que transita por ali, encaminhando-se para as bandas do riacho Saracura.

Nas metrópoles emergentes no final do século 19, como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, já era quase impossível diferenciar quem era escravo, ex-escravo ou fugitivo. A portuária Santos, por exemplo, contava com cerca de 10 mil negros fugitivos que conviviam com uma população oficial de 13 mil pessoas. A presença de tantos fujões nas cidades produziu o fenômeno menos conhecido da história da escravidão no Brasil: os quilombos urbanos.

O Saracura, para onde nosso personagem escapou no início desta reportagem, hoje o bairro da Bela Vista (também chamado de Bexiga), era um desses recantos em que os escravos que escapavam da servidão se aproveitavam da vasta vegetação de Mata Atlântica para montar abrigos e esconderijos. Ali, estavam livres para cultuar seus deuses, fazer música, pequenas roças e criar animais, que depois eram vendidos ou trocados    nos mercados locais. Um ato de rebelião que se renovava todo santo dia.

Ao contrário dos chamados quilombos de rompimento, como o de Palmares, que se caracterizavam por se assentarem em locais distantes, com o objetivo de evitar caçadores de recompensa e, ao mesmo tempo, romper com o modelo de civilização europeia, tentando recriar o mundo africano, os quilombos urbanos pareciam pequenos povoados.

Localizados bem próximos das cidades, tinham casas de pau a pique, construídas com barro e pequenos troncos de árvores, bambus e cipós. Os casebres, plantados em clareiras na mata, eram rodeados pelas criações de cabras, galinhas, porcos e animais de estimação. Com o tempo, os quilombolas fizeram pequenas roças de milho e de mandioca, sem dúvida, um traço da influência indígena.

Casal de ex-escravos / Crédito: Reprodução

 

 “No modelo tradicional de resistência à escravidão (o quilombo de rompimento), a tendência dominante era a política do esconderijo e do segredo de guerra. Por isso, os quilombolas esforçavam-se para proteger o seu dia a dia, sua organização interna de todo tipo de forasteiro”, descreve o pesquisador do setor de História da Fundação Casa de Rui Barbosa do Rio de Janeiro, Eduardo Silva. “Já os quilombos urbanos eram dormitórios dos negros fugitivos que tentavam a sobrevivência nos mercados e nos portos das cidades”, completa.

Os esconderijos urbanos proliferam com a vinda da família real portuguesa para o Brasil, em 1808. O boom aconteceu principalmente nas cidades portuárias como Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Pelotas. Por quê? Ora, porque agora era preciso mais mão de obra. A economia local havia ganhado impulso com a chegada da corte, e, com o empurrão financeiro, crescia também o número de negros vindos da África.

Bastava um passeio pelas ruas do Rio de Janeiro, por exemplo, para perceber o frenesi. No porto, os escravos perambulavam de um lado para o outro carregando sacas dos navios para o cais. Já no centro da cidade encontravam-se os chamados escravos de ganho, que trabalhavam como marceneiros, sapateiros, prostitutas, quitandeiras ou carregadores. No final do dia, eles levavam o dinheiro arrecadado para os seus senhores.

No meio dessa massa misturavam-se os negros libertos e fugitivos das fazendas – ou seja, os habitantes dos quilombos urbanos. Esses agrupamentos de negros fujões tiraram o sono dos poderosos. Preocupados com as concentrações clandestinas de negros, as autoridades espalhavam capitães do mato (os caçadores de escravos fugidos), patrulhas policiais e até o Exército pelos subúrbios com a missão de descobrir e destruir os esconderijos.

 “As aglomerações ficavam a quatro ou cinco quilômetros da cidade, encravadas no alto dos morros ou nos vales”, explica o professor Wilson do Nascimento Barbosa, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – FFLCH/USP.

Dois bons exemplos que demonstram o pânico causado pelos quilombos urbanos estão em correspondências expedidas por autoridades coloniais. Em 1791, o governador de São Paulo, Bernardo José Maria Lorena, ordenou ao seu capitão-mor que transmitisse instruções aos capitães de suas ordenanças. Sua exigência: espalhar soldados com armas de fogo para “prender ou matar os negros dos quilombos que tanta desordem andavam fazendo na cidade”.

Em 1807, o governador da Bahia, João de Saldanha da Gama Mello e Torres Guedes de Brito escreveu de Salvador para o Conselho Ultramarino em Portugal: “Sendo muito frequentes as deserções de escravos do poder de seus senhores, entrei na curiosidade de saber que destino seguiam, e sem dificuldade, conheci os subúrbios desta capital, onde são inumeráveis os ajuntamentos desta qualidade de gente”.

Com tanto burburinho, os quilombos urbanos tornaram-se, ao mesmo tempo, mais atraentes e mais perigosos para os negros que ali se refugiavam, já que caçar negros virou um negócio lucrativo para os cidadãos livres. Tanto que o que mais rendia anúncios para as seções de classificados dos jornais eram exatamente os valores oferecidos pela captura de um fugitivo.

“Para uma pessoa pobre, fosse branca ou mulata, prender um cativo fujão era uma ótima forma de ganhar uns trocados, o que unia a população livre contra o escravo fugitivo”, conta o pesquisador Mário José Maestri Filho, da Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul.

No meio de tantos delatores, os negros fugitivos podiam contar especialmente com a ajuda dos escravos de ganho e dos africanos que já tinham conquistado a liberdade. Eles davam um jeitinho de camuflar os companheiros. A estratégia era bastante simples: misturavam-se uns aos outros nos mercados para que o trabalho de repressão ficasse difícil.

Crédito: Reprodução

 

Na bagunça, tornava-se quase impossível saber quem era quem. Alguns comerciantes também colaboravam com os fujões. Para eles, era vantajoso manter os fugitivos por perto. Em troca do silêncio, exploravam a mão de obra, além de comprar produtos baratos e de boa qualidade produzidos nos quilombos.

A luta pela liberdade

Enquanto as aglomerações de negros tomavam conta dos subúrbios das cidades, a abolição da escravatura passava a fazer parte das rodas de conversas dos intelectuais, dos políticos, de integrantes da classe média urbana e até da elite econômica, que, timidamente, começava a criar estratégias para pressionar pelo fim do regime servil.

A primeira vitória dos defensores da liberdade dos negros foi uma nova legislação que entrou em vigor em setembro de 1850, graças à pressão da coroa britânica. Por motivos econômicos, os ingleses vinham perseguindo e dificultando a vida dos traficantes de escravos desde o início do século.

A nova lei, denominada Eusébio de Queiroz, previa penas para o tráfico negreiro que iam da apreensão dos navios e suas cargas até a prisão de todas as pessoas que fossem flagradas participando desse tipo de negócio. Um golpe dramático para os fazendeiros e demais escravocratas.

Por outro lado, a Guerra do Paraguai (1865-1870), onde milhares de combatentes negros lutaram pelo Brasil, fez com que muitos militares se tornassem também simpáticos à causa. O resultado disso tudo é que as ações abolicionistas encontravam cada vez menos resistência e repressão. Estavam criadas as condições para que surgisse um novo tipo de quilombo urbano, o quilombo abolicionista.

Essa forma de organização dos escravos apresentava diferenças marcantes dos quilombos de rompimento, localizados no interior do país. Eram comandados por líderes que mostravam a cara e brandiam a bandeira da abolição sem medo. “Os líderes eram cidadãos livres, com documentação civil em dia e muito bem articulados politicamente. Não se tratava mais dos guerreiros do modelo anterior. Agora a liderança representava uma espécie de ponte entre a comunidade de fugitivos e a sociedade”, diz o historiador Eduardo Silva.

Integrantes do movimento pela liberdade dos negros, como André Rebouças e Antonio Bento, por exemplo, incentivavam a formação dos quilombos abolicionistas. E entidades como a Confederação Abolicionista, localizada no Rio de Janeiro, e os Caifazes, da cidade de São Paulo, promoviam e apoiavam as fugas em massa das fazendas. Depois de viajar de trem, amontoados em charretes ou mesmo a pé, os negros desembarcavam nos principais quilombos abolicionistas: Petrópolis, na Serra Fluminense; Leblon, no Rio de Janeiro; Cupim, em Recife, e Jabaquara, em Santos. Este último chegou a ter cerca de 10 mil escravos.

Nos anos que se seguiram, muitos quilombos abolicionistas pipocaram país afora. E a presença crescente desses quilombolas nas paisagens urbanas somada à intensificação dos movimentos de libertação, à facilidade cada vez maior para os deslocamentos dos negros e à diminuição das perseguições resultaram no fim, de fato, da escravidão no Brasil.

Quando, em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinou a famosa Lei Áurea, a liberdade já fazia parte da vida da população negra. A lei apenas oficializou uma realidade conquistada a duras penas. O Brasil foi o último país do Ocidente a acabar com o regime de trabalho servil.