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Reconstrução facial origina o rosto de Santa Ludmila, morta em 921 d.C

Projeto que envolveu o crânio da padroeira da República Tcheca teve participação do designer Cícero Moraes, que falou com exclusividade ao site Aventuras na História

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 26/09/2021, às 08h00

Reconstrução facial de Santa Ludmila
Reconstrução facial de Santa Ludmila - Cícero Moraes

“Santa Ludmila é uma das padroeiras da República Tcheca, dar uma face a ela é, de certa forma, dar uma face a parte da história do país”, diz Cícero Moraes, designer brasileiro, quando perguntado sobre a importância do projeto que deu vida ao rosto da mártir tcheca, divulgada ao público neste mês.

O especialista em reconstrução facial forense foi o responsável por revelar o rosto da santa, considerada como a primeira mártir cristã da Boêmia, em um projeto idealizado pelo Arcebispado de Praga, pelo Gabinete do Presidente da República e pelos Cavaleiros de São Lázaro de Jerusalém.

O rosto de Santa Ludmila / Crédito: Cícero Moraes

 

Embora muitas pinturas antigas representassem Santa Ludmila como uma mulher pequena e frágil, os ossos mostraram que, na verdade, ela era forte e robusta. Ela também media 1,68m de altura, o que, para a época, era considerada uma estatura bastante elevada e não estava assinalado em nenhum registro histórico.

A reconstrução

Para projetar digitalmente o rosto de Santa Ludmila, Moraes contou com o crânio atribuído à mártir, descobertos na Basílica de São Jorge, no Castelo de Praga. No entanto, nem ele estava completo: extremamente danificado, o crânio precisou ser reconstruído em uma modelagem 3D para o projeto. 

“A peça anatômica extraída do relicário era apenas a parte superior do crânio, para completar o material foi necessário recorrer aos estudos do Dr. Emanuel Vlcek que analisou outros fragmentos pertencentes a peça, dentre eles uma série de dentes que pôde, a partir destes fragmentos, reconstruir o crânio completo através de desenhos”, explicou.

Processo da reconstrução facial / Crédito: Cícero Moraes

 

De acordo com o especialista, foi necessário cruzar o material obtido anteriormente pelo paleoantropólogo e a peça disponível para reconstruir o crânio. Para ele “esse talvez foi o maior desafio do projeto”, que contou com três métodos diferentes: o russo, o de Manchester e o americano.

Ele ressalta que, com a reconstrução, foi possível observar aspectos importantes sobre a figura histórica. “O prognatismo, ou seja, uma projeção maior dos dentes superiores, algo presente em um dos filhos dela [Vratislau], que coincidentemente também reconstruí”, diz Cícero.

Isso significa que a Santa tinha uma sobremordida marcante na mandíbula superior, o que dava um aspecto singular ao seu rosto e se tornou uma herança familiar, pois foi observada tanto em seu filho Vratislau quanto em seu neto, São Venceslau, anos mais tarde. 

Reconstruções faciais de Espitigneu I e Vratislau I / Crédito: Cícero Moraes

 

O projeto que revelou o rosto de Vratislau, duque da Boêmia, e seu irmão, Espitigneu I, que também foi duque da Boêmia e fundador do Castelo de Praga, e contou com participação do designer, foi divulgado em março deste ano. Você pode saber mais sobre estas reconstruções faciais clicando aqui

Mártir da Boêmia

Santa Ludmila nasceu como filha do príncipe sorábio Slavibor em 860 d.C, na cidade de Mělník, na República Checa, e provavelmente morreu estrangulada há mais de mil anos, em um episódio polêmico. 

“Aparentemente houve uma rusga entre a santa e Drahomira, a esposa do seu filho mais velho, Vratislau da Bohemia. Após o falecimento do mesmo, o ducado foi confiado à Drahomira que acusou a santa de tentar governá-lo no lugar dela”, conta Moraes. “Poucos anos depois do episódio, Ludmila foi estrangulada em 15 de setembro de 920 e especula-se que a mando da sua própria nora”. 

Santa ao lado de modelo 3D / Crédito: Crédito: Cícero Moraes

 

Com seu falecimento, tornou-se a primeira mártir cristã na Boêmia e é adorada tanto pelos ortodoxos quanto pelos católicos romanos. Agora, é possível observá-la novamente por meio da reconstrução facial que a traz “à vida”. 

Segundo o designer, “uma vez que o crânio seja compatível com o real e a técnica tenha sido bem aplicada, a compatibilidade volumétrica pode ser de 85 a 92%”. Ou seja, Santa Ludmila provavelmente se parecia muito com o que vemos nas imagens em 3D apresentadas pelo projeto.


+ Saiba mais sobre o trabalho de Cícero Moraes por meio de seu site.