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Sequestro, rivalidade e violação: a vida íntima de Dadá no Bando de Lampião

Casada com Coriso, a amazona do cangaço foi forçada a se juntar ao grupo ainda jovem

Victória Gearini Publicado em 12/06/2020, às 09h55

Sérgia Ribeiro da Silva, mais conhecida como Dadá
Sérgia Ribeiro da Silva, mais conhecida como Dadá - Wikimedia Commons

Ao lado de Maria Bonita, Dadá é um dos nomes femininos mais notórios do cangaço. Ainda jovem, ela se juntou ao bando por meio de Corisco, seu parceiro. Guerreira, ela foi única mulher a portar um fuzil enquanto fez parte do bando liderado por Lampião.

Nascida Sérgia Ribeiro da Silva, em 25 de abril de 1915, em Belém do São Francisco, Pernambuco, Dadá se juntou ao grupo ainda muito nova, após ser raptada e abusada sexualmente, como afirma a pesquisadora Rosa Bezerra, autora da obra A Representação Social do Cangaço.

Primeiro contato com o Cangaço

Cristino Gomes da Silva Cleto, mais conhecido como Corisco, era o braço direito de Lampião, líder do bando mais poderoso e notório do sertão nordestino. Dadá, até então, vivia com a sua família em Belém de São Francisco (PE), no entanto, a cangaceira foi sequestrada por Corisco, como forma de vingança contra seu pai, que foi acusado de delatar um parente de Corisco à polícia.

Além de Dadá ter sido violentada, em entrevista reproduzida pelo documentário Feminino Cangaço, a amazona afirmou que seus irmãos mais novos tiveram as pontas de seus dedos cortados, o pai teve uma orelha arrancada, e sua mãe e irmãs ficaram presas sem comida durante cinco dias.

Imagem colorizada de Dadá e Corisco / Crédito: Divulgação / Rubens Antonio

 

A partir de 1930, mulheres passaram a serem aceitas no cangaço. Dadá foi contra a sua vontade, permanecendo no bando durante 12 anos, onde foi abusada sexualmente e contraiu uma forte febre, após ser sequestrada. 

Embora muitas cangaceiras exigissem de seus maridos joias, perfumes, brilhantinas e maquiagens, Dadá relutou contra esses luxos, como aponta o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello. “Eu aconselhava as outras meninas a não ir. Vê a festa e não sabe o que sofre: dormir no molhado, andar no espinho, fugir tomando tiro, a ruína da sua família... Os períodos de glória e fartura se revezavam com os de miséria”, disse Dadá em diversas entrevistas após o bando se desfazer. 

Desavenças com Maria Bonita e armamento

Na época, Maria Bonita era companheira de Lampião, o maior líder do Cangaço, por isso ela tinha maior destaque dentro do bando. No entanto, Dadá foi a primeira e única mulher a portar um fuzil dentro do grupo, mesmo assim não era tão respeitada e admirada quanto Maria Bonita.

Dadá durante o cangaço / Crédito: Wikimedia Commons

 

Além disso, o fato da companheira de Lampião mandar e desmandar em todos incomodava profundamente Dadá, pois mesmo sendo a rainha do subgrupo, ela não tinha a mesma autoridade que a mulher do líder, sendo desrespeitada inúmeras vezes por outros cangaceiros. Dadá dizia, ainda, que Maria Bonita era abusada e orgulhosa, se vestindo que nem uma boneca. 

“As moças carregavam pistolinhas, mas eu tinha um revólver 38 e cartucheira de duas camadas. As caixas de bala eu levava numa panelinha, porque eu gastava muito. E um punhalzinho. Mas para enfeite, porque eu não ia furar ninguém”, afirmou Dadá em entrevistas. 

Nova liderança 

Após o bando de Lampião ser atacado no sertão de Sergipe, em julho de 1938, o grupo foi desfeito,e quem sobreviveu fugiu ou se entregou às autoridades. A partir disso, àqueles que permaneceram se dividiram, e Corisco assumiu a liderança de um desses fragmentos. 

Com sede de vingança, Corisco ordenou matar uma família inteira que supostamente delatou Lampião. No entanto, a informação estava errada e o cangaceiro assassinou pessoas inocentes. 

Cabeças cortadas do bando de Lampião / Crédito: Wikimedia Commons

 

A partir disso, passou a fugir constantemente e o grupo foi enfraquecido, até que em agosto de 1939, Corisco foi baleado tornando-se incapaz de liderar. Dadá, por sua vez, se tornou a primeira mulher a liderar o cangaço, durante um ano.

Prisão e últimos anos de vida 

Em meados de 1940, Corisco e Dadá viviam escondidos em uma fazenda em Barra do Mendes (BA), levando uma vida normal. No entanto, foram surpreendidos pelas autoridades e Corisco foi assassinado. Já a amazona foi baleada na perna, que mais tarde precisou ser amputada.

Após o fatídico episódio, ela ficou presa durante dois anos, e em 1968, reencontrou o coronel Zé Rufino — responsável pelo ataque ao casal — durante uma entrevista a revista Realidade. Na ocasião, a cangaceira chorou muito, mas o perdoou, embora afirmasse que havia sido uma emboscada cruel. 

Anos mais tarde casou-se com o pintor Alcides Chagas, e passou a trabalhar como costureira, na periferia de Salvador, onde viveu até sua morte, em 1994, aos 78 anos.


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