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Tiwanaku: a cultura que ocupou os Andes antes dos Incas

Novas pesquisas que encontraram ossos de lhama sacrificial e medalhões de ouro revelam as peregrinações ritualísticas realizadas pelo grupo

Joseane Pereira Publicado em 04/04/2019, às 09h12

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Centenas de anos antes da ascensão do Império Inca ao longo da Cordilheira dos Andes, um povo realizava peregrinações e rituais grandiosos em volta do Lago Titicaca. A cultura Tiwanaku, que prosperou de 550 a 950 d.C., ocupava partes do que hoje é a Bolívia, norte do Chile e sul do Peru, e era contemporânea dos Wari e Moche, duas outras potências regionais da época.

Novas pesquisas arqueológicas estão começando a preencher algumas lacunas sobre a cultura e história de Tiwanaku. Resgatados das águas de altitude do Lago Titicaca, artefatos como medalhões de ouro, esculturas de pedra e restos de lhamas sacrificiais revelam que as peregrinações desempenhavam importante papel para esta antiga cultura, como sugere o estudo publicado pela revista científica Proceedings of National Academy of Sciences.

Christophe Delaere, do Centro de Arqueologia Marinha da Universidade de Oxford, detectou depósitos arqueológicos subaquáticos no lago por volta de 2008. Co-autor do estudo, ele e sua equipe têm resgatado esculturas semipreciosas, bem como conchas de ostras espinhosas transportadas de águas quentes do Equador e medalhões de ouro, que apresentam a iconografia de uma divindade com raios saindo de sua face. Também foram encontrados queimadores de incenso cerâmicos em forma de jaguar e uma série de ossos de animais, como rãs, peixes, aves aquáticas e lhamas.

Christophe Delaere com oferenda subaquática no Lago Titicaca / Teddy Seguin

 

Insígnias para orelha feitas de ouro também foram encontradas, provavelmente presas às lhamas antes do sacrifício. José Capriles, professor de Antropologia da Pennsylvania State University e co-autor do estudo, afirma que não há indicações óbvias para a morte das lhamas, mas que com base em evidências de épocas posteriores os animais podem ter sido sacrificados com pequenas incisões ao redor da área do peito e retirada da aorta do coração. "Eles também poderiam tê-los afogado até onde sabemos", diz Capriles.

Conchas e artefatos semipreciosos / Teddy Seguin

 

Esses achados confirmam evidências de que a cultura Tiwanaku experimentou grande expansão por volta de 800 d.C., quando sua cidade atingiu uma população de 30 mil pessoas. Os depósitos rituais são parte de uma grande peregrinação que ia da cidade de Tiwanaku, a 20 quilômetros de distância, até a Ilha do Sol, às margens do lago Titicaca, onde mais de uma dúzia de sítios arqueológicos datam dos Tiwanaku foram encontrados, incluindo um complexo cerimonial em forma de puma no extremo noroeste da ilha. Segundo registros históricos, o povo Inca realizava a mesma peregrinação como parte essencial de sua vida religiosa, e tinha a cidade de Tiwanaku como centro religioso do Império. Provavelmente, a continuidade dessas práticas serviu para os Incas legitimarem seu poder se conectando à civilização anterior. 

Alguns desses rituais permanecem até os dias atuais entre o povo Aymará, incluindo o ritual de sacrifício de lhamas.  "É uma oferenda de sangue, de fertilidade para o chão", afirma Alexei Vranich, arqueóloga de Berkeley que faz parte dos estudos e testemunhou um sacrifício de lhama entre os Aymará. "Eu acho que esses sacrifícios nunca pararam de ser realizados".