Batalha de Ácio: O fim da república romana

O confronto que final que criou o Império Romano e levou Cleópatra ao suicídio

Daniel Leb Sasaki

Obra barroca representando a Batalha de Ácio | <i>Crédito: Wikimedia Commons
Obra barroca representando a Batalha de Ácio | Crédito: Wikimedia Commons

Alexandria calou-se em silêncio tumular. Depois, foi possível ouvir da ilha de Faros – onde brilhava o famoso Farol – aos corredores da Biblioteca boatos de que o deus Dionísio abandonara os governantes da cidade. Cleópatra e Marco Antônio banquetearam com fartura pela última vez. Mas o fim deles estava próximo. Foi assim, melancolicamente, que os contemporâneos do casal descreveram o trágico desfecho da Batalha de Ácio, em 31 a.C., e a espera pela inevitável invasão romana ao Egito.

Naquela época, o poderio de Roma estendia-se por quase todo o Mediterrâneo. O Egito não pontificava mais como a potência de outrora, embora ainda fosse a nação mais rica da região. Era governado por Cleópatra, filha do faraó Ptolomeu XII. Até então, o que mantivera o Egito livre da dominação romana foi a diplomacia. Entretanto, no conturbado reinado do pai de Cleópatra, a tática da neutralidade gradualmente foi perdendo a eficácia e acabou substituída pelo suborno. Expulso do Egito em 58 a.C., após uma revolta na capital, o faraó só retornou ao poder três anos depois, protegido por legiões de Júlio César. Abrir os cofres para o general romano pareceu uma boa ideia, mas deixou o protetorado à beira da falência. A dívida era tão grande que o banqueiro Rabírio veio de Roma e assumiu o cargo de ministro das Finanças em Alexandria para garantir o pagamento. “Foi durante o reinado do pai de Cleópatra que o Egito perdeu, de uma vez por todas, a soberania”, diz a egiptóloga brasileira Márcia Severina Vasques, especializada no período.

A caminho da guerra

Em 34 a.C., o Senado romano indignou-se ao descobrir que, por meio das “Doações de Alexandria”, o general Marco Antônio, governador da porção oriental dos domínios de Roma, entregara de bandeja a Cleópatra, então sua consorte, e aos dois filhos que teve com ela, o correspondente a um terço do território romano. O “presente” incluía a Líbia, a Fenícia, a Armênia, a ilha de Chipre e até territórios ainda não conquistados por Roma. E não ficou só nisso. Em evento na capital do Egito, Marco Antônio declarou publicamente que Ptolomeu Cesário, filho primogênito de Cleópatra com Júlio César (assassinado em 44 a.C. por um grupo de senadores), era o herdeiro legítimo do finado general. E mais: Marco Antônio divorciou-se da esposa oficial, Otávia, e uniu-se à rainha do Nilo segundo as tradições orientais, beneficiando-a em seu testamento.

Busto de Marco Antônio / Wikimedia Commons

Ultrajado, o general Otaviano – irmão de Otávia, sobrinho de Júlio César e comandante da Roma Ocidental – respondeu à provocação com uma agressiva campanha. No Senado, explorou o fato de terras conquistadas pelos romanos terem sido entregues a uma mulher, o que era uma “afronta imperdoável”. Segundo o historiador Dio Cássio (155-229 d.C.), os senadores, temerosos de que Marco Antônio, se vencesse a disputa, transferiria o poder para Alexandria, destituíram-no de suas atribuições. Naquele momento, cunhou-se a imagem depreciativa da soberana egípcia. “Essa visão distorcida do Oriente, terra de luxúria e lascívia, proporcionou uma visão de Cleópatra como a rainha feiticeira, ambiciosa e sedutora, uma visão negativa para a cultura tradicional romana, que se pautava pela sobriedade e moralismo de caráter”, diz Márcia.

A guerra civil era inevitável e dela só poderia sair um vencedor. Assim, ambos os lados, que dispunham de fortes alianças em diversos estados, mobilizaram recursos que tornariam aquele o maior conflito bélico até então registrado. Otaviano contava com o apoio da Gália, da Espanha, da Sardenha, do norte da África e das ilhas no oeste do Mediterrâneo, entre outros aliados. Todo esse apoio traduzia-se em pelo menos 400 navios de guerra e cerca de 80 mil homens. Por sua vez, Marco Antônio tinha as forças do Egito, da Ásia continental, da Grécia, da Macedônia, de partes da Trácia, de Cirenaica, de todas as ilhas ao leste e da maior parte dos reinos e protetorados que faziam fronteira com a porção oriental de Roma. Eram 500 navios de batalha, 70 mil soldados de infantaria e 12 mil cavaleiros.

Deserção e isolamento

Os dois exércitos encontraram-se na costa oeste de Épiro, ao norte da Grécia. Em seguida, montaram acampamento em Ácio, onde permaneceram durante quase quatro meses. O primeiro sinal de ataque só aconteceu quando Agripa, general de Otaviano com larga experiência em conflitos navais, capturou as ilhas próximas. Segundo relatos do historiador Plutarco (46-127 d.C.), esse controle interrompeu o fluxo de provisões e deixou o exército de Marco Antônio isolado. Para agravar a situação, ocorreu uma epidemia de malária e baixas por causa do calor escaldante. Mas o pior ainda estava por vir: tornaram-se frequentes as deserções para o lado de Otaviano. Primeiro, foram Titius e Planco, dois dos melhores generais de Marco Antônio, que protestavam contra a influência de Cleópatra no planejamento da campanha. Depois, foi a vez de Ahenobarbus, dos reis Amyntas e Deiotarus, e dos soberanos da Trácia e Paphlagonia. Por fim, Délio, um oficial da coalizão, passou a apoiar Otaviano, levando com ele os planos de guerra do antigo comandante.

Rejeitando um apelo de seu general Canídio, que comandava as forças em terra, Marco Antônio insistiu que a guerra fosse resolvida por mar. Em 2 de setembro de 31 a.C., sua esquadra moveu-se em direção à de Otaviano. Marco Antônio postou-se na asa direita, com seu co-comandante Publicola. Manteve o associado Coelius à esquerda, e Marco Otávio e Marco Insteius no centro. Do lado oposto, estava o adversário Agripa, que dobrou a linha para que ele não conseguisse atacá-lo de flanco. A estratégia de Marco Antônio era tirar proveito da maior tonelagem de seus navios, carregá-los e bombardear o inimigo. Mas os barcos de Agripa eram mais leves e ágeis e conseguiram se safar. Após uma manobra de Agripa, Publicola moveu-se em perseguição, deixando o fronte central – lento e menos treinado – disperso e confuso, incapaz de manter a formação original. Agripa aproveitou a chance e, em vez de abalroar os inimigos, colocou suas embarcações ao lado das de Marco Antônio, para invadi-las pelos lados. A luta, a partir daí, deu-se homem a homem, enquanto arqueiros e atiradores disparavam de longe. Otaviano, que observava a ação a distância, enviou incendiários.

Uma das representações da batalha / Wikimedia Commons

Embora a batalha naval não estivesse decidida, para a surpresa de todos, a nau capitânia de Cleópatra subitamente içou as velas, aproveitou-se da confusão para romper o bloqueio e retirou-se do conflito, partindo com cerca de 60 navios em direção ao Egito. Segundo relatos da época, Marco Antônio, perplexo, tomou um barco menor e foi atrás da rainha, para o desespero de seus soldados, que ficaram abandonados à própria sorte, sem saber o que fazer em plena batalha.

As razões para a decisão de Cleópatra de levantar as velas – e a subsequente reação de Marco Antônio – ainda hoje dividem os historiadores. Alguns dizem que a rainha fugiu precipitadamente. “Como mulher e como egípcia, ela se torturava com a agonia do longo suspense”, afirma Dio. Ao chegar a Ácio, a frota real trazia consigo suas velas, algo incomum em guerras da Antiguidade. A saída estratégica já devia estar programada. Pesquisadores modernos afirmam que a intenção de Cleópatra era que toda a frota a seguisse, o que não teria acontecido por razões climáticas.

O fim de uma era

A Batalha de Ácio terminou em desastre para Marco Antônio. As baixas chegaram a 5 mil soldados e quase 300 navios foram capturados. Ao aportar em Alexandria, Marco Antônio caiu em depressão. Cleópatra, que ainda não considerava a guerra perdida, reuniu as embarcações remanescentes e providenciou que fossem transportadas por terra até o Mar Vermelho. Sua ideia era escapar para a Índia e, com o tesouro egípcio, fundar um novo reino. Entretanto, no meio do caminho, tribos do deserto, antes subjugadas pelos Ptolomeus, queimaram a frota, e a rainha teve de desistir do plano.

Obra 'O suicídio de Cleópatra' / Wikimedia Commons

Não havia escapatória. Ao saber que Otaviano rumava para capturá-la em Alexandria, Cleópatra despachou o filho Cesário para a cidade de Coptos, com ordens para que o tutor do menino o retirasse do país em segurança. Sua cavalaria, unida a legiões de Marco Antônio, a princípio conseguiu conter o avanço das forças inimigas. Mas o general, acreditando nos boatos de que a parceira estava morta, decidiu se suicidar. Foi nesse momento que Cleópatra finalmente percebeu que tudo estava perdido. Para não se submeter à humilhação de ser levada acorrentada para Roma, ela também preferiu a morte, deixando-se picar por uma serpente venenosa – um dos suicídios mais célebres de todos os tempos.

A Batalha de Ácio teve importante significado para a História. Foi o conflito que encerrou o período de 3 mil anos de reinado dos faraós no Egito, que depois disso se transformou em província romana. Ali acabou a independência do país que fora unificado por Menés em 3100 a.C. – liberdade que só seria reconquistada pelo ex-presidente Gamal Abdel Nasser, em 1952 da nossa era. Em Ácio, também morreu a própria República romana. Após o grande triunfo, Otaviano ampliou seus poderes. Mudou de nome para César Augusto e tornou-se o único senhor de Roma e seu primeiro imperador. Em sua homenagem, o sexto mês do calendário romano, antes denominado sextilis, foi rebatizado de augustus – agosto, no calendário gregoriano.


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