A invasão da Grécia

Nas Termópilas e em Artemísio, os helenos chegaram muito perto de deter a horda de Xerxes, mas erros de julgamento e traições acabaram abrindo o caminho para os persas

01/03/2007 00h00 Publicado em 01/03/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Se não fosse pela complicação natural de disciplinar e alimentar uma multidão de 200 mil soldados por três meses, a jornada de Xerxes, filho de Dario, teria sido quase um passeio. O novo Grande Rei dos persas herdou do pai o desejo de vingança contra os gregos, mas teve de lidar com outros rebeldes no Egito e na Babilônia antes de iniciar sua marcha rumo à Europa, na primavera do ano 480 a.C.

Para chegar a seu destino, o exército de Xerxes precisava cruzar um braço de mar de alguns quilômetros de extensão, o atual estreito de Dardanelos. O rei ordenou a construção de uma ponte feita de centenas de barcos, unidos por cabos de linho e papiro e cobertos com um tablado, para permitir que seu exército literalmente marchasse sobre o mar. Com seu exagero de costume, o historiador grego Heródoto diz que a multidão de homens e animais levou uma semana para atravessar o estreito.

No caminho, o Grande Rei recebia homenagens e presentes por onde passava. O passeio, no entanto, acabou quando um batedor persa, a cavalo, avançou para fazer o reconhecimento de um desfiladeiro conhecido como as Termópilas (“Portões Quentes”, em grego; o nome se refere às fontes de água termal da região). Diante de uma muralha, havia alguns guerreiros musculosos e nus, exercitando-se e penteando os longos cabelos. Eram espartanos, e sua missão era uma só, diz Heródoto: “Não deixar o bárbaro (Xerxes) entrar na Grécia”.

Conselho de guerra

No ano anterior, após uma reunião na cidade de Corinto, Esparta e outras cidades-Estado gregas, como Atenas, tinham decidido resistir juntas à invasão de Xerxes. O futuro da aliança, conhecida como Liga Helênica, não parecia muito promissor. Além da grande inferioridade numérica, os gregos tinham de lidar com as eternas briguinhas entre as cidades-Estado. Além dos atenienses, o alvo principal da invasão, sobraram do lado da resistência basicamente Esparta e seus aliados do Peloponeso, a região do extremo sul da Grécia.

Como a invasão persa ia empregar Exército e Marinha, a estratégia grega só podia ser também anfíbia. Para isso era indispensável a ajuda da Marinha ateniense, com suas 200 trirremes, os navios com três andares de remadores comuns na época. Temístocles, o almirante ateniense, era o verdadeiro cérebro por trás da resistência grega.

Segundo o plano dos aliados, postar-se nas Termópilas fazia todo o sentido. O desfiladeiro era a única passagem decente para o centro da Grécia, mas, em dado ponto, a estrada estreitava-se tanto que não mais que duas carroças podiam passar ombro a ombro. Penhascos escarpados erguiam-se de um lado, e do outro só havia o mar. Com pouco espaço para manobrar ou usar cavaleiros e arqueiros, a superioridade numérica persa de nada valia ali.

Mas, para que a idéia funcionasse, era essencial barrar a frota persa por mar. Do contrário, as trirremes persas desembarcariam seus soldados na retaguarda dos defensores gregos. Daí a necessidade de coordenar a defesa das Termópilas com a do Artemísio, uma praia na ilha de Eubéia que ficava imediatamente na frente do desfiladeiro. Enquanto Euribíadas, o almirante espartano, junto com Temístocles e os demais comandantes navais, ocupava o Artemísio com cerca de 250 navios, uma força de uns 7 mil hoplitas, liderada por Leônidas, um dos dois reis de Esparta, postou-se nas Termópilas.

Presente dos ventos

Era o fim do verão, normalmente uma época de mar calmo, muito calor e céu azul no mar Egeu. Boa parte da frota persa, com talvez mil navios, estava ancorada longe da costa, quando um vento violento veio do norte, levantou ondas e arremessou trirremes e tripulações contra os rochedos do litoral. É provável que uma centena de navios tenha se perdido em três dias de tormenta.

Enquanto isso, nas Termópilas, Leô­nidas descobriu que sua posição tinha um calcanhar-de-aquiles: quem obtivesse dados detalhados sobre o relevo da região descobriria que um caminho relativamente amplo e pouco íngreme pelas montanhas possibilitava contornar a muralha e ir parar bem na retaguarda de Leônidas.

O rei mandou para o sul um pedido urgente de reforços. Era essencial que mais espartanos viessem – Leônidas só contava com 300 de seus conterrâneos. Ninguém sabe por que suas forças eram tão pequenas. Talvez o comando espartano tivesse achado que 7 mil homens seriam suficientes para deter os persas por algum tempo. Há, porém, quem aponte uma motivação mais mesquinha: Esparta e as outras cidades do Peloponeso só estavam interessadas em defender sua própria região e, por isso, não quiseram colocar a maior parte de seus homens em perigo só para impedir que Xerxes chegasse a Atenas.

Enfim recuperada da tempestade e ainda muito superior ao inimigo em número, a frota do Grande Rei pôs em marcha um plano para esmagar de vez a marinha grega. Enquanto a maior parte das trirremes persas permanecia diante do Artemísio, 200 navios, assim que a noite caiu, partiram para contornar a ilha de Eubéia e bloquear a retaguarda grega.

Ao descobrir o plano, os gregos pediram reforços e logo partiram para atacar alguns contingentes persas que ainda estavam se recuperando da tempestade. Conseguiram capturar 30 navios e recua­ram para o Artemísio no cair da tarde com uma bela vitória parcial nas mãos.

E então os deuses dos ventos resolveram mais uma vez favorecer a causa helênica. Durante a madrugada, uma nova tempestade sacudiu o mar e lançaram os 200 navios persas que queriam selar o destino dos gregos contra as rochas da Eubéia. Nenhum deles conseguiu voltar para o combate no Artemísio.

Na manhã desse mesmo dia, o Grande Rei ordenou que seus homens atacassem os espartanos no desfiladeiro. “Capturem-nos e tragam-nos diante de mim”, teria dito Xerxes a seus soldados. Foi mais fácil falar do que fazer: as lanças de 3 metros de comprimento, as couraças peitorais, capacetes e escudos de bronze dos gregos os colocavam em grande vantagem naquele espaço estreito. As lanças dos persas eram bem mais curtas (cerca de metade do tamanho das gregas), e os escudos dos invasores eram de vime.

Quando o primeiro ataque falhou, o Grande Rei enviou sua tropa de elite, os 10 mil imortais (assim chamados porque todo soldado fora de combate era imediatamente substituído por outro). Os espartanos, porém, passaram a usar uma espécie de finta: davam a impressão de que estavam fugindo, levavam os atacantes a persegui-los de forma desordenada e logo depois se voltavam de novo contra eles, massacrando muitos.

O segundo dia de combate não foi muito diferente. Outro ataque-surpresa da frota grega, feito no fim da tarde, levou a melhor antes que os persas tivessem tempo de reagir. Nas Termópilas, novas tentativas de forçar a passagem na base da força bruta fracassaram.

Foi quando um morador da região, chamado Efialtes, foi levado à presença de Xerxes. Ele revelou a existência do atalho nas montanhas e ofereceu-se para guiar os persas até a retaguarda dos gregos – em troca, é claro, de uma rica recompensa. O Grande Rei deu essa missão aos imortais, que partiram no começo da noite. Eles ainda toparam com um destacamento de mil hoplitas focídios, cuja responsabilidade era guardar o atalho. Bastou que os imortais lançassem uma saraivada de flechas sobre eles para que o contingente grego corresse em busca de proteção, deixando livre o caminho.

Missão suicida

Xerxes não queria mais correr riscos. Por volta das nove da manhã, ele ordenou um ataque frontal, sabendo que os imortais logo cercariam Leônidas. O rei espartano ficou sabendo que sua posição estava perdida ainda de madrugada, quando alguns gregos da Ásia, servindo no exército do Grande Rei, desertaram e foram avisá-lo. Tudo indica que ele decidiu salvar a maior parte de seus homens, enviando-os de volta para o sul. Mas o único jeito de impedir que o inimigo exterminasse todos seria montar uma força de retaguarda, que segurasse Xerxes por mais algum tempo. Esse foi o papel que Leônidas escolheu para si mesmo e seus 300 espartanos. Dois outros grupos, 400 hoplitas tebanos e 700 téspios, decidiram ajudá-lo nessa tarefa suicida.

Com a determinação sombria de quem não tem mais nada a perder, esse punhado de homens avançou para a parte mais ampla do desfiladeiro e atacou os persas. Sua fúria era tamanha, conta Heródoto, que os generais de Xerxes tinham de usar chicotes para fazer com que seus homens continuassem a lutar. Dois irmãos do Grande Rei morreram nessa primeira fase, bem como Leônidas. Em torno do corpo do rei espartano desenrolou-se uma luta feroz, até que seus conterrâneos recuperaram o cadáver e recuaram para uma pequena elevação, atrás da muralha.

Foi quando os imortais chegaram. As lanças dos gregos, já quebradas, foram substituídas por suas espadas curtas; quando essas se perderam, os últimos espartanos lutaram com as mãos e com os dentes, até que os persas, com uma chuva de flechas, conseguiram aniquilá-los.

No mar, após um dia de combates, tanto gregos quanto persas tinham sofrido baixas pesadas. Temístocles e Euribíadas já cogitavam uma retirada, quando um mensageiro chegou para avisá-los do fim de Leônidas. Graças à traição e à falta de homens no desfiladeiro, o caminho para Atenas estava aberto para Xerxes.

 

A lenda do rei sacrificado

O sacrifício de Leônidas nas Termópilas, com seus 300 bravos homens, foi o fim glorioso de uma carreira pouco conhecida. Não sabemos quase nada sobre a vida do rei espartano antes de seu combate com as forças de Xerxes no desfiladeiro.

Após a derrota, logo correu a história de que o fim de Leônidas teria sido previsto pelo oráculo de Delfos. Segundo a profecia, ou Esparta seria destruída ou perderia um de seus reis: assim, Leônidas teria se sacrificado deliberadamente para evitar o fim de sua cidade.

A lenda em torno do herói não parou de crescer. Alguns autores dizem que ele invadiu a tenda de Xerxes e quase matou o rei antes de expirar. O coração de Leônidas, arrancado de seu peito, estaria coberto de pêlos – sinal de sua extrema coragem.

 

Números incertos

A invasão persa foi um evento tão dramático para os gregos que, na hora de estimar o tamanho de suas forças, é difícil separar a mitologia da história

GREGOS

Para deter os invasores, os helenos teriam reunido, no máximo, uma força terrestre formada por 40 mil hoplitas, de acordo com Heródoto. Além disso, a Liga Helênica contava com 380 navios de guerra. São estimativas razoáveis, já que não havia motivo para os gregos aumentarem os números de seus próprios contingentes

PERSAS

Eram 1,7 milhão de homens, segundo Heródoto. Para a mai­or parte dos historiadores modernos, porém, a força de Xerxes não passou de 200 mil soldados, in­cluindo uns 10 mil cavaleiros. Os persas contavam também com mil navios, que se reduziram a 650 ao fim da campanha