Le Promeneur du Champ Mars: O último Mitterrand

Filme sobre o presidente francês mostraque a melancolia da esquerda mundial nadécada de 90 atingiu até os seus líderes

Leandro Narloch Publicado em 01/10/2005, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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François Mitterrand (1916-1996) ficou 14 anos no poder. O maior estadista francês do século 20 representava os sonhos do Partido Socialista Francês. Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, caiu em descrédito – nem ele acreditava mais em si próprio.

É um velho arrogante de 80 anos, em seus últimos meses de vida, o protagonista de Le Promeneur du Champ de Mars (“O Passeador do Campo de Marte”), sem previsão de estréia no Brasil. O enredo é baseado no livro Le Denier Mitterrand (“O Último Mitterrand”, inédito no Brasil), de Georges-Marc Denamou, contratado pelo presidente para escrever suas memórias depois que ele descobre que iria morrer de câncer de próstata. No filme, Denamou virou o jornalista Antoine Moureau.

Mitterrand começou na política na década de 30 como católico ultraconservador. Em 1946, tomou o rumo da esquerda e foi eleito presidente em 1981. No fim de sua vida, mostra o filme, preferia falar de mulheres – e admitiu sua paixão por Julia Roberts.

“O filme é de certa forma fictício, baseado nos encontros e conversas de Denamou com Mitterrand”, afirma o historiador alemão Tilo Schabert, autor de Mitterrand et l·Unité Allemande. Une Histoire Secrète (1981-1995) (“Mitterrand e a Unidade Alemã. Uma História Secreta”, inédito em português).

Os últimos dias do presidente mostram que a perda das ilusões socialistas do fim do século 20 abalou até quem as defendia ferozmente. “Mas não acho que ele tenha perdido suas crenças. Mitterrand era tão rebelde quanto pragmático: como um socialista puro, seria logo rejeitado pela realidade – que não é socialista, não é nada”, diz Tito.

Le Promeneur du Champ Mars, França, 2005

Direção: Robert Guediguian

 

Picuinhas

Algumas controvérsias do presidente

Apoio aos nazistas

O jornalista do filme investiga a fundo a participação de Mitterrand como ministro de Vichy, o Estado de direita que se instalou na França durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar de ele ter afirmado que participou apenas do início do movimento, que começou neutro, testemunhas garantem que François Mitterrand continuou mesmo depois do apoio aos nazistas.

Segredos de alcova

Acredita-se que, durante os 14 anos em que foi presidente, Mitterrand teve 62 amantes. Mas não espere encontrar histórias dos lençóis sujos do presidente. O filme passa reto pela intensa vida amorosa de Mitterrand. Ele só revela preocupação e cuidado com a filha Mazarine, que foi mantida em segredo até 1994 – era fruto de um relacionamento com Anne Pingeot, uma colegial menor de idade.