O "supermatrimônio": da posse à união

À mulher o papel indispensável no prazer e na felicidade do casal

Mary del Priore Publicado em 22/07/2016, às 11h05 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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. - Hafaell
Nas primeiras décadas do século 20, enquanto uma parte da sexologia classificava patologias e o lado obscuro da sexualidade, uma segunda onda proclamava os aspectos positivos do sexo dentro do casamento. Entre alguns poucos, sexo não era visto apenas como instinto de reprodução mas como reflexo do sentimento entre esposos. Sexólogos dos mais reputados, como o australiano Havellock Ellis, intérpretes do autoerotismo e críticos da repressão eram traduzidos no mundo inteiro. Tais obras científicas inspiraram manuais de sexologia para um público “não científico”, muitas delas inspiradas em cartas endereçadas por homens e mulheres aos especialistas. 
Porém, a problemática desses pioneiros continuava presa aos modelos do século anterior. Tudo os fazia raciocinar em termos de binômios: feminino/masculino, ativo/passivo, iniciada/iniciador, conquistada/conquistador. A sexualidade feminina era a principal vítima desse tipo de leitura. O clitóris, percebido como uma anomalia “viril”, era desvalorizado, sobretudo entre os adeptos da psicanálise. Sigmund Freud definia a libido como masculina e concluiu que moças e rapazes deviam organizar a sexualidade em torno do pênis. Com linguagem renovada, a psicanálise justificava os papéis prescritos pela sociedade para as mulheres. 
Só Wilhelm Reich rompeu com esse esquema e foi pioneiro em apontar a força da “potência orgástica”. Mas sua pesquisa, realizada entre 1927 e 1935, A Revolução Sexual, seguiu como assunto confidencial e só foi traduzida para o português nos anos 1940. Se não se conhecem os efeitos dos primeiros discursos sexológicos, sabe-se, porém, que eles contribuíram para tirar o assunto do silêncio e da vergonha. Compartilhado por uma pequena minoria o tema da sexualidade incentivou as primeiras questões sobre o prazer feminino e as técnicas para incrementá-lo antes, durante e depois do coito por meio de beijos, gestos e carícias. 
O campeão de vendas na época foi O Casamento Perfeito, do ginecologista holandês Theodoor van de Velde, publicado em 1925 na Europa e traduzido para o português no mesmo ano. Escrito com linguagem acessível e rico em detalhes por 800 páginas, o livro ensinava os casais a atingir o orgasmo juntos, pelo coito vaginal: “Nas uniões ideais participariam de modo igual o homem e a mulher. Nessas uniões, as mais íntimas que podem existir, se transformam ambos em um só ser, física e animicamente. Não obstante seja o homem o dispensador e a mulher a receptora, sendo como é o marido a parte ativa, de modo algum o papel da esposa é unicamente passivo. A conjugação sexual, em realidade, não segue as leis fisiológicas, não tem verdadeiramente seu profundo sentido, não alcança inteiramente seu objetivo, senão quando ambos participam dela plenamente, quando gozam conscientemente, sem restrições, toda a alegria e satisfação da união sexual. Se existe um postulado de igualdade dos direitos e dos deveres de dois seres, ele é, sobretudo, verdadeiro e irrefutável na copulação. Assim, no supermatrimônio não é o marido que realiza o coito, mas ambos os cônjuges. O homem não possui a mulher, mas une-se a ela”. 
Van de Velde levava a sério a questão da igualdade na cama e, para ele, toda excitação sexual de certa importância que na mulher não terminasse pelo orgasmo representava uma lesão, um trauma. E a soma deles podia conduzir a transtornos crônicos, físicos e psíquicos, dificilmente emendados. A obra descreve com gráficos e curvas os processos, ou melhor, as categorias de atos sexuais em que os cônjuges conseguiam chegar ao orgasmo juntos. 
Sem igualdade no prazer, pregava Van de Velde, não havia supermatrimônio. Resta descobrir quem lia ou seguia as “curvas” do ginecologista holandês. Poucos, provavelmente. Afinal, tais avanços eram moderados por outros autores que também circulavam. É o caso do livro A Esposa Feliz no Lar, de Manuel Alves. Na direção oposta de Van de Velde, e com uma visão bastante religiosa do matrimônio, o autor recomendava que as esposas seguissem o exemplo da Virgem Maria, fossem diligentes e cuidadosas nos afazeres domésticos, obedientes e submissas aos maridos. Sobre sexo, pouco ou nada. E, sobre adultério, encerrava com uma pérola: “Não se pode, todavia, negar que existem, de fato, esposos adúlteros e esposas adúlteras. Existem-nos, sim, e infelizmente são bastante numerosos; porque a esses criminosos desavergonhados não lhes toca a pena que lhes cabia antigamente, de serem publicamente apedrejados”. 
Esse foi o momento em que os comportamentos sexuais ligados à reprodução e à sexualidade começavam a separar-se. Até então, o que se conhecia como “sexualidade” não tinha existência própria. As relações sexuais dividiam-se entre as voltadas para a renovação das gerações e aquelas, mais erotizadas, voltadas para o prazer. E essa divisão coincidia matematicamente com aquela que separava as mulheres puras das impuras. Mas tal maneira de pensar era, sobretudo, um alívio para os homens. 
Ao colocar o orgasmo do casal, em especial o da esposa, em primeiro plano, os médicos abriam o flanco para outro problema: seria o marido capaz de proporcionar prazer à sua mulher? Questão ainda sem resposta...