O pioneiro Anchieta

Beato foi o primeiro europeu a explorar o poder curativo das ervas brasileiras

Maria Fernanda Ziegler Publicado em 01/06/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

O padre José de Anchieta, morto há 410 anos, foi o introdutor do teatro em terras brasileiras. E também o primeiro a escrever uma gramática em língua tupi. Além disso, fez nascer o cateretê, o embrião da música popular brasileira, ao misturar poemas religiosos com a música indígena. Mas suas ações pioneiras não se restringiram às artes. Anchieta também se aventurou pela biologia.

Cobiçadas hoje por cientistas e laboratórios no mundo inteiro, as plantas brasileiras despertaram sua atenção no século 16. Os jesuítas perceberam que a medicina poderia ajudá-los a se infiltrar na cultura tupi-guarani. “De início, os remédios vinham do reino, mas logo os padres foram conhecendo as substâncias utilizadas pelos indígenas”, diz a historiadora Maria Aparecida Lomonaco. “José de Anchieta é o nome-símbolo das artes médicas no Brasil do século 16.”

Anchieta e outros oito padres chegaram ao Brasil em 1553, com o segundo governador-geral do país, Duarte da Costa. No livro Os Jesuítas, o historiador inglês Jonathan Wright afirma que a Companhia de Jesus foi a primeira ordem da Igreja Católica que teve intenção ativa – e não apenas contemplativa. Eram os tempos da contra-reforma católica e os jesuítas tinham a missão de expandir o catolicismo nas novas terras descobertas na América.

Por aqui, esbarraram na figura do pajé – que tinha, entre suas incumbências, a de curar as enfermidades nas tribos. Os padres depararam com fórmulas e métodos diferentes para a cura. E assim Anchieta foi aprendendo, por exemplo, que o maracujá era indicado para baixar a febre. Ou que o guaraná curava a disenteria. E passou a usar essas plantas também.

Para os tupis-guaranis, as doenças eram provocadas por espíritos maus. A terapêutica indígena consistia na mescla de religiosidade com a aplicação de substâncias da flora local. E foi exatamente essa falta de conhecimento científico dos nativos um dos trunfos dos jesuítas para a conquista da população indígena.

Nos tempos do descobrimento, doenças terminais eram muito raras entre os índios. Caso isso acontecesse, o doente era desenganado pelo pajé e abandonado pelo grupo. Nesses casos, os jesuítas utilizavam os conhecimentos médicos aprendidos na metrópole – e, além da cura do doente, obtinham sucesso no processo de evangelização. Para Maria Aparecida, a assistência médica, ainda que prestada no âmbito da caridade cristã, foi uma arma poderosa na catequese. “Era a forma mais eficiente de promover o descrédito dos pajés.”

 

Farmácia natural

Veja o que Anchieta e os jesuítas aprenderam com os índios

• Para inflamação nos olhos ou conjuntivite, os pajés empregavam o suco de piná-piná (ou cansanção).

• A andiroba tinha propriedade cicatrizante e era usada nos ferimentos por flechadas.

• Para ulcerações, ferimentos e dermatoses, eram empregados copaíba, capeba ou pariparoba, maçaranduba, cabriúva e caroba.

• Jurubeba, quinheira brasileira e maracujá eram indicados contra febre.

• O caju, o ananás e o jaborandi serviam de diuréticos.

• O guaraná era purgativo e tratava disenteria.

• O pentume ou tabaco era usado para curar problemas respiratórios.