turquia pais dividido dois mundos 738405

A Turquia tem a idade da Antiguidade Clássica e seu território separa a Europa da Ásia. A história da humanidade passou por ali: invasores persas, heróis gregos, os primeiros cristãos, o Império Bizantino, os herdeiros dos mongóis e os otomanos

11/04/2013 16h22 Publicado em 11/04/2013, às 16h22 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Turquia, o país dividido entre dois mundos
Turquia, o país dividido entre dois mundos - Arquivo Aventuras

Texto: Rosana Ortiz, de Istambul, com Mariana Nadai, Danilo César Cabral, Fábio Marton e Wagner Gutierrez Barreira

Ilustrações: Alexandre Juban, Jonatan Sarmento e Luiz Iria (consultor) | Design: Villas

Além da terra dos cegos

A geografia de Istambul é tão generosa que o lugar virou objeto de desejo de conquistadores desde a Antiguidade. O estreito de Bósforo, que corta a cidade, une o Mediterrâneo ao mar Negro. Ao norte, o Chifre de Ouro forma um porto de águas profundas - a região é protegida por 3 lados. Diz a lenda que a cidade foi fundada pelo rei grego Bizas, de Megara. Em busca de um lugar para seu reino, ele consultou o oráculo de Delfos. A resposta, como sempre, veio em forma de charada: deveria fundar a cidade "no lugar oposto à terra dos cegos". No Bósforo, o rei entendeu o oráculo. Do outro lado do estreito, existia a cidade de Calcedônia. Seus habitantes, de fato, deveriam ser cegos para não ter notado que a colina além do estreito, a 1,5 km de distância, era muito mais adequada à construção de uma cidade. Foi ali que fundou sua capital, em 667 a.C. Assim nasceu Bizâncio. "O crescimento geográfico grego gerou novas cidades e o local escolhido por Bizas tem uma situação geográfica espetacular", diz Carlos Augusto Ribeiro Machado, professor da Unifesp.

Clique na imagem para ampliar



O neto de Posêidon

Bizas, fundador da cidade de Bizâncio, era, segundo a mitologia, filho da ninfa Ceroesa e neto de Posêidon, o deus do mar. A cidade que leva seu nome foi fundada no mesmo lugar onde havia um povoado, Ligos. Os bitínios, que viviam ali, foram escravizados. Desde a fundação, Bizâncio foi um grande centro comercial.

O maior shopping do planeta

Os primeiros centros de compra do Ocidente surgiram no século 18. O Oxford Covered Market, inaugurado em setembro de 1774, funciona até hoje na Inglaterra. O maior shopping do mundo, o South China Mall, tem 1 milhão de m2. Pois o Grande Bazar, em Istambul, tem 3 vezes esse tamanho - e foi construído entre 1455 e 1461, pouco tempo depois da conquista otomana de Constantinopla. Os cristãos bizantinos já usavam a região como área de comércio, inclusive de escravos. Ali há 5 mil lojas, agrupadas por tipo de mercadoria em 61 ruas. E é possível encontrar quase qualquer coisa. Istambul é um hub entre Ocidente e Oriente. Por ali passaram (e ainda passam) especiarias asiáticas e manufaturados europeus - a cidade era o ponto final da Rota da Seda. "A lógica da troca comercial é cultivada pelos turcos há séculos", diz Monique Sochaczewski Goldfeld, mestre em História Política pela Uerj. O bazar fica próximo ao porto da cidade e foi erguido por ordem do sultão Mehmet 2º, o Conquistador. A construção atual - o mercado enfrentou vários incêndios e terremotos ao longo de sua história - é de 1894.

A Rapunzel do Bósforo

A Torre da Donzela, encravada numa ilhota do estreito de Bósforo, foi erguida pela primeira vez em 408 a.C. pelo general ateniense Alcebíades, para ajudar a controlar o fluxo de navios pela região. Durante séculos, ela teve diferentes funções, como farol, fortaleza, novamente farol, estação de quarentena e, finalmente, ponto turístico, com café e restaurante.

Função é o que menos interessa na torre. O que vale é a lenda por trás do nome. Os gregos a chamavam de Torre de Leandro por causa da lenda de Hero e Leandro. Hero, sacerdotisa de Afrodite, morava num farol e se apaixonou pelo soldado Leandro, que todo o dia cruzava o mar para vê-la - até que um dia a luz ficou apagada, Leandro se perdeu no mar e morreu. Os turcos, que a chamam de Torre da Donzela (Kiz Kulesi), têm uma história diferente. Um sultão recebeu uma profecia sobre sua filha. Quando ela completasse 18 anos, seria picada por uma cobra e morreria. Para protegê-la, o sultão a colocou no alto da torre. Todo dia, ele mandava uma cesta de frutas para a filha, até que uma víbora se escondeu ali e picou a princesa. Outra versão diz que a virgem jogava seus cabelos pela janela. "Daí a história do cabelo comprido e das tranças jogadas pela janela da torre", diz Mustafá Goktepe, presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia. Como se vê, a história é meio Rapunzel, meio Bela Adormecida.

O turco voador


A Torre de Gálata tem 66,90 m e era a construção mais alta da cidade ao ser erguida, em 1348. Em 1632, o cientista Ahmed Çelebi teria se lançado do topo da torre numa espécie de asa-delta, cruzado o Bósforo e pousado na praça Dogancilar, a 3,3 km dali. O sultão Murad 4º testemunhou o voo. "Esse homem é assustador. Ele pode fazer o que quiser e não é justo manter gente assim por aqui", teria vaticinado. Presenteou Çelebi com um pote de ouro e o despachou exilado para a Argélia. Seguindo a tradição da família, um ano depois, o irmão de Ahmed, Hasan, teria se amarrado a um foguete, decolado, pousado no mar e voltado para contar.

O santo do mundo inteiro

São Jorge é pop. Ele é provavelmente o terceiro santo mais popular do catolicismo e do cristianismo ortodoxo, atrás da Virgem Maria e de seu conterrâneo e contemporâneo são Nicolau de Mira - mas só porque esse vem a ser o Papai Noel e conta com o apoio da Coca-Cola. São Jorge é padroeiro de Portugal, Inglaterra, Canadá, Alemanha, Grécia, Lituânia, Etiópia, Malta, Palestina e (essa é fácil) Geórgia. O Rio de Janeiro pode ter como padroeiro são Sebastião, mas o santo do coração é Jorge - um pouco por causa da umbanda, que relaciona o santo ao orixá Ogum. E, claro, é padroeiro do Corinthians.

Santo guerreiro, nascido na Capadócia, morto pelo imperador Diocleciano, matador de dragão, ele sangrava leite, fazia imagens e exércitos pagãos explodirem, levantou um homem da tumba para batizá-lo, foi cortado em pedaços, carbonizado, enterrado e ressuscitou. É, as lendas vão longe. Mas tudo o que você leu depois da palavra "santo" é incerto. Sabemos que são Jorge já era popular no século 5, mais como lenda do que pela história: em 495, o papa Gelásio 1º afirmou que são Jorge "é desses santos cujo nome é justificadamente reverenciado entre os homens, mas cujas ações apenas Deus conhece".

Primeiro, talvez ele não fosse mesmo da Capadócia, mas de Lod, na atual Israel. Lá fica sua tumba, que é reverenciada desde o século 5. Segundo, talvez nem fosse guerreiro - existiu um Jorge da Capadócia bem documentado, mas esse foi o bispo de Alexandria (Egito) entre 356 e 361. Um bispo ariano que rejeitava a Santíssima Trindade e acabou linchado pela população, mas foi considerado mártir entre outros hereges.

No século 4, o livro História Eclesiástica, de Eusébio, fala dos massacres do imperador Diocleciano (244-311). De 303 até sua morte, o imperador fez a última perseguição aos cristãos, na qual mais de 3 mil foram executados. Entre seus decretos, estava a conversão forçada dos soldados de volta ao paganismo. Eusébio cita um homem "de altíssima honra" que rasgou a ordem e foi executado, em Nicomédia (atualmente Izmit, 100 km a oeste de Istambul). O autor não dá nome nem patente ao mártir, mas, tradicionalmente, essa é a versão mais "histórica" para são Jorge. Ele seria um comandante da cavalaria de Diocleciano - ainda que os cristãos da Palestina, com a tumba logo ali, discordem da versão.

Salve, Jorge

A lenda do dragão se passa na Líbia, na África. Pagãos da cidade de Selene conviviam com um dragão no pântano, apaziguando o bicho com duas ovelhas por dia - quando isso falhava, só com sacrifício humano, determinado por loteria. Um dia, foi sorteada a filha do rei - mesmo com a promessa de toda a riqueza de seus cofres, o povo vestiu a princesa de noiva e a deixou amarrada no pântano. São Jorge, de passagem, topou com a moça e esperou o dragão (em algumas versões, o animal é um crocodilo alado). Quando o bicho apareceu, o santo o acertou com a lança, o imobilizou e usou o cinto da princesa como coleira. Eles chegaram à cidade com seu animal de estimação, o povo se apavorou e são Jorge prometeu que mataria a fera caso se convertessem ao cristianismo. O povo topou e assim não só são Jorge inaugurou um novo ramo da fé como também o das histórias de fantasia medieval.

A ponte da Europa à Ásia

A ponte do Bósforo liga a Europa e a Ásia - sem sair de Istambul. A cidade se divide entre os dois continentes. Concluída em 1973, era um símbolo da modernidade turca e também a quarta maior ponte suspensa do mundo na época, com 1,5 km de extensão. Em 1988, uma segunda ponte foi inaugurada, com o mesmo tamanho, e ambas continuam em uso. A segunda ponte foi batizada em homenagem ao sultão Mehmet 2º, o conquistador de Constantinopla. Antes das pontes, o trajeto era feito por balsas. A ideia de uma ponte entre Europa e Ásia não é nova. Em 510 a.C. e 480 a.C., os imperadores persas Dario 1º e seu filho Xerxes construíram pontes provisórias para atravessar suas tropas e invadir a Grécia, nas famosas guerras greco-persas (tema do filme 300). Essas pontes eram feitas por centenas navios sem mastro, presos por cordas, sobre os quais passavam tábuas amarradas.

Os persas montaram suas pontes flutuantes no estreito de Dardanelos, mais ao sul, onde a distância é um pouco menor (de 1,20 a 1,30 km de largura). Quando uma de suas pontes afundou após uma tempestade, Xerxes ficou tão furioso que mandou seus soldados açoitarem o mar como "castigo".

O chapéu da discórdia

O fez é um chapéu de feltro quase cilíndrico, muito visto em filmes de época. Sua origem está nas reformas do sultão Mahmud 2º, que reformou o Exército em 1829, após a revolta dos janízaros, a infantaria turca. As tropas passaram a usar uniformes europeus e o fez veio para substituir o turbante. O chapéu passou a simbolizar a ocidentalização nos países islâmicos - e se tornou popular em locais tão distantes como a Indonésia. Também foi adotado por franceses, gregos e italianos. Com o tempo, porém, o significado se inverteu e o fez passou a representar o islamismo. Em 1925, foi banido por ser oriental demais.

Conheça as muralhas de Teodósio (clique na imagem para ampliar)



A difícil modernização

Ná época da conquista de Constantinopla no século 15, a Turquia tinha vantagem tecnológica sobre os países cristãos da Europa. Seu Estado era poderoso e bem organizado e, como era o Estado o responsável pela forja das armas de fogo, isso significava que tinham mais e melhores canhões que os cristãos. Os turcos foram grandes entusiastas das armas de fogo e a conquista de Constantinopla foi o primeiro grande evento em que essas armas foram indispensáveis.

No início do século 19, essa vantagem havia se perdido. A partir do século 17, os europeus iniciaram a grande revolução científica do Ocidente. Presos à sua religião, a tradições e à arrogância de serem um grande império, os turcos ficaram para trás. Em 1807, na Guerra Anglo-Turca, os otomanos usaram canhões de 300 anos, com design idêntico ao dos do cerco de Constantinopla, contra os navios britânicos. Ao longo do século, o império passou por sucessivas reformas. O Exército recebeu conselheiros da França e Inglaterra. Em 1826, as tropas de janízaros iniciaram uma revolta contra essas reformas e acabaram aniquiladas pelo resto do Exército. Em 1839, iniciam-se o chamado Tanzimat, um grande projeto de modernização, que inclui um esforço de industrialização, leis com direitos iguais para judeus e cristãos (1856), liberdade da imprensa (1857) e uma constituição liberal (1876), que só durou dois anos.

O país só conseguiu se modernizar de verdade quando a República da Turquia substituiu o decadente Império Otomano. Derrotado na 1ª Guerra, o império assinou tratados humilhantes. Uma revolta nacionalista, comandada pelo veterano general Mustafa Kemal, criou a moderna República da Turquia. Kemal, apelidado então de Ataturk (Pai dos Turcos), acabou com a influência da religião em assuntos de Estado e mesmo em costumes, proibindo turbantes em 1925 e véus islâmicos em 1934, mesmo ano em que estabeleceu o voto feminino. Desde 2003, com a eleição do primeiro-ministro Recep Tayyp Erdogan, pelo conservador Partido da Justiça e Desenvolvimento, alguns consideram que a Turquia está voltando a se islamizar.

Império retalhado

Até a 1ª Guerra, o Império Otomano controlava diretamente ou por meio de vassalagem quase todo o Oriente Médio, com exceção da Pérsia (Irã) e Omã, no extremo da península Arábica. Aliado da Alemanha, o império teve todos os seus territórios conquistados pela Entente, incluindo uma revolta árabe insuflada pelos ingleses, em 1916 - que deu origem às famosas aventuras do capitão T. E. Lawrence, o Lawrence da Arábia. Armênios também se revoltaram, com o apoio dos russos. A isso os otomanos responderam com genocídio, matando 1,5 milhão de armênios. Quanto ao Oriente Médio, foi dividido entre França e Inglaterra e de suas divisões administrativas surgiram os países da região - e também muitos problemas. No Iraque, os ingleses colocaram os sunitas no poder, enquanto a maioria da população é xiita. Israel também surgiu dessa partilha, em 1948.

Hagia Sofia

Com elementos cristãos e islâmicos, a construção é marco da arquitetura bizantina

A Basílica de Santa Sofia (ou Hagia Sofia, em grego), em Istambul, antiga Constantinopla - capital do Império Romano do Oriente, ou Bizantino -, foi construída para glorificar o poder romano como o maior templo cristão do Oriente. Após dois incêndios destruírem pequenos templos no local, em 537 o imperador Justiniano ordenou a construção da igreja. Mais de 10 mil homens trabalharam na obra, que utilizou material de todo o império, incluindo mármores amarelos da Síria e verdes da Tessália, pórfiros do Egito e colunas gregas. A igreja é o maior marco da arquitetura bizantina.

Por quase mil anos, a catedral serviu como modelo do cristianismo ortodoxo, até Constantinopla ser invadida pelos otomanos, em 1453. Na ocasião, a basílica foi transformada em mesquita e por 500 anos tornou-se a joia do mundo muçulmano. Em 1935, o local foi convertido em museu. Hoje é patrimônio cultural da humanidade.

De igreja a mesquita

Em 1453, os otomanos realizaram a primeira oração na nova mesquita de Constantinopla, a Aya Sofia. Diz a lenda que Maomé havia profetizado que o primeiro muçulmano a rezar na basílica iria para o paraíso. Por isso, quando o sultão do Império Otomano Mehmet 2º descobriu que o local estava sendo saqueado durante a invasão da cidade, interrompeu o roubo, ordenou que limpassem e arrumassem o templo e converteu a igreja na primeira mesquita imperial de Istambul.

Clique na imagem abaixo para ampliar a basílica




Saiba mais

A Civilização Bizantina, Steven Runciman, Zahar Editores, 1977.

Histoire de Byzance, Paul Lemerle, Presses Universitaires de France, 1948.

Bizâncio, a Ponte da Antiguidade para a Idade Média, Michael Angold, Editora Imago, 2002.