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Adoradores do fim: a justa e inevitável saga da Santa Muerte

Venerada por mais de 2 milhões de pessoas no México, a entidade é considerada uma lei da natureza pelos devotos, mas uma figura diabólica por outras religiões

Pamela Malva Publicado em 27/09/2020, às 08h00

Representação da Santa Muerte
Representação da Santa Muerte - Wikimedia Commons

Quando pensamos no grande guardião do submundo, o nome de Hades surge na memória. Isso porque, para a cultura greco-romana, ele é o deus responsável pelas almas penadas que, após a morte, passarão a eternidade do outro lado.

Segundo outros sincretismos, no entanto, Hades não é a única entidade que possui as chaves do reino dos mortos. Datados desde os tempos pré-hispânicos, os cultos à morte reconhecem alguns outros deuses que dominam o chamado mundo inferior.

Na cultura maia, por exemplo, o guardião do submundo era chamado de Ah Puch. Ainda mais, para os astecas, um poderoso casal cuidava das almas que já se foram: eram Mictlantecuhtli e Mictecacíhuatl, o deus e a deusa da morte.

Séculos mais tarde, com novos cultos que veneram a entidade, o México é um dos países que conta com tradições que homenageiam a Santa Muerte. Padroeira que recebe oferendas no Dia dos Mortos, todavia, ela ainda é muito mal interpretada ao redor do mundo.

Comemoração do Dia dos Mortos no México / Crédito: Divulgação/Pixabay

 

Preonceito e adoração

Representado majoritariamente pela Igreja Católica Apostólica Mexicana Tradicional, o culto à Santa Muerte não é bem recebido por uma grande parte do país. Ainda que existam cerca de 2 milhões de devotos no México, eles sofrem muito preconceito.

Reza a lenda que tudo começou em meados de 1795, com antigos devotos venerando um esqueleto que chamavam de Morte. Tal tradição manteve-se esquecida por dois séculos, até que a entidade voltasse a ser adorada, em 1965.

A partir do século 20, entretanto, a imagem da Santa Muerte não mais representava um deus, mas sim a marginalização social, a pobreza e o crime. Dessa forma, por ser considerada uma imagem diabólica, ela passou a ser rejeitada por diversas religiões.

Altar para homem falecido no Dia dos Mortos / Crédito: Wikimedia Commons

 

A verdade por trás da política

Atualmente, grande parte do medo e do preconceito parte do fato de que diversos criminosos mexicanos veneram a mesma morte. Tamanha é a polêmica em torno do culto à Santa Muerte que, no México, a discussão já atingiu o nível político.

Em 2012, o próprio líder do culto, David Romo Guillén, foi condenado a 66 anos de prisão por acusações de roubo, sequestro e extorsão. Quatro anos mais tarde, durante uma visita ao país, o Papa Francisco condenou a adoração à Santa Muerte.

Dessa forma, após tantos escândalos, os devotos de Santa Muerte, hoje, são considerados pessoas de má índole, comumente ligadas à prostituição, ao tráfico de drogas e aos cartéis e gangues do país. Para os próprios seguidores, contudo, o culto mostra que a morte não toma partidos: ela é justa e enxerga a todos da mesma forma.

Representação da Santa Muerte com uma balança e o globo terrestre em mãos / Crédito: Wikimedia Commons

 

Imagem e justiça

Geralmente representada como um esqueleto, Santa Muerte é uma imagem andrógina, que costuma carregar flores, uma balança, uma ampulheta ou um globo terrestre. Muitas vezes, ela pode trazer características femininas, já que, segundo a crença, os humanos nasceram de uma mulher e, assim, devem morrer nas mãos de outra.

Ainda mais, os devotos de Santa Muerte a identificam como algo inevitável, uma lei natural que deve ser aceita e respeitada. Sendo assim, por carregar um fardo tão terrível, a entidade deve ser tratada como um familiar ou amigo.

Também conhecida como o Santíssimo Sacramento, a morte é invocada para que conceda pedidos de segurança, saúde, proteção ou um óbito menos doloroso. Em troca dos favores, é comum que os devotos lhe presenteiem com doces ou tequila.

Vista como uma padroeira daqueles marginalizados pela sociedade, a Santa Muerte é um porto seguro para seus seguidores. Adorando sua imagem, eles evitam sentimentos que limitem suas vidas — como medo, ódio e inveja. Dessa forma, tentam aproveitar seus dias ao máximo, mesmo sabendo que, um dia, a morte chega para todos.


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