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De onde veio a imagem injusta dos Neandertais?

Injustiçados de por mais de 100 anos, os homens das cavernas passaram a recuperar a imagem

Thiago Lotufo Publicado em 11/04/2021, às 10h00

Reconstrução de um neandertal no museu de Mettmann, na Alemanha
Reconstrução de um neandertal no museu de Mettmann, na Alemanha - Getty Images

Em 1908 um esqueleto quase completo escavado em La Chapelle-aux-Saints, na França, deu margem para que o anatomista Marcellin Boule, então diretor do Instituto de Paleontologia Humana, em Paris, criasse uma imagem brutal dos neandertais.

Numa ilustração aprovada por ele, ficou claro: o neandertal era uma besta peluda de braços longos e pescoço atarracado, incapaz até mesmo de ficar em pé por completo. Foi descrito como uma falha evolutiva, uma espécie degenerada que nada tinha a ver com o Homo sapiens.

Assim, estava criado o mito do homem das cavernas troglodita, mais parecido com um gorila que com o humano moderno. A imagem de troglodita só começou a ser questionada na década de 50.

Anatomistas americanos reexaminaram o fóssil de La Chapelle-aux- Saints e notaram que aquele neandertal, de cerca de 40 anos de idade, sofrera de artrite. E que, por isso, tinha a postura curva. Eles afirmaram que as diferenças anatômicas para um ser humano comum eram muito pequenas.

E mais: segundo eles, se um Homo neanderthalensis pudesse reencarnar e ser colocado no metrô de Nova York – desde que estivesse de banho tomado, com a barba feita e vestido com roupas modernas – talvez não chamasse mais atenção que qualquer outro habitante da cidade.

Mas o homem e a mulher neandertal não eram nada esbeltos. “Eram baixos e atarracados como os esquimós”, afirmou o arqueólogo e antropólogo Walter Neves.

As mulheres chegavam a 1,54 metro e 65 quilos de peso. Os homens tinham 1,66 metro e pesavam 77 quilos. As pernas e braços eram curtos, os ossos robustos e o corpo musculoso.

O crânio era alongado com sobrancelhas proeminentes e a testa pequena. O nariz era grande e na região da mandíbula não havia um queixo. “Consequências da seleção natural e da adaptação ao frio intenso”, acrescentou Rob Kruszynski, paleontólogo do Museu de História Natural de Londres, Inglaterra.

O tamanho do nariz, por exemplo, ajudava a aquecer e umedecer o ar gelado e seco dos períodos de glaciação. O corpo pequeno lhes permitia maximizar a conservação de calor. E, também por causa do frio, eles chegavam a ingerir até 7 mil calorias por dia, quase três vezes mais do que nós comemos. Detalhe: 90% dessa dieta era baseada em carne.

Facetas humanas 

E os pelos? Eles eram peludos, afinal? Estudos demonstraram que os neandertais estavam longe de ser parecidos com os homens macacos que o cinema eternizou. Pelos em excesso seriam uma desvantagem evolutiva. “Eles levariam a um superaquecimento corporal e, com isso, o suor produzido congelaria e poderia ser prejudicial à espécie”, explica Kruszynski.

O fato é que os conceitos sobre os neandertais começaram a mudar de figura quando se
passou a dar menos importância às descrições físicas e mais atenção ao comportamento deles. A partir da década de 60, estudos foram revelando facetas muito mais humanas.

Um deles foi a descoberta em 1983 de um osso hióide (ligado à fala), que levou parte da comunidade científica a afirmar que os homens das cavernas se comunicavam por meio de linguagem própria. Era tosca, mas era linguagem.

Outra foi a descoberta de que eles sepultavam os mortos. “Esse cuidado com os defuntos revela uma forma de pensamento abstrato”, acredita a antropóloga Cidália Duarte. Uma terceira, comprovada com esqueletos da França e do Iraque, é o cuidado que eles tinham com os mais velhos e os feridos. Por outro lado, estudos recentes revelaram que eles praticavam o canibalismo – e não era por escassez de comida.