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Exclusivo: Leia dois subcapítulos da obra Estrelas fritas com açúcar, de Letícia Wierzchowski

O emocionante livro retrata a trajetória da empresária Adelina Clara Hess, que ficou famosa por marcar a história da moda no Brasil

Victória Gearini Publicado em 20/12/2020, às 10h00

Adelina ao lado de seu marido Duda
Adelina ao lado de seu marido Duda - Divulgação / Youtube / Passo a Passo Empreendedor

A obra Estrelas fritas com açúcar, da escritora e roteirista brasileira, Letícia Wierzchowski, é o mais novo lançamento da Editora Planeta, e retrata a brilhante trajetória de Adelina Clara Hess e de seu marido Duda, fundadores da famosa marca de roupas Dudalina. 

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Estrelas fritas com açúcar, de Letícia Wierzchowski (2020) / Divulgação / Editora Planeta

Este livro eletrizante é narrado pelas moiras — deusas responsáveis por fiar, tecer e cortar o fio da vida de seres mortais e imortais — que conduzem o leitor para dentro da trajetória de Adelina e Duda

A obra homenageia a mulher que revolucionou a história da moda no Brasil. Ambientada desde a Segunda Guerra Mundial até os dias atuais, a narrativa relata os obstáculos e sucessos enfrentados por Adelina.

Por meio de uma pesquisa detalhada, a autora conta que aos 15 anos, a personagem começou a trabalhar no armazém de sua família, localizado no município catarinense de Luiz Alves. 

Em seguida, a futura empresária descobriu vocação para os negócios e decidiu dedicar-se à profissão, ao lado do marido e sócio, Duda — com quem teve 16 filhos. Esta emocionante obra reconstitui a trajetória completa da mulher que revolucionou a moda.

A renomada escritora Letícia Wierzchowski é autora, ainda, de A Casa das Sete Mulheres, que foi adaptada pela Rede Globo, em 2003. Além disso, é autora de outros 31 livros, editados em vários países da Europa.

Adelina Clara Hess, fundadora da marca Dudalina / Crédito: Divulgação / Youtube / Passo a Passo Empreendedor

 

Estrelas fritas com açúcar e outras obras de Wierzchowski podem ser encontradas na Amazon, tanto em formato Kindle quanto capa comum.


+Com autorização da Editora Planeta, a Aventuras na História reproduziu, na íntegra, dois subtópicos do primeiro capítulo. Confira:

Blumenau, primeiros dias de outubro de 2008

Adelina levantou-se com cuidado da cama e caminhou até a janela do quarto 719 do Hotel Himmelblau. Embora tivesse passado anos da sua vida ali, em jornadas de mais de dez horas para reformar o hotel que comprara sucateado, trocando carpetes, mesas, quadros, refazendo salas, quartos e até o restaurante —  para o qual organizara um café da tarde domingueiro que ficara famoso para além da própria cidade de Blumenau — , agora sentia-se uma estranha naquele lugar.

A mão longa, de dedos finos — mão acostumada ao trabalho, aos acertos de negócio, mão que cortara tecidos, ninara crianças e assinara contratos — , agora pálida, manchada no torso, abriu a cortina de voal com um gesto longo e trêmulo.

O dia estava bonito lá fora, mas Adelina sentiu um arrepio de desconforto. Pensou na sua casa, pertinho dali, nas suas rosas. Era primavera, as rosas e as gérberas começavam a florir, desenhando os caminhos do jardim que lhe era tão caro. Ah, sempre tinha amado as flores... Mas gostava delas vivas, pulsantes, bebendo da terra e do sol. Virou-se e viu um punhado de gérberas no vaso em cima da mesinha. Qual dos filhos tinha lhe mandado aquelas flores?

Não sabia, não conseguia se lembrar.

Sentou-se na cama outra vez, olhando a camisola elegante através de um fino véu de lágrimas. Tudo estava embaralhado. Sentia-se péssima. Não era apenas a falta de Duda, o amor da sua vida. A falta que ela arrastava como uma cruz havia já mais de uma dezena de anos. Não... Estava doente, exausta. As coisas escapavam da sua cabeça, que fazia contas dificílimas em segundos. Da sua cabeça! Ela riu baixinho, um riso amargo que se transformou num curto acesso de tosse. A tosse que ia e vinha, e que Adelina tentava esconder dos filhos.

Olhou as gérberas. Quem teria sido? Tida, Sônia, Denise, Scheila, Nana? Suspirou fundo. Poderia ter sido Tida... Se Duda estivesse vivo, teria sido ele. Ah, Duda, o poeta da sua vida... Seu coração confrangeu-se, mas, depois, num sopro, pareceu se expandir dentro do peito, como um pássaro que subitamente abria as asas.

Prestes a voar, o seu coração.

Ela não queria morrer. Amava a vida com todas as suas forças! Amava a vida, os risos, a exaustão do trabalho, o pão com manteiga, a terra nos dedos, vermelha como se fosse um outro tipo de sangue. Amava a vida com a mesma intensidade que a amara em menina, quando corria pelas ruas de chão batido de Luís Alves com Elvira, as duas rindo, rindo... Ela e a irmã, fugidas do controle rígido da mãe por algum tempo, seguindo no rumo da queda d’água onde gostavam de se banhar nos dias de calor forte. Amava a vida como a amara dentro de si. Vinte vezes tivera outra vida nas suas entranhas. E, a cada nova gravidez, ao contrário das mulheres que conhecia, ao contrário das outras mulheres do mundo — pois, sim, ela era diferente de todas! — sentia-se mais cheia de viço e de energia. Grávida, ela era duas.

E ali, sentada na cama do hotel que também era seu, vendo a manhã azul e dourada brilhar lá fora, ela não queria morrer.

No entanto, sentia aquilo. Como uma intuição, um aviso.

A areia da ampulheta estava se esgotando.

Shiss, shisss... Quase podia ouvir a areia escorregando pelo fino orifício da sua existência.

Se morresse, Duda estaria esperando por ela. Duda, o jovem caboclo cuja chegada a cigana predissera assim que Adelina tinha nascido... Sua mãe gostava tanto de contar aquela história! A cigana, que vira sua rechonchuda mãozinha de bebê, avisara Verônica de que sua filha jamais se casaria com um descendente alemão, como ela imaginava, mas com o belo jovem moreno que lhe atravessaria a vida pelo meio feito um raio.

— Assim, feito o destino — Adelina disse, numa voz enfraquecida.

E sorriu.

Sorriu sozinha no quarto que Sônia tinha escolhido para ela. Sozinha ali, com suas pernas exaustas, marcadas de varizes, aquelas gérberas cheias de cor, o sol lá fora, a camareira que não vinha, Duda e todos os partos como se estivessem acontecendo naquele exato momento.

Apesar de ainda não passar das nove horas da manhã, o cansaço tornava seus membros pesados. O tempo, como incontáveis peças de tecido abrindo-se diante dos seus olhos, pareceu mostrar-se inteiro para ela. Uma existência diante dos olhos, os filhos pequenos, a venda em Luís Alves, a camisaria nascendo no quarto dos meninos como uma semente que ela regara durante toda a sua vida, agora exuberante, cheia de flores, com milhares de funcionários, o sucesso, o orgulho... Tinha sido uma longa, maravilhosa peleia.

Adelina sentiu-se subitamente muito tonta e deitou-se outra vez na cama, pensando em chamar Carmem ou a cuidadora que Sônia lhe contratara. Talvez Carmem pudesse lhe dar um antitérmico, porque estava com febre. Ela conhecia bem a febre, durante anos medicara seus filhos um a um, seus dezesseis filhos – “dezesseis!”, diziam os outros, espantados, como se tivessem visto os Jardins Suspensos da Babilônia.

Dezesseis filhos.

E ela amara a todos com toda a sua alma, embora não tivesse muito tempo; estava sempre tão ocupada vendendo camisas, pagando colégios, viajando por estradas esburacadas atrás de clientes. E quantas idas a São Paulo, e quantas noites insones marcando preços em mercadorias?

Tudo se misturava agora na sua cabeça, tudo.

Era a febre, já a conhecia bem.

Mas, antes de fechar os olhos, ela soube. As gérberas haviam sido obra da Nana. E, assim, pacificada pela memória, Adelina Hess de Souza mergulhou num sono inquieto. O último sono que ela dormiria na cama do quarto 719 do Hotel Himmelblau.

Luís Alves, fevereiro de 1944

A manhã de sábado derramava suas luzes lá fora, mas, dentro da venda ainda fechada, havia um frescor penumbroso. Pelo chão perfeitamente encerado, pequenos riscos de luz dançavam como gavinhas agitadas por uma brisa que só existia nos pensamentos de Adelina.

Era muito cedo ainda, mas a jovem, alta e elegante, estava bem-composta e com um sorriso no rosto, pronta para o longo dia de trabalho. Ela era sempre assim, e essa constatação, de que Adelina – a terceira dos sete filhos – tinha nascido para os negócios da venda, deixava seu pai tranquilo para tratar dos outros assuntos da família, como o pequeno açougue e os ônibus que circulavam de Luís Alves a Itajaí. Ele saíra muito cedo naquela manhã, ainda antes do raiar do dia.

Seria um dia quente. Mais um... Adelina abriu as portas da venda depois de conferir que ali dentro tudo estava em perfeita ordem para os primeiros clientes. Eles vendiam de um tudo – farinha, grãos, tecidos, bebidas alcoólicas, utensílios de cozinha, roupas de cama e mesa, vestuário, materiais agrícolas, chocolates, leite condensado e outras iguarias, às quais Adelina mantinha sempre um olho espichado, para que Almiro ou o sapeca irmão caçula, Ade, não viessem roubar nenhuma doçura.

O ar quente tocou o seu rosto como um bafejar e Adelina respirou fundo, sentindo a manhã de verão. A rua ainda estava deserta, a cidadezinha despertando aos poucos no torpor do sábado; uma carroça passava adiante, seguindo para os lados do rio lenta e desajeitadamente. A escola, com os postigos fechados, parecia dormir preguiçosamente. Adelina ouviu um ruído atrás de si, virou-se e deu com Ana.

— Bom dia — disse.

Ana olhou-a com seus olhinhos apertados. Era uma moça compacta, sem atrativos, feita para o trabalho.

— Acabei de dar o café para Nair.

— A maninha já acordou? — perguntou Adelina, com um meio sorriso, pensando na garotinha loira e bonita. Ela sabia bem o motivo pelo qual Nair saíra da cama tão cedo naquela manhã. — Deve ser por causa do Anselmo. Ele volta ao Rio de Janeiro na segunda-feira.

Ana suspirou discretamente enquanto ajeitava as sacas de grãos num canto da loja. O primo Anselmo era um jovem garboso e divertido, por quem seu coração palpitava mais forte, e esse segredo, tão constrangedor como o sangue mensal que lhe descia pelo meio das pernas, era mantido a sete chaves pela moça tímida que viera trabalhar na casa dos tios havia já algum tempo, vivendo numa condição que oscilava entre o status de familiar e as mil obrigações de uma empregada de casa e balcão.

— Anselmo volta em dois dias? — perguntou Ana, com uma pitada de nervosismo na voz.

— Sim, acabaram-se as férias do nosso sargento.

Adelina disfarçou um sorriso enquanto arrumava a pilha de bacias de alumínio por ordem de tamanho, pois gostava da perfeição em todos os seus detalhes. Era perspicaz e vira os olhares espichados da outra para o seu irmão. Anselmo era um homem elegante e, na vivacidade dos seus vinte anos, tinha uma bonita namorada no Rio de Janeiro. Adelina não a conhecia, a não ser pelo retrato que a mãe trouxera de lá alguns meses antes. Nela, via-se dona Verônica, de vestido azul e com um chapéu combinando, abraçada ao filho mais velho e de braço dado com o esposo engravatado e sério. Num canto, a moça miúda, morena, de olhos claros, sorria um pouco assustada para a câmera.

Anselmo dizia que aquilo daria em casamento, embora não tão cedo. Jovem, ele gostava da vida agitada da capital, onde tinha a patente de segundo sargento e cursava o quarto ano de Engenharia. Eram tempos duros, a guerra assolava a Europa e, depois de submarinos alemães terem afundado navios mercantes brasileiros, a mobilização popular forçara Getúlio Vargas a declarar-se contra o Eixo. Dizia-se que, em breve, uma força expedicionária brasileira seguiria para a Europa a fim de unir-se às tropas aliadas. Tal fato causava uma grande angústia a Verônica e Adelina – e se Anselmo fosse para a guerra? Mas toda vez que lhe faziam essa pergunta, o jovem respondia com efusão, demonstrando o desejo de lutar.

A vida era agitada e efervescente para Anselmo Hess e tudo parecia acontecer longe demais dali, da pequena Luís Alves, regida pelo sol e pela chuva, pelas colheitas e pelas missas, onde a guerra se perdia em conversas no balcão do bar regadas a capilé, e onde um ônibus atolado no caminho para Blumenau, por causa dos enormes transtornos das frequentes chuvaradas de verão, causava mais exclamações de tristeza do que uma bomba explodindo na quase impensável Londres, a corajosa e resistente cidade europeia.

Adelina olhou a rua de chão batido, as casas de madeira, os morros ao fundo, verdes contra o céu de um azul lavado. Se forçasse os ouvidos, poderia escutar o ruído das águas do Rio Luís Alves, que descia atrás da venda até o Salto e dividia o lugar em sete braços, nos quais moradores aglutinavam-se por nacionalidades e escolhas religiosas. Era um lugar simples, pacato, habitado por colonos alemães, italianos, portugueses e uns poucos poloneses. Tudo parecia longe demais, mas Adelina amava aquele lugar com as fibras da sua alma.

Ela ajeitou os cabelos, alisou a saia do vestido amarelo, recostou-se no balcão e abriu um sorriso. Lá fora, o senhor José Kraisch apeava em frente à venda, dando início ao dia de trabalho. Era sábado e ele parecia feliz. Sua filha mais nova contraíra noivado com um rapaz de Itajaí, era o que se dizia. Adelina ouvia tantas conversas no balcão que, às vezes, confundia tudo. Ela abriu o livro-caixa e espiou a conta do senhor Kraisch para ver a quantas andava. Da casa, no andar de cima, vieram os trinados de uma risada infantil e passos acelerados, ruídos de brincadeiras. Decerto a pequena Nair já acordara o irmão mais velho para bagunças na cama.

— Bom dia, Adelina! — O velho Kraisch adentrou a venda, tirando o chapéu. — Hoje vim buscar uma caixa de Brahma.

Adelina abriu um sorriso simpático. Sim, haveria noivado. Ela deixou o livro no balcão e começou a pensar no que mais poderia sugerir ao feliz pai que casava a última das filhas. Ela era uma boa vendedora, e um noivado que se prezasse não poderia ser feito apenas ao redor de uma caixa de cerveja, afinal de contas.

Nair passou pela cozinha pisando na ponta dos pés, mas espichou um olho e pôde ver a empregada já envolvidíssima com o preparo das cucas de sábado. Em breve, o ar da casa se encheria do perfume doce, almiscarado pela noz-moscada, daqueles bolos que ela e os irmãos amavam. Sentiu uma pontada de fome na boca do estômago, mas não prestou muita atenção. A grande fornada de cucas, que depois descansaria na janela que dava para o quintal, espalhando seu perfume de delícia até quase o rio, ficaria pronta apenas no fim da manhã. Ela sabia, e a mãe dizia sempre, era preciso paciência, deixar a massa crescer como crescem as plantas, no tempo de Deus.

A menina segurou um sorriso. Deus? Ele sempre vinha atrapalhar as coisas, era isso que ela pensava. Ajeitou os cabelos, acomodando-os atrás das orelhas, e subiu novamente a escada para o andar superior, onde ficavam os seis quartos da casa. No último deles, dormia Anselmo.

Nair tinha conseguido correr até o jardim, saindo pela portinha lateral, escolher uma flor, arrancá-la quase sem danos e voltar para o corredor da cozinha, o caminho de serviço. Estava com os pés sujos de terra, mas Anselmo certamente não se incomodaria; ele, que amava o mar e a tal praia de Copacabana. Nair subiu os degraus de madeira e seguiu caminhando. Sabia que os pais tinham ido até Itajaí buscar uma encomenda e voltariam apenas com o ônibus no fim do dia. Elvira devia estar se arrumando para a visita do noivo, pois Leonardo viria depois do almoço; Alzira ainda estava em seu quarto, aquela preguiçosa malvada, que a beliscava sem dó na hora de colocá-la para dormir. Adelina estava na venda, e os dois meninos, Almiro e Ademar, dormiriam até que Luci subisse, logo mais, para arrancá-los da cama, aqueles bobocas. Ela até gostava dos dois. Mas não como amava Anselmo, o seu mano grande, bonito e educado, que morava na capital e sabia coisas difíceis. Ele usava ternos caros que a mãe mandava fazer em Blumenau, ia a jogos de futebol do Fluminense, tinha um uniforme do Exército e até medalhas. Ah, como ela adorava Anselmo, pois, apesar disso tudo, ele a tratava como uma princesa, sempre a enchendo de beijos e cócegas, disposto a tomar banho de rio com ela e, até mesmo, a cuidar das suas bonecas enquanto dormiam.

Caminhou pé ante pé pelo corredor de piso encerado, sentindo a madeira fria e boa entre seus dedos. Lá fora, já começava a fazer calor. Nair ajeitou a camisola branca, limpou um pouco da terra dos pés, segurou a florzinha com a mão apertada. Algumas pétalas tinham caído, aquilo a deixava triste. Mas tivera de ser rápida por causa de Luci. Se a empregada a visse de camisola no jardim, quando os pais chegassem à noite, ela levaria umas palmadas.

Nair tinha medo do pai. Ele era um bom homem, era sim, mas tão sério e quieto... E quando se enfurecia? A menina sentiu o coração latejando no peito. Ainda naquela semana, Leopoldo perdera as estribeiras com o filho caçula. Ade era terrível, Nair sabia bem. Puxava-lhe os cabelos e até cuspia no seu prato de sopa quando os grandes não estavam olhando, mas a surra que ele levara do pai, a carraspana diante de todos, aquilo tinha sido demais... Ade e um amigo, Toto, tinham pegado bombinhas e se escondido sob a ponte que cruzava o rio para o Braço Serafim, e ficaram ali esperando alguém passar. A vítima fora o senhor Ildo Zachel, que acabara de sair da venda carregado de compras. Os meninos tinham explodido a bombinha sob as patas do cavalo do senhor Zachel, o pobre bicho se assustara, dera um pinote, derrubara a montaria e as mercadorias todas tinham ido parar no fundo do Luís Alves.

Pobre senhor Zachel! Caíra de costados na ponte e por pouco não fora parar no fundo do rio junto com as coisas que Adelina cuidadosamente embalara ainda na venda. Ele ficara furioso! Sabia que aquilo havia sido uma travessura de menino. E, assim, furioso, o homem correra até a embocadura da ponte a tempo de ver Ademar fugir aos risos para os lados do Salto. Depois, fora se queixar com Leopoldo: por causa do filho, perdera todas as compras e ainda poderia ter morrido!

Nair vira o pai mandar que embalassem novamente as mercadorias do senhor Zachel. Devolvera-lhe cada item sem anotar nada no caderno e depois prometera que Ademar teria o seu castigo. Naquela noite, Leopoldo reunira todos – família e funcionários de balcão e da casa. Chamara até os rapazes dos ônibus e do açougue da família. Na sala grande de jantar, diante de todos, num silêncio que quase provocara engulhos a Nair, aplicara uns tapas no levado Ademar.

A vergonha de ver o irmão apanhar diante de toda aquela gente não saía da cabeça da menina. Ela encolhera-se toda, como se pudesse desaparecer, postada entre a mãe e o irmão mais velho, Anselmo, que apertava as mãos uma contra a outra, sem poder intervir. Depois daquele triste espetáculo, foram todos dormir, menos Nair, que ficara escondida num canto da escada, ouvindo, do corredor, o choro fino e sentido de Ade. Tinha pena dele, mas não chegara nem perto do menino, com medo de que o contato com o irmão a fizesse culpada também.

Ah, como temia o pai quando ele estava bravo! Pensando nisso, olhou para os pés sujos, a terra espalhada pelo piso. Com a mãozinha livre, empurrou os grãos escuros para debaixo de um tapete, tentando deixar o lugar em perfeitas condições. Ela não queria apanhar, tinha tanto medo! Então ouviu ruídos no quarto de Anselmo. O irmão finalmente acordara.

Com jeitinho, Nair abriu a porta e entrou. Sentia um calor no rosto, uma alegria. Anselmo estava recostado na cama, usando o pijama de linho cinzento que a mãe lhe dera no último Natal. Ao vê-la, abriu um sorriso no seu rosto bonito.

— Maninha! Vem aqui! — ele disse, rindo.

Aquela era a senha para Nair sair correndo, pular na cama do irmão e misturar-se aos cobertores, recebendo dele a atenção masculina e amistosa que seu pai, generoso, mas rígido, criado nos velhos costumes alemães, jamais soubera lhe dar.

Nair correu e jogou-se na cama. No impulso, caiu sobre a flor que colhera havia pouco no jardim, transformando-a num emaranhado de pétalas e folhas esmagadas, o que arrancou uma risada alta de Anselmo. Contente de ver o brilho nos olhos escuros do irmão que amava tanto, Nair também desatou em risadas, jogando a cabecinha redonda para trás, atirada entre os travesseiros de penas. O riso dos dois misturou-se numa só música enquanto o sol entrava pela janela aberta, revelando o dia lindo e caloroso que esperava por eles naquele fevereiro, o penúltimo dia das férias de Anselmo na casa dos pais.

Adelina já estava bastante atarefada àquela altura da manhã. Os funcionários tinham trazido mais farinha do paiol, e ela mandara que recolhessem o açúcar que já secara na eira, substituindo-o por nova leva, ainda molhada, para aproveitar o calor daquele sábado.

Sentia-se um pouco cansada, dolorida. Era o incômodo mensal que estava por chegar. Às vezes, as cólicas prostravam-na na cama por horas, logo ela que era tão ativa. A mãe dizia-lhe que, depois que tivesse filhos, aquele sofrimento mensal seria amenizado. Adelina, organizando o livro- -caixa enquanto Ana pesava farinha e arroz para um colono, ruborizou-se levemente ao se lembrar da conversa com Verônica. Tinha já dezoito anos e não parecia que o amor a tivesse escolhido. Embora fosse uma mulher alta, de traços finos e olhar intenso, ainda que andasse sempre vestida de modo impecável, as roupas passadas, a moda em dia, as luvas sem um grão de pó, não tinha muitos interesses românticos em ninguém por ali. É verdade que vários clientes da venda espichavam o olho para a bonita filha de Leopoldo Hess, mas Adelina era muito exigente.

Houvera José Coelho, o moço que conhecera naquele casamento em Ituporanga, que acabara se revelando aparentado de sua mãe. Chegaram a namorar, e José a visitara algumas vezes em Luís Alves. Mas logo Adelina entendera que seu coração não batia mais forte pelo rapaz, encerrando aquele assunto sem muitas delongas. A mãe a aconselhara que desse uma chance ao moço, que o amor não era como nos livros, mas Adelina não cedera. Guardava dentro de si a ideia de que, quando o homem da sua vida aparecesse, ela o reconheceria sem qualquer dúvida. Verônica tentava dissuadir a filha dessas ideias românticas, fruto das leituras de Adelina após o jantar, quando passava longas horas entre romances de autores com nomes estranhos, como Tolstói e Flaubert.

Mas Adelina era uma moça teimosa e determinada. Desde os quatorze anos, quando deixara o colégio interno em Blumenau, decidida a trabalhar no negócio dos pais e receber uma comissão, ela assumira um papel na vida adulta da família, e esforçava-se profundamente para cumpri-lo. Das três irmãs mais velhas, era a única que trabalhava diariamente na venda, e também a responsável por toda a contabilidade dos negócios familiares – a venda, o açougue e os ônibus. Alzira e Elvira ajudavam, ora na venda, ora na casa com os irmãos pequenos, mas Leopoldo e Verônica sabiam que era com Adelina que eles podiam contar. Assim como naquele sábado, quando os pais tinham ido para Itajaí buscar algumas encomendas. Só voltariam à noitinha. Adelina cuidaria de tudo por ali.

Ela sorriu, virando a grande página do livro-caixa, enquanto escutava sopros da música que Luci cantava na cozinha, misturados aos trechos de sua conversa com dona Juvelina, ordenando que ela matasse as cinco galinhas necessárias para o almoço de domingo.

Enquanto o mundo estava convulsionado pela guerra e as tropas aliadas desembarcavam na Itália, não acontecia muita coisa em Luís Alves. Era sempre o trabalho na venda, as lavouras e o negócio das serrarias que movimentavam um pouco a frágil economia. Claro, no Vale do Itajaí, florescia com viço a indústria têxtil. Adelina gostava muito das pequenas viagens que fazia a Blumenau, Itajaí e Brusque, quando comprava mercadorias para a venda e pequenas prendas para si mesma. As grandes fábricas, como a Hering e a Renaux, moviam cidades inteiras, transformando a rotina das pessoas e até mesmo a geografia dos lugares, criando bairros, ruas, estradas, empregos e futuro. Adelina gostava disso, da euforia do trabalho, da transformação. Não era como as outras moças da sua idade, que só pensavam em se casar. Queria algum romance, é claro, um belo jovem que agradasse seus olhos, cortês, elegante, que soubesse dançar e contar histórias divertidas, alguém que a acompanhasse à missa. Mas queria mais... Gostava de trabalhar. Sentia-se viva ali na venda, lidando com as gentes, com o dinheiro, com as mercadorias que chegavam e precisavam ser desembaladas e etiquetadas. Aquele movimento contínuo fazia palpitar mais o seu coração. Não, não era dada ao pacato, às suavidades de uma casa e, embora soubesse todas as lidas – tinha aprendido a costurar, bordar e cozinhar com as freiras –, preferia sempre atravessar a porta que levava à venda e imiscuir-se na rotina do comércio. Ali era o seu lugar.

Guardou o livro-caixa, dando bons-dias à senhora Haulk, quando Anselmo entrou na venda, vestido e barbeado. Adelina sorriu ao ver o irmão. Era um homem alto, com alguns traços da mãe no rosto forte. Adelina e ele eram parecidos. Desde que fora para o Rio de Janeiro, Anselmo refinara-se muito. Usava um chapéu claro de palha, ternos leves, elegantes, sapatos sempre lustrosos. Ela ria quando ele voltava dos passeios pela cidade, os belos sapatos comprados na capital federal sujos do barro vermelho de Luís Alves. Era preciso que Luci os polisse muitas vezes para que recuperassem sua dignidade burguesa. Mas Anselmo era um jovem alegre e simples, e as pequenas estadas na sua cidade natal o enchiam de alegria. Gostava de todos, era querido pelos colonos e clientes do pai, amado pelos irmãos, respeitado por Leopoldo, que via no filho talvez um futuro político que pudesse levar adiante as suas ideias progressistas na região.

— Adelina — disse Anselmo, com sua voz grave e límpida —, já na lida, minha irmã?

Adelina sorriu, cativada. Adorava aquele rapaz com uma força incontrolável. Mas Anselmo parecia não notar quanto todos o amavam. Ele fluía pelos ambientes com a sua doçura, tratando de cuidar dos pequenos, que viviam pululando ao seu redor, como Nair, que agora chegava correndo, ainda descabelada e descalça.

— Desde cedo, irmãozinho. Acordei antes do sol — ela respondeu.

— Não se canse tanto — brincou Anselmo. — O papai devia lhe pagar o dobro de comissão. Este negócio não funciona mais sem a sua mão firme.

Nair andava por ali, com medo de interromper a conversa dos mais velhos, mas ansiosa com alguma coisa. Adelina viu os olhares gulosos da menina para uma pilha de chocolates Buschie que ela acabara de arrumar no balcão. Num rompante, olhou de soslaio para Ana e teve de segurar o riso. Ana olhava para Anselmo com o mesmo ardor que Nair para os chocolates.

— Pegue um — disse Adelina à irmãzinha. — Mas só pode comer depois do almoço, hein? E não conte para a mamãe.

Nair esticou a mãozinha e, com os olhos brilhando, pegou com cuidado a primeira barra de Buschie da pilha, enfiando-a rapidamente num bolso do vestido lilás.

— Obrigada! — disse ela, com sua voz fina. E, depois, virando-se para Anselmo, acrescentou: — Mano, você me prometeu que íamos ao Salto! Está muito quente hoje, um calor terrível.

Adelina e Anselmo riram. Ele virou-se para a garotinha e respondeu:

— Mande os meninos aprontarem as coisas, vamos tomar banho de rio e pescar.

Nair não conteve um gritinho.

— Mas só depois do almoço, meu anjo... Agora, eu tenho um ou dois afazeres que papai me pediu para resolver. Vou até a estrebaria para que me selem um cavalo.

Adelina viu o irmão sair pela porta da frente da venda, lançando um rápido olhar à rua de chão batido e ao casario; depois, aproveitando a sombra da grande araucária que ficava ao lado do armazém, Anselmo cruzou o caminho para os fundos do terreno, no rumo da estrebaria, onde seu Donato deveria estar cuidando dos cavalos e burros de carga.

— Vá dar as ordens de Anselmo aos meninos — disse Adelina, com doçura, pois adorava a irmã caçula. — Depois pegue um livro para ler. Almoçaremos cedo hoje, não se preocupe. E, Nair, hoje à noite temos novena. Mamãe quer todos prontos para irmos à igreja. Vocês precisam voltar cedo do Salto.

Nair escutou as palavras da irmã com um leve dar de ombros. Gostava das novenas, mas preferia ficar no Salto com Anselmo até tarde. Porém, não era boba. Tinha medo das brabezas do pai e das admoestações da mãe.

— Se Anselmo vai à novena, eu também vou — ela respondeu com um meio sorriso.

— Vamos todos. Amanhã Anselmo tem que voltar pro Rio de Janeiro. A mamãe quer todos rezando juntos.

— Está bem — disse a menina, um pouco triste.

Não queria que o irmão fosse embora nunca mais. Odiava o Rio de Janeiro. Enfiando a mãozinha no bolso do vestido onde guardava seu pequeno tesouro, cruzou a venda e entrou na casa silenciosamente, como se o dia tivesse perdido um pouquinho do seu brilho de verão.

O mundo inteiro segurava a respiração naquele 1944. A guerra devastava a Europa havia já quase cinco anos, mas a hora da virada chegara. O Eixo começava a perder a força, enquanto os Aliados iam ficando gradativamente mais fortes. Fazia alguns meses que o general americano Eisenhower fora nomeado Comandante Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas, e havia uma grande concentração de soldados sendo treinados para uma manobra gigantesca e secreta.

Esse não era um assunto que corresse à boca solta, e Anselmo só tinha conhecimento de tais boatos porque no quartel onde fazia o CPOR se falava disso dia e noite. Os brasileiros finalmente haviam decidido mandar suas tropas para a guerra. Anselmo Hess colocara seu nome entre os voluntários para a luta e não comentara nada disso com seus pais. Sabia que Verônica teria uma crise emocional e que Leopoldo, sempre quieto, o recriminaria com algumas poucas palavras, dizendo que a juventude era irresponsável, pensando sempre em glória e aventura.

Anselmo cruzou o terreno e entrou na estrebaria, onde a sombra fresca tinha cheiro de feno e de fezes, um cheiro animal e revigorante que ele conhecia tão bem. No fundo do lugar, seu Donato acabava de selar um baio. Era o cavalo que Anselmo costumava usar. Tinha que ir dar uns recados e buscar uma encomenda para o pai. Mas a guerra não lhe saía da cabeça. Escondido em Luís Alves, sentia-se afastado das coisas do mundo. No entanto, até mesmo ali, na pacata cidadezinha encravada no Vale do Itajaí, a guerra fazia seus estragos. Sabia que um colono que fora pego falando alemão em público vira-se obrigado por alguns patriotas furiosos a beber óleo quente. E que um velho tinha levado uma coça de um grupo de meninos, também por falar alemão com a nora na igreja. Seu próprio pai chegara a ser detido, acusado por um tal de Gil Teles de ouvir rádios alemãs durante a noite, e de ser, portanto, um espião de Hitler. Aquelas mentiras doíam-lhe. O pai ficara um dia inteiro na delegacia até explicar que carregava seu rádio com o gerador movido a água – ele canalizara a água do rio que passava atrás da propriedade – apenas para ouvir um pouco de música clássica depois do jantar.

Ele era filho de alemães e crescera com os pais falando a língua natal da família. Agora, evitavam qualquer comentário a esse respeito, mantendo uma discrição quase envergonhada. No Rio de Janeiro, porém, entre os seus no Exército, Anselmo era visto como um homem corajoso, de capacidades reconhecidas pelos superiores.

Seu Donato aproximou-se, arrastando levemente a perna direita e, com um sorriso na boca onde dançava um cigarro de palha, falou:

— Está prontinho o animal, seu Anselmo. — E, olhando o céu, disse numa voz mansa: — O calor hoje vai ser brabo.

Anselmo agradeceu-lhe. Conhecia o velho desde sempre, seu Donato trabalhava para o pai havia muitos anos. Em Luís Alves, todos se conheciam. As casas não passavam de três dezenas, e todos os moradores, da Sede ao Salto, sabiam uns dos outros. Havia as famílias que moravam nos braços do rio, estas eram mais distantes, desconhecidas da gente da cidade, mas vinham à venda do pai todo domingo, após a missa, para as compras da semana.

Anselmo montou no cavalo considerando a simplicidade daquilo tudo. As gentes dali não pensavam muito na guerra, nos milhares de mortos, nas batalhas furiosas na Europa e na Rússia. Evitavam, tão somente, falar alemão. E assim seguiam seus dias pacatos... Mas ele, ele tinha mudado. Agora, ficar em Luís Alves por muito tempo lhe trazia aquela inquietação, como se um fogo interior o cozinhasse lentamente. Claro, havia a família. Ele amava os irmãos pequenos, as três irmãs moças, os pais. Adorava brincar com a linda Nair, jogar bola com Ade e conversar com Adelina, que era sempre tão inteligente e pragmática a ponto de lhe parecer quase deslocada no contexto de Luís Alves; mas ele precisava voltar. Sentia saudades de Laís, a namorada que vivia no Cosme Velho. Porém, mais do que isso, queria lutar na Europa. Queria dar a sua contribuição ao mundo naquele momento crucial em que o bem e o mal lutavam tão furiosamente pelo domínio do futuro.

Montou no cavalo e, com a perna direita, cutucou levemente o animal, que saiu num trote suave, descendo o caminho que levava à rua principal. Ainda era cedo, não passava das oito horas da manhã, mas o sol era quente e brilhava num céu azul sem nuvens, recortado apenas pelos morros verdes, luzidios de vegetação. Seguindo pelo caminho que levava ao Braço Francês, chegaria à propriedade dos Tomaz, onde a encomenda do pai o esperava. Anselmo atiçou o cavalo e começou a cantar baixinho “Mamãe eu quero”, a marchinha de Carnaval que Carmen Miranda colocara na boca de todos.


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