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Uma “Energia de orgasmo” contra as nuvens: a inusitada ideia de Wilhelm Reich

Reich tinha certeza que poderia mudar as condições climáticas com o "orgone"; curiosamente, o cliente saiu feliz

Lucas Vasconcellos Publicado em 29/07/2020, às 08h00

O curioso cloudbuster
O curioso cloudbuster - Wikimedia Commons

Era 6 de julho de 1953 quando Wilhelm Reich recebeu uma visita. Dois produtores de mirtilo que moravam no Maine (EUA) questionaram se o cientista poderia acabar com a longa seca que destruía aos poucos as colheitas. Reich deveria fazer chover e, caso fosse bem-sucedido, seria recompensado.

Eram os primeiros (e únicos) clientes para o cloudbuster (algo como “detonador de nuvens”), um aparelho parecido com um canhão antiaéreo, composto de canos paralelos ligados a mangueiras que davam num reservatório de água.

O canhão, prometia Reich, seria capaz de disparar contra os céus a energia orgone, força cósmica com o nome inspirado no orgasmo, manifestação máxima dela. Às 10h da manhã, o inventor e sua equipe, instalados perto do lago de uma hidroelétrica, começaram a apontar a misteriosa “arma” para os céus.

Nascido na Áustria-Hungria, Reich começara como psicanalista, discípulo de Freud. Ele acabaria desenvolvendo a ideia psicanalítica da libido, a metafórica energia sexual, numa literal energia, tão física quanto o eletromagnetismo. Em 1930, Reich começou os estudos sobre o que chamou de “energia orgônica”.

A ideia é de que existe energia vital distribuída por todo o Cosmo (incluindo a atmosfera) que se acumula no corpo humano – e é liberada, explosivamente, no orgasmo. O tratamento para as neuroses seria acumular orgone no consultório e liberar em casa.

Reich fugiu para os EUA em 1939, quando Hitler anexou a Áustria. Lá, ele apresentou suas ideias a Albert Einstein, que aceitou testemunhar seus experimentos. Saiu convencido que não vira nada de novo. Em 1940, o cientista construiu o primeiro “acumulador de orgone”, uma caixa de seis lados constituída de camadas alternadas de metal e de materiais orgânicos, como a madeira.

Isso captaria o orgone da atmosfera e transmitira para o paciente. Tinha até um alerta: “Aviso – o uso indevido do acumulador de orgônio pode levar a sintomas de overdose de orgone. Deixe as proximidades do acumulador e chame o médico imediatamente!”.

Uma energia cósmica tão poderosa não poderia se limitar ao corpo humano: Reich também viu no orgone uma possibilidade de manipular os efeitos climáticos – fazendo o oposto do acumulador, mandando orgone para a atmosfera. O canhão produziria um poderoso campo de energia e ajudaria a formar ou dissipar as nuvens.

Voltando ao Maine, do topo de sua caminhonete, a equipe “reconfigurou” as nuvens por uma hora e dez minutos. No fim da tarde e no dia seguinte, os agricultores foram surpreendidos com chuva. Os mirtilos foram salvos.

Pouca gente se convenceu de que foi mais que coincidência. Em 1956, Reich foi julgado por violar a ordem de não comercializar suas máquinas, do fim da década de 40. Ou seja, como sendo um charlatão. Morreria em 1957, por insuficiência cardíaca, na prisão. Seus seguidores o veem como um mártir.