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Projeto Montauk: o suposto programa militar americano que inspirou Stranger Things

Teoria conspiratória é conhecida por envolver diversas maluquices, como viagem no tempo, teletransporte, controle da mente e até mesmo o contato com seres de outra dimensão

Fabio Previdelli Publicado em 07/12/2019, às 08h00

Millie Bobby Brown no papel de Eleven, em Stranger Things
Millie Bobby Brown no papel de Eleven, em Stranger Things - Divulgação/ Netflix

Talvez o Projeto Montauk seja o ápice das teorias conspiratórias por envolver as mais diversas maluquices como viagem no tempo, teletransporte, controle da mente e até mesmo o contato com seres de outra dimensão.

No entanto, apesar do Projeto ser um dos grandes influenciadores por trás da narrativa de Stranger Things, ele ainda é pouco comentado ou teorizado como a Área 51 e o assassinato de JKF

Mas como uma teoria que alega que elementos sombrios das forças armadas americanas transformaram uma instalação militar, nos confins de Long Island, em um centro de pesquisas ilícitas, e de vanguarda paranormal, permanece intacto nesse ressurgimento de pensamentos conspiratórios?

Base da Força Aérea de Montauk / Crédito: Wikimedia Commons

 

Pode-se argumentar que suas origens, um tanto quanto duvidosas, limitaram o alcance da história, mas ainda assim existem elementos que podem ser explorados e debatidos.

A narrativa do Projeto Montauk passou a ser comentada em meados de 1992 com a publicação do livro The Montauk Project: Experiments In Time, de Preston B. Nichols. No entanto, em 1980, haviam alguns rumores apontando que alguns militares americanos, que eram obcecados pela Guerra Fria, estavam realizando experimentos em uma guerra psicológica no extremo leste de Long Island. Assim, podemos dizer que o livro de Nichols só jogou lenha em uma fogueira que já estava acessa.

Dizia-se que tanto o Camp Hero quanto a Estação da Força Aérea de Montauk foram os centros dessa pesquisa paranormal e o livro de Nichols pinta todo esse cenário como uma grande obra de ficção científica da vida real.

Laboratório de Montauk / Crédito: Wikimedia Commons

 

O autor relata que escreveu o livro depois de “recuperar” as memórias do seu tempo como pesquisador do Projeto e, assim, conseguiu contar de uma maneira detalhada como era o interior das instalações, os procedimentos, a tecnologia avançada e os inúmeros incidentes paranormais que ele afirma ter testemunhado.

Após a publicação do livro, outras pessoas surgiram e se manifestaram alegando que elas também tinham conhecimento das pesquisas ilícitas que eram conduzidas no local, iniciando o chamado de “processo de reforço circular” - o mecanismo essencial de qualquer teoria conspiratória que se preze.

As alegações descritas em The Montauk Project são complexas: experimentos de controle mental e telepatia; abertura de portais espaço-temporais para outras dimensões; contato com vida de seres de outra dimensão e até mesmo o sequestro de crianças.

Preston B. Nichols durante entrevista / Crédito: Reprodução

 

O que mais impressiona é que todas essas atividades estariam sob a autoridade de um programa militar americano não sancionado que seria financiado com o ouro nazista que foi recuperado durante a Segunda Guerra Mundial.

A história do Projeto Montauk se entrelaça com outra antiga teoria conspiratória que é conhecida como Experimento da Filadélfia, que teria acontecido em 1943. De acordo com a suposição, os militares norte-americanos estavam em busca de maneiras de escapar de um radar nazista durante a Segunda Guerra usando campos eletromagnéticos.

Em um estaleiro naval na Filadélfia, Pensilvânia, entre o outono e o verão daquele ano, as várias versões da história dizem que o USS Eldridge não ficou invisível apenas ao radar, como também ficou completamente invisível a olho nu. Além disso, a embarcação teria sido transportada por um buraco no espaço-tempo para Norfolk, Virgínia, a mais de 300 quilômetros de distância dali.

Quando Eldridge reapareceu no estaleiro da Filadélfia, alguns minutos depois, diversos membros da tripulação haviam se fundido às anteparas do navio. Aqueles que escaparam ilesos teriam ficado loucos devido à desorientação que experimentaram enquanto o barco estava na chamada “bolha do hiperespaço”, que existia fora do espaço-tempo.

USS Eldridge / Crédito: Wikimedia Commons

 

Obviamente, há muitas coisas erradas nessa história e quase todos os detalhes dessa narrativa sofrem por inconsistência cronológica ou pela violação das leis estabelecidas da física. Além disso, as diversas reinterpretações do Experimento da Filadélfia nunca são iguais e as pessoas que realmente serviram no Eldridge em 1943 contestam essa história completamente.

Da experiência na Filadélfia ao Projeto Montauk

É aqui que o Projeto Montauk começa a ganhar vida. Em 1984, foi feito um filme de qualidade duvidosa sobre o Projeto Filadélfia — apropriadamente intitulado de The Philadelphia Experiment — que apresenta os pontos-chave desse suposto episódio controverso.

Em 1988, um homem de 58 anos, chamado de Al Bielek, assistiu a essa produção e teria passado por uma avassaladora sensação de Déjà Vu. Usando terapias e práticas alternativas, Bielek disse que conseguiu desbloquear um enorme espaço de lembranças reprimidas sobre seu extenso envolvimento não apenas no Experimento da Filadélfia, mas também em algo chamado de Projeto Montauk, onde os dois estariam entrelaçados.

Sugerindo que sua memória foi apagada pelo projeto MKULTRA da CIA, que visava garantir o sigilo do programa, ele afirmou que seu nome verdadeiro era Edward Cameron, e que ele e seu irmão Duncan eram membros da tripulação do Eldridge em 1943, quando tinham 20 anos.

Bielek contou sua história em uma audiência da Mutual UFO Network Conference, em 1990. Na ocasião, ele disse que não apenas o Experimento Filadélfia era real, mas que ele e seu irmão estavam a bordo do navio quando aconteceu.

Além do mais, Nikola Tesla teria sido o responsável pelo projeto do “equipamento” que causou a ruptura do Eldridge no espaço-tempo e até teria aberto um buraco de minhoca para o futuro, no qual teria levado os dois irmãos para o meio do Camp Hero de Montauk em 12 de agosto de 1983.

Um documento detalhando os experimentos de controle mental do MKULTRA / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em suma, o relato de Bielek diz que ele e Duncan teriam se juntado ao Projeto Montauk, que cresceu graças a pesquisa eletromagnética do Experimento da Filadélfia. Ele ainda afirma que fez amizade com Nichols na década de 1970 e que juntos eles desenvolveram a “Cadeira Montauk”, um dispositivo de leitura da mente que era um componente central de todo o projeto.

A cadeira de Montauk, a espionagem psíquica e os portais no tempo e no espaço

Nichols detalhou seu suposto trabalho sobre a Cadeira Montauk em seu livro, alegando que ele usava o eletromagnetismo para promover os poderes psíquicos de quem quer que estiver nela. Inclusive, ele diz que Duncan Cameron — em um golpe de estranha coincidência — passou a ter habilidades psíquicas substanciais, incluindo a capacidade de manifestar objetos com sua mente usando o dispositivo.

Isso pode parecer familiar para os fãs de Stranger Things, onde um dispositivo semelhante é usado pelo personagem Eleven para abrir um portal que levava a dimensão alternativa e paralela do chamado Mundo Invertido. No folclore do Projeto Montauk, Cameron e outros médiuns usariam a Cadeira Montauk para abrir portais da mesma forma, em busca dos vários objetivos que foram traçados pelo projeto.

Em seu livro, Nichols descreveu outro experimento que é curiosamente semelhante à visão remota, um conceito paranormal que foi realmente pesquisado pela CIA:

“O primeiro experimento foi chamado 'O Olho que Vê'. Com uma mecha do cabelo de uma pessoa ou outro objeto apropriado na mão, Duncan poderia se concentrar na pessoa e ser capaz de ver como se estivesse vendo através dos olhos dela, ouvindo através dos ouvidos e sentindo através do corpo. Ele podia ver através de outras pessoas em qualquer lugar do planeta”.

Das alegações de Nichols, a que diz respeito ao sequestro de crianças pequenas — algumas com menos de quatro anos — que seriam usadas nos vários experimentos do Projeto Montauk, é provavelmente a mais assustadora de todas.

Ele se refere a essas crianças como os “Montauk Booys”, que foram arrebatados da rua ou até mesmo de suas casas. Como ele mesmo diz, elas foram psicologicamente abaladas pelo Projeto Montauk, que a maioria esqueceria todo o seu tempo no Camp Hero pelo resto de suas vidas.

No entanto, um homem afirmou” recuperar” essas memórias traumáticas. Em entrevista ao periódico The Sun em 2017, Stewart Swerdlow, um homem de 52 anos que mora em Michigan, revela que ele era um dos Mountauk Boys e descreve como eram os abusos dos quais foi submetido,

“Quando os experimentos começaram, eles tinham como alvo meninos 'descartáveis', como órfãos, fugitivos ou filhos de viciados em drogas. O tipo de criança que ninguém realmente procuraria”, relatou.  “O objetivo era fraturar sua mente para que eles pudessem programar você ... eles mudavam a temperatura de muito quente para muito frio, morriam de fome e depois se alimentavam demais. Lembro-me de ter sido espancado com uma vara de madeira”.

“E eles adoraram segurar sua cabeça debaixo d'água até você quase se afogar. Isso foi eficaz - é provável que uma pessoa ouça e obedeça ao seu 'salvador'. Eles também usaram o LSD para colocar nossos cérebros em um estado alterado”.

A "Cadeira Montauk", descrita no livro de Preston B. Nichols, supostamente ampliava as habilidades psíquicas de uma pessoa, em Stranger Things esse elemento foi alterado para um traje / Crédito: Divulgação Netflix

 

Swerdlow acrescentou que ele também observou que o abuso sexual era usado como uma maneira de ruptura dessas crianças. Além do mais, ele diz ter sido enviado para Marte e de volta aos tempos bíblicos através das tecnologias espaço-temporais do Camp Hero.

"Nos primeiros dias, quando estavam aperfeiçoando as coordenadas, muitos meninos estavam simplesmente perdidos", disse ele. “Ainda hoje tenho pesadelos sobre isso. Eu não estava lá quando a Cadeira Montauk foi desligada, mas senti como se tivesse subitamente sido desconectado da eletricidade”.

Stranger Things

Nicholas afirma que qualquer pessoa que sentasse pela primeira vez na Cadeira de Montauk enxergaria uma tela de transmissão, posteriormente elementos sólidos ou invisíveis poderiam se manifestar nesse monitor.

O Projeto Montauk só teria acabado depois que Nichols e Duncan, juntamente com outros participantes, se rebelaram contra o projeto. “Finalmente decidimos que já tínhamos feito o suficiente pelo experimento”.

“O programa de contingência foi ativado por alguém que se aproximava de Duncan enquanto ele estava na cadeira. Então, ele ouviu um sussurrar: ‘A hora é agora’. Nesse momento, ele sentiu um monstro em seu subconsciente”.

“E o transmissor realmente retratou um monstro peludo. Era grande, peludo, faminto e desagradável. Mas ele não apareceu no subsolo ou em um ponto nulo. Ele se manifestou em algum lugar na base. Ele comeria qualquer coisa que pudesse encontrar. E esmagaria tudo à vista. Várias pessoas diferentes o viram, mas quase todo mundo o descreveu como um animal diferente."

Nichols disse que eles tinham que destruir todo o equipamento para remover a criatura da existência, enviá-la de volta à sua dimensão original ou algo nesse sentido. Esta é talvez a afirmação mais egoísta que ele faz em seu livro, mas foi claramente a inspiração para uma narrativa semelhante em Stranger Things, onde Eleven convoca uma criatura que também causa estragos.

De acordo com uma publicação do The Variety, os criadores da série, os irmãos Duffer, foram tão inspirados pelo Projeto Montauk que o título original do original da Netflix seria simplesmente Montauk.

Um dos grandes exemplos dessa referência pode ser visto no personagem do Doutor Brenner, que tortura abusivamente crianças pequenas como Eleven / Crédito: Divulgação Netflix

 

Depois que o cineasta Charlie Kessler entrou com uma ação contra os irmãos por supostamente plagiar seu curta-metragem, The Montauk Project, o cenário foi alterado de Long Island para os subúrbios de Indiana. Mas, independentemente da disputa criativa com Kessler, o programa da Netflix claramente se baseou fortemente no trabalho de Nichols.

Um dos grandes exemplos dessa referência pode ser visto no personagem do Doutor Brenner, que tortura abusivamente crianças pequenas como Eleven. Além de toda a história de criaturas de outras dimensões sendo transportadas para nosso plano real de existência, o que torna a série com uma adaptação muito fiel ao seu material referencial.

Havia alguma verdade no Projeto Montauk?

De acordo com Nichols, os níveis do porão do Camp Hero foram inundados com cimento quando todo o equipamento foi destruído e o projeto encerrado. Ele explica que qualquer pessoa envolvida no projeto teve suas memórias suprimidas usando as técnicas do MKULTRA.

As instalações desativadas de Camp Hero continuam de pé até hoje, assim como as estações do radar SAGE, que se tornaram um marco notável para os barcos que navegam ao redor da bifurcação de Long Island.

Uma entrada selada às supostas instalações subterrâneas de Camp Hero. Nichols afirmou que os pisos subterrâneos foram inundados com cimento quando o programa foi encerrado no início dos anos 80 / Crédito: Reprodução

 

Entretanto, os militares contestaram que algo como o Projeto Montauk tenha acontecido em Long Island. Embora a maioria dos habitantes locais considere a história uma invenção, eles não estão inteiramente convencidos de que possa haver um pinguinho de verdade em toda essa história.

"Sem dúvida, as histórias foram embelezadas", disse Paul Monte, presidente da Câmara de Comércio local, "mas não duvido que algumas coisas tenham acontecido por lá nos anos da Guerra Fria. Até hoje, a base é patrulhada e vigiada ... Eles obviamente não querem pessoas por perto”.


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