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Casal de exploradores brasileiros viveu de perto a experiência e costumes do Afeganistão sob a sombra do Talibã

Roy Rudnick e Michelle Weiss percorreram o país durante 16 dias - em um carro com placas brasileiras - e presenciaram os costumes e tradições dos moradores que vivem escondidos dos guerrilheiros

Leandro Lei Lima Publicado em 20/09/2021, às 18h55

Fotografia mostrando o casal com afegãos que conheceram durante viagem
Fotografia mostrando o casal com afegãos que conheceram durante viagem - Arquivo Pessoal

Residentes da cidade de São Bento do Sul, município ao Norte de Santa Catarina, o casal de viajantes brasileiros Roy Rudnick e Michelle Weiss formam a dupla que comanda o projeto ‘Mundo por Terra’, que resultou em 2 livros das 2 vezes em que deram a volta ao mundo, a bordo de um pequeno motorhome 4x4, cruzando 5 continentes, 103 países, 301.000 km, em 2.230 dias (6 anos e 2 meses) na soma das duas viagens. 

Exploradores experientes, os dois fazem parte da restrita lista de brasileiros que estiveram no Afeganistão a passeio. Mesmo sabendo dos riscos que poderiam correr, o casal aventureiro seguiu o roteiro e o desejo de conhecer a cultura dos habitantes locais em meio à ocupação dos militantes do grupo extremista Talibã.

Guerras não nos fascinam, muito pelo contrário, mas temos corações de viajantes – quanto mais vemos, mais queremos ver. Presenciamos um acontecimento, no país vizinho Paquistão, em 2008, em que aviões militares estavam indo bombardear o Afeganistão e aquilo despertou em nós uma curiosidade imensa em conhecer como era a vida no Afeganistão; como vivem seus habitantes em meio a tanta instabilidade e combates. Ficamos com o desejo de ver de perto o dia a dia dessas pessoas, onde e como moram, do que vivem e, especialmente, como é a vida das crianças”, descreve Roy Rudnick, em trecho do livro “Mundo por Terra – Onde terminam as estradas”, o segundo livro escrito pelo casal.

Roy Rudnick com afegãos que conheceu durante a viagem / Crédito: Arquivo Pessoal

 

Nesse período, a capital Cabul e outras cidades importantes estavam “protegidas” pela força do governo, porém muitos acessos entre elas, as estradas que ligam umas às outras, estavam tomadas pelos Talibãs. Estrangeiros eram frequentemente alvos de sequestros e atentados, pois são verdadeiros trunfos em suas mãos.

Um embaixador afegão revelou a um amigo viajante que havia mais de cem estrangeiros mantidos em cativeiro naquele momento. Também lemos o depoimento de um talibã na internet dizendo que se estrangeiros fossem ao Afeganistão era melhor que chegassem muito bem escoltados", destacou Roy.

Quando os portões da fronteira do Afeganistão abriram-se para Roy e Michelle, nas proximidades da cidade Ishkashim, segundo eles, a emoção se confundiu com a razão. Apesar de esse ser um de seus grandes sonhos, não podiam negar que estavam entrando em um dos países mais misteriosos da atualidade. Sabendo das condições de segurança, estavam angustiados.

E bastou cruzar a fronteira para tudo mudar. Havia muitos homens pelas ruas e as poucas mulheres que circulavam na pequena cidade, cobriam-se por completo com burcas azuis com um véu em frente aos olhos para que nada delas aparecesse em público. 

De Ishkashim seguiram com seu veículo com placas brasileiras por uma das piores estradas que já dirigiram. Para se ter uma ideia, para rodar 210 quilômetros levaram dois dias e meio O lugar é um braço de terra situado no nordeste do país, que se estende por 350 quilômetros até a China, tendo ao norte o Tadjiquistão e ao sul o Paquistão, conhecido como Corredor de Wakhan – criado no final do século XIX pelo Império Britânico para impedir a Rússia de chegar à Índia durante o Grande Jogo e considerado uma das regiões mais isoladas do planeta. 

Michelle / Crédito: Arquivo Pessoal

 

No corredor, Roy e Michelle conseguiram presenciar os costumes e tradições do povo local, que vive distante dos Talibãs. “Os encontros que tínhamos com os locais pelo caminho colaboravam para manter o nosso ritmo lento, pois ao acenar para alguém recebíamos de volta um sorriso tão sincero que nos comovia. Percebíamos que os acenos vinham do coração, de pessoas de uma pureza e inocência sem igual”, descreve Roy.

 As mulheres que vivem no campo não se cobrem com burcas como as da cidade, pois pertencem a uma etnia diferente – os chamados wakhi. Usam lenços para cobrir as cabeças e se vestem da forma tradicional abusando das cores e adornos compondo imagens bonitas e elegantes. Mesmo com as peles ressecadas e surradas pelo sol, ar seco, frio das altitudes e falta de produtos para os cuidados corporais, os afegãos são um povo bonito.

Seus traços são fortes, selvagens, rústicos e, ao mesmo tempo, de uma delicadeza que impressiona o visitante no primeiro encontro. Uma grande parte das pessoas possui olhos verde oliva intensos e marcantes. Dos países que visitaram, afirma Michelle, nenhum apresenta um povo com olhos tão penetrantes. “A cor verde predomina, mas existem também alguns com olhos azuis claros”, diz.

 Como na região o serviço médico é escasso, cada vez que paravam o carro, alguém vinha pedir remédios. Mas, segundo eles, algumas ONGs trabalhavam para melhorar o padrão da vida local e havia muitas escolas ao longo caminho. O Ministério de Relações Exteriores da Noruega aproveitou alguns anos de estabilidade política na região (antes de 2008) e ajudou a desenvolver melhorias na infraestrutura para o turismo.

Foram criadas pousadas e restaurantes, mas, com o reaparecimento dos talibãs, os turistas sumiram e toda a estrutura ficou subutilizada. No ano em que estiveram lá, em 2016, o Vale Wakhan recebeu apenas cem estrangeiros e no ano anterior, metade disso. 

Sarhad é a última vila do vale e demarca o término da estrada. O cenário de lá é maravilhoso: casas de barro, mulheres trabalhando em tarefas rotineiras, homens conduzindo animais de carga e compenetrados nas suas plantações. Tudo acontece ao mesmo tempo em meio a uma belíssima luz que reflete no vale e rebate no alto das montanhas que chegam a 7 mil metros de altitude. 

As crianças corriam com brinquedos improvisados, como aros de arame e pequenas rodas. Uma menina pequena que usava um lenço vermelho na cabeça quase cobrindo seus olhos calçava um sapato diferente do outro. Seu rosto, manchado de sujeira, deixava evidente que banho não fazia parte do dia a dia”, conta Roy. 

Mas a viagem de Roy e Michelle pelo Afeganistão não se resumiu a uma viagem de carro. Pela estrada ter terminado em Sarhad, os dois seguiram a pé, acompanhados por um afegão local e mais dois burrinhos para carregar sua carga, por 160 quilômetros nas montanhas Hindu Kush, a parte ocidental do Himalaia e lá, voltaram no tempo tendo a oportunidade de se deparar com caravanas de iaques, os bois da montanha, que transportavam suprimentos às comunidades wakhis e quirguizes que vivem isolados próximos ao Lago Chaqmaqtin, a mais de 4 mil metros de altitude. As caravanas da Rota da Seda deviam ser assim, alias, elas não passavam longe dali. 

Além das histórias sobre as diferenças culturais dos povos, as burocracias nas fronteiras, as amizades, os problemas mecânicos, a comunicação, o casal carrega na bagagem experiências inesquecíveis vivenciadas na passagem pelo Afeganistão, como o convívio feminino neste mundo islâmico. 

Viajar por este mundo predominantemente masculino é difícil sob o ponto de vista de uma mulher. Lá elas não são nada, não têm direitos. Ficam em casa, trancadas, quase sem nenhum contato com o mundo externo. A lei masculina diz que devem ser preservadas. Seus maridos defendem o costume, dizendo que isso acontece porque as admiram, porque as respeitam, mas, em minha opinião, é bem ao contrário. Se elas fossem respeitadas, não precisariam se esconder para não serem assediadas”, completa Michelle Weiss, que teve o contato com o mundo islâmico não apenas no Afeganistão, mas em outros países do Oriente Médio durante suas viagens, como Paquistão, Ira e Turquia. 

Roy e Michelle queriam, apenas, conhecer a cultura dos habitantes locais e entender como era viver tão próximos ao Talibã, que surgiu com objetivo de restaurar a paz e a segurança em um Afeganistão marcado pela guerra civil, mas, durante 20 anos, suas ações foram pautadas na recuperação do território e em expulsar os Estados Unidos e a OTAN do país, desde a ocupação em 2001. 

Sobre o casal

Casal apreciando paisagem / Crédito: Arquivo Pessoal

 

 Roy é administrador, Michelle é arquiteta, mas a partir de certo momento em suas vidas, quando o trabalho entre quatro paredes não lhes proporcionava mais tanta satisfação, criaram coragem e largaram a vida trivial. Decidiram procurar no mundo as suas verdadeiras paixões e partiram para sua primeira viagem de volta ao mundo de carro.

Os três anos fora de casa (2007, 2008 e 2009) lhes mostraram tantas belezas, proporcionaram tantas vivências e experiências, que o casal encontrou prazer em escrever e fotografar. Uma simples decisão – viajar o mundo – mudou suas vidas por completo. De administrador e estudante de arquitetura transformaram-se em viajantes, fotógrafos, escritores e palestrantes.

Contaminados com a verdadeira sensação de liberdade que tiveram em sua primeira viagem, não demorou para que pusessem o pé na estrada novamente para realizar sua segunda expedição de volta ao mundo de carro intitulada Mundo por Terra – Latitude 70º, com o objetivo de atingir de carro três pontos no globo acima da Latitude 70º Norte. Para se ter ideia do tamanho desta aventura, a mesma latitude visualizada no Hemisfério Sul abrange a Antártica. Roy e Michelle partiram para esta segunda viagem em 2014 e voltaram ao Brasil final de 2017 com muito mais para compartilhar.