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Fóssil de 100 milhões de anos sem braços dá pistas sobre evolução das cobras

Descoberta feita em Illinois, nos EUA, revelou animal com corpo parecido ao de serpente, mas com par de pernas traseiras totalmente formadas

Isabela Barreiros Publicado em 29/03/2022, às 10h44

Representação artística da Nagini mazonense
Representação artística da Nagini mazonense - Divulgação/Henry Sutherland Sharpe

Um fóssil de 100 milhões de anos encontrado em um terreno de Illinois, nos Estados Unidos, pode ajudar cientistas a entenderem a evolução das cobras e outros vertebrados, indicando que eles desenvolveram pernas, mas as perderam com o tempo.

Encontrado pelo paleontólogo Arjan Mann e sua equipe de pesquisadores do Museu de História Natural Smithsonian, em Washington, o animal pré-histórico foi revelado preservado em rochas e batizado de Nagini mazonense, fazendo parte do grupo dos molgófidos.

Segundo o estudo, publicado no periódico científico Nature Ecology & Evolution, o N. mazonense podia chegar a 10 centímetros de comprimento, com um corpo parecido com o de uma cobra e sem cintura escapular, estrutura óssea que apoia a fixação dos membros.

A pesquisa também descreve a criatura com um focinho arredondado e corpo comprido, apresentando cerca de 85 vértebras e costelas. Mas o mais interessante é que o animal possuía um par de pernas traseiras pequenas com quatro dedos em cada pé.

Os membros eram totalmente formados e, segundo Arjan Mann, não há evidências de que havia tecido mole no local onde poderiam existir membros anteriores no animal. A forma da serpente teria vindo a partir de uma transformação iniciada há 308 milhões de anos em alguns vertebrados terrestres.

"Eles estão se apoiando na locomoção baseada no corpo, como o movimento lateral comum entre seres rastejantes como as cobras, e não dependem mais da locomoção impulsionada pelos membros", ressaltou o especialista.

Como reportou o UOL, Rolf Zeller, pesquisador da Universidade de Basel, na Suíça, considerou a descoberta importante por revelar a complexidade do processo evolutivo das serpentes. Segundo ele, “embriões de cobras, como pítons, ainda formam brotos de membros posteriores que desaparecem durante o desenvolvimento".

"A descoberta de um antigo fóssil semelhante a uma cobra sem membros anteriores, mas mantendo os membros posteriores, é um achado fantástico, porque revela a existência de formas transicionais antes da perda completa dos membros durante a evolução", afirmou.

Zeller explicou ainda como as cobras que conhecemos hoje evoluíram a partir da perda dos seus membros superiores e cintura peitoral há pelo menos 170 milhões de anos.

Ainda assim, para Mann, a N. mazonense não é ancestral direto das cobras modernas, assim como outros animais da mesma espécie e gênero. "Eles são uma espécie de linhagem experimental inicial de répteis", apontou.