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Fotógrafo brasileiro narra experiência no Afeganistão: 'Deixei a barba crescer para não ser alvo'

Aos 25 anos, Luca Bassani visitou o país pouco antes dele ser tomado pelo Talibã e já se surpreendeu com a realidade do lugar

Pamela Malva Publicado em 17/08/2021, às 16h00

Fotografia do fotógrafo Luca Coser Bassani
Fotografia do fotógrafo Luca Coser Bassani - Divulgação/ Arquivo pessoal/ Luca Coser Bassani

No último domingo, 15, o Talibã assumiu o controle do Afeganistão ao tomar a capital, Cabul. Um mês antes, ao acompanhar a movimentação do grupo no país, o fotógrafo brasileiro Luca Coser Bassani, de 25 anos, decidiu visitar a região borbulhante.

Em entrevista ao UOL, o homem narrou os detalhes de sua viagem para o Afeganistão, bem como os cuidados que teve de tomar para visitar o território. Nesse sentido, ele narra que tudo começou em abril deste ano, quando o presidente Joe Biden anunciou que iria retirar as tropas norte-americanas do território até 11 de setembro.

Com isso, o fotógrafo decidiu que era a hora de visitar o país. “O Talibã já estava ganhando espaço em províncias que antes eram do governo”, narrou o jovem brasileiro. “Com o anúncio de Biden, sabia que o grupo iria voltar ao poder. E que poderia ser a minha última chance de conhecer o país antes de um cenário de guerra."

Logo em seguida, então, Luca foi até o consulado afegão na Alemanha. Por lá, após comprovar sua experiência em 90 países e seu conhecimento sobre a realidade do Afeganistão, o fotógrafo conseguiu uma autorização para visitar o país, em maio.

"Eles não autorizam viagens para pessoas mais inexperientes porque não é um país fácil de visitar. Não querem que um turista vá lá e morra A região é instável, com muitas guerras", explicou. Foi assim que os planejamentos para a viagem começaram.

Muito antes de pousar no Afeganistão, Luca já tomou diversos cuidados, alugando um quarto em um hotel pouco frequentado por turistas, por exemplo. E, além de comprar roupas afegãs, o fotógrafo ainda mudou sua aparência para não parecer estrangeiro.

Deixei a barba crescer para não ser alvo de talebans”, narrou o jovem, ainda em entrevista. “Homem sem pelo facial é identificado como estrangeiro. São pequenos detalhes que fazem parte do processo de segurança em uma viagem para lá.”

A realidade chocante

Uma vez em território afegão, Luca surpreendeu-se com o contexto que encontrou. “É preciso observar o seu entorno, observar se não está sendo seguido”, narrou, ainda ao UOL. “Às vezes, pela roupa ou até pelo jeito de andar, eles [talebans] percebem que você não é daqui. E você pode se tornar alvo", revelou o jovem.

O maior choque, no entanto, veio quando o fotógrafo compreendeu o que aconteceria com as mulheres. "Com a interpretação radical do islã, as mulheres não podem mais ter acesso à educação formal, ter amigas ou sair de casa sem acompanhante masculino. Elas serão obrigadas a servir ao marido e a executar apenas tarefas domésticas", contou.

As mulheres não podem ler, ver TV ou escutar rádio", narrou. “São mulheres que tiveram uma certa liberdade. E, agora, vão ser obrigadas a abrir mão disso. Muitas meninas estão sendo levadas à força das casas para casar forçadamente com membros do Talibã.”

“É estupro e rapto em um governo sem reconhecimento internacional”, lamentou o jovem brasileiro. “Sem esse reconhecimento, o país será isolado, o que pode gerar uma crise de abastecimento de alimentos e de energia elétrica.”

Mesmo tendo deixado o Afeganistão em 4 de julho, Luca continuou falando com três afegãos que o ajudaram na viagem. Por mensagens, eles dizem sentir-se abandonados pelo governo. “O cenário é sobreviver um dia de cada vez. Vai ser um governo na base do medo”, analisou o fotógrafo brasileiro, que saiu do país pouco antes do controle Talibã.

Nesse sentido, até mesmo Antonio Guterres, o secretário-geral da ONU, disse estar “particularmente preocupado com os relatos de crescentes violações dos direitos humanos contra mulheres e meninas no Afeganistão". "Estamos recebendo relatos assustadores de severas restrições aos direitos humanos em todo o país”, narrou.

Para Luca Bassani, entretanto, uma das questões mais preocupantes no atual Afeganistão é com relação à educação dos jovens do país. "As escolas precisam passar pelo crivo do Talibã. Não há futuro para a educação no país", lamentou.