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Golpe de 64: “O último dia da inocência” retrata a recente história do Brasil

No livro que será lançado nesta quinta, Edney Silvestre traz a público uma história fictícia permeada por acontecimentos reais. Para o autor, a atmosfera atual do país é "um espelho deformado dos tempos conturbados que agitavam o Brasil em março de 1964"

Joseane Pereira Publicado em 13/08/2019, às 15h00

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Reprodução

Reconstruindo o ambiente político brasileiro de 1964, O Último Dia da Inocência retrata as tensões de um jovem jornalista que se vê testemunha de um assassinato. Inteiramente passado em 13 de março de 1964, o livro, escrito por Edney Silvestre, mistura personagens e situações reais a criações fictícias.

A reconstrução do ambiente político é importante para que a história seja contada. Em meio a um comício de João Goulart na Central do Brasil, o jornalista - cujo nome não é contado - busca em diversos pontos da cidade por alguém que possa inocentá-lo de um crime do qual ele não se recorda. Junto a essa tensão, o autor reconstrói a geografia da cidade do Rio de Janeiro.

Livro O Último Dia da Inocência / Crédito: Editora Record

 

Publicado pela Editora Record, a obra é uma viagem ao recente passado brasileiro, tão turbulento quanto nosso presente. A história do jovem repórter, assim, se mescla com personagens reais como Juscelino Kubistchek, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Jango e Carlos Lacerda, e histórias reais como o suicídio de Vargas, o Comício da Central e o incêndio da boate Vogue.

A obra será lançada nesta quinta-feira, 15 de agosto. Confira abaixo uma entrevista com o autor:

1. O que existe de Edney nesse protagonista jovem que sonha em ser jornalista? Você também foi um jovem sonhador vindo do interior e trabalhando num jornal carioca?

Quando me mudei de Valença, no interior do Estado, para o Rio de Janeiro, aos 16 anos – 3 a menos que meu personagem-narrador – fui morar num quarto de empregada no bairro do Catumbi, o mesmo bairro onde o narrador mora, numa vaga de pensão. O quarto em que eu vivia era pouco mais do que um armário e a única janela, basculante, pequena, não basculhava.

Fazia um calor dos infernos, lá dentro. Naquela época pensei: se a lei permitisse, os cariocas pendurariam suas babás e empregadas, como uma vassoura ou um rodo. Me lembrei disso ao escrever o capitulo “Soraya”, quando o foca acorda, drogado e atônito. Esse é um dos meus pontos de contato com ele. Há outros. A visita à redação do Correio da Manhã, por exemplo, eu também fiz.

Mas ainda era secundarista à época. Conheci ali duas pessoas que admirava e continuo a admirar: Carlos Heitor Cony e Otto Maria Carpeaux. Mas “O último dia da inocência” não é auto ficção, nem autobiografia disfarçada. Os elementos da vida real apenas me ajudam a ancorar minha ficção na realidade.

2. Por que você escolheu escrever esta história? Por que esse personagem de início tão frágil e ingênuo? De que forma ele se insere na sua trajetória de romancista?

Desde “Se eu fechar os olhos agora” a influência da História sobre nossas vidas pessoais me interessa. Não seria possível compreender o assassinato de Anita sem buscar as raízes no escravagismo que fez a riqueza do Vale do Café, nem entender o percurso de Ubiratan sem retornar às torturas da ditadura de Vargas, ou à euforia desenvolvimentista da Era JK.

Assim também utilizei o pano de fundo das Diretas Já e do sequestro da poupança do governo de Fernando Collor para cercar a trama do sequestro de um menino inocente e mudo em A felicidade é fácil. Falei dos expatriados pela crise econômica e dos exilados pela ditadura militar através do percurso de Paulo e Barbara, em Vidas provisórias.

O narrador de O último dia da inocência é como nós, como todos os brasileiros, tocado ingenuamente para cima e para baixo, seduzido por políticos populistas, servindo aos interesses dos mesmos grupos poderosos que comandam o Brasil desde que o início da república – e mesmo antes.

Precisamos, mais que nunca, falar do Brasil, de nossa história, de nossos desamparados e de nossa elite.

3. Não é a primeira vez que você mistura ficção e realidade. O que te atrai nessa mescla? 

Somos o resultado do que os governantes – esquerda, direita, centro, mandantes equilibrados ou dementes – querem que sejamos. Quanto mais falarmos de nossa realidade, mais chance teremos de transformá-la. É nossa chance. E tem demorado tanto.

4. Em que fontes históricas você bebeu para reconstruir esse dia tão específico da nossa História, o Comício da Central do Brasil em 13 de março de 1964?

Cite aí um livro, um artigo, um cinejornal, um documentário sobre aqueles tempos: dificilmente eu não vi, não li, não consultei. Estou exagerando, claro, há muito mais do que eu poderia estudar ou ter acesso. Mas o fato é que há mais de uma década eu venho pesquisando e estudando esses tempos, especialmente do Estado Novo para cá, passando pela II Guerra Mundial, o governo de Juscelino, a maluquice do Jânio Quadros, a inabilidade do Jango, os anos de ditadura militar, o caos dos anos de José Sarney e Collor, a hiperinflação, a esperança – ilusória ou não – representada pela eleição de Fernando Henrique e Lula, os tropeções de Dilma Roussef, a dança de dervixe de Temer e a avalanche Bolsonaro.

O que mudou para a elite em meio a tudo isso? Nada. O comício de 13 de março de 1964 era a concretização de uma real ameaça para o status quo (nunca pensei que voltaria a usar essa palavra).  A situação do comício da Central me fascina: o caos, as promessas, as possibilidades, tudo já encaminhado para um grande fracasso.

E quem melhor para espelhar essa metáfora da ruína programada, se não um jovem que não se interessa por política, não acredita nos políticos, nem acha que o comício terá a menor influência na vida dele? Como ele diz, em certo momento, à personagem Lilian Hagger.

5. Quando narra a cena do palanque no Comício da Central do Brasil, você cita situações muito específicas daquele evento. Há quase uma intimidade com os personagens reais. Como você construiu isso?

Pesquisa, pesquisa, pesquisa: tudo o que cito sobre a movimentação no palanque está documentado em fotos, filmes, livros, revistas, jornais. Com exceção de um personagem-chave naquele capítulo, além do narrador, evidentemente. Até a saída de Tancredo Neves do palanque, ofendido por Leonel Brizola, é baseado em pesquisa. Assim como a extraordinária beleza da primeira-dama, Maria Thereza Goulart, quase vinte anos mais nova do que o presidente. Ah, a roupa que ela usa é, integralmente, retirada da pesquisa.

6. Todas as histórias dos seus personagens podem ser reais, ou não. Você mesmo não se angustia com as possibilidades de quem eles podem ser? Cada um deles?

Alguns dos personagens importantes existiram na realidade: Cony, Carpeaux, Tancredo, Brizola, Jango, Vargas, o Barão Stuckart. Outros – como o narrador, Lilian Hagger, Toni Amarantes – são fruto de criação ficcional. Um dos bairros onde a ação se passa é inventado sobre uma área do subúrbio que existiu e acabou desaparecendo com a construção de viadutos e pistas para facilitar o trânsito.

9. O que tem de verdade na história do incêndio da Boate Vogue?

Tudo. Menos um dos mortos. Segundo os relatos de época, a tragédia daquele domingo de agosto de 1955 se deu exatamente como eu descrevo em “O último dia da inocência”, com todos os sombrios absurdos que levaram aquelas pessoas a mortes horríveis. A frequência da Vogue era a mistura de granfinos e espertalhões, mulheres refinadas e ambiciosas profissionais do amor, cantoras e compositores, vedetes, políticos e seus aduladores, herdeiros ociosos e herdeiros falidos, artistas, jornalistas, escroques e todo tipo de gente da noite da então capital da república.  Inclusive algumas das Dez Mais Elegantes, citadas no capítulo.

10. A história envolve uma conspiração para matar um presidente. Não é uma história muito irreal?

Havia milícias sendo treinadas para enfrentar eventuais forças legalistas, havia uma frota americana no Caribe, chamada de Operação Brother Sam, pronta para desembarcar marines em nossa costa, entre outras armações para derrubar Goulart. Pelo menos um plano para assassiná-lo estava em curso. Ia acontecer em Belo Horizonte, com lançamento de granadas sobre o palanque onde Jango discursaria, assim como dois atiradores de elite que disparariam nele, enquanto outros dois, com metralhadoras, fariam o mesmo, avançando no meio da multidão.

O grupo se autodenominava Novos inconfidentes e era comandado por um militar, o coronel José Lopes Bragança, conforme conta a historiadora e cientista política Heloisa Starling no livro Os Senhores das Gerais - Os Novos Inconfidentes e o Golpe de 1964 (Ed. Vozes, 1986). O assassinato de Jango só não aconteceu porque estava marcado para 21 de abril e Goulart foi derrubado 20 dias antes, por outros militares.

11. De todos os personagens reais envolvidos na sua história, um se destaca. Parece mais real, talvez por ser mais frágil em meio a tantos homens poderosos: a primeira dama Maria Tereza Goulart. Por que?

Maria Thereza Goulart era muito jovem, tinha apenas 23 anos e estava no meio de todo esse redemoinho, acompanhando o marido e pai de seus filhos, rodeada por homens dez, vinte, trinta, quarenta anos mais velhos, raposas políticas capazes de se movimentar com habilidade num universo de perfídia e traições inteiramente desconhecido da belíssima menina, criada entre um convento e uma cidade do interior. O Brasil era apaixonado por ela. Maria Thereza sofreu muito, depois do golpe militar. E diziam que, apaixonada por Jango, sofria enormemente com as constantes traições conjugais do marido.

12. Você acha que a atmosfera do livro se assemelha ao clima que vivemos atualmente no Brasil e no mundo? Em caso positivo, quais paralelos poderia apontar ?

Vivemos numa época de grandes dúvidas e desinformação no Brasil, sem saber o que é verdade ou mentira, num país dividido, polarizado, onde o ódio e a intransigência têm prevalecido. Parece, para mim, um espelho deformado dos tempos conturbados que agitavam o Brasil em março de 1964.


O Último Dia da Inocência, Edney Silvestre, Editora Record, 195 páginas, R$ 33,90.