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Monika Ertl: Vingadora de Che Guevara

Após matar o cônsul que cortou as mãos do guerrilheiro, comunista alemã caiu numa emboscada no Peru

sexta 11 maio, 2018
Monika em imagem de filme de seu pai, Hans
Monika em imagem de filme de seu pai, Hans Foto:Reprodução

Em 12 de maio de 1973, a revolucionária Monika Ertl, comunista, filha de nazistas, assassina, autoproclamada vingadora de Che Guevara, era morta em uma emboscada, em La Paz. Ela era procurada por assassinar o coronel do Exército Roberto Quintanilla Pereira, responsável por amputar as mãos de Che Guevara.

Em uma quinta-feira, 1º de abril de 1971, de terno escuro e gravata de lã azul, o cônsul da Bolívia em Hamburgo aguardava a visita de uma professora de música que telefonara uma semana antes sugerindo um intercâmbio com estudantes bolivianos. Perto das 9h40, a bela moça entrou no gabinete, tirou da bolsa azul, que levava sob o braço esquerdo, um Colt Cobra 38 especial e disparou três tiros no lado direito do tórax do diplomata. Assim morreu o coronel do Exército Roberto Quintanilla Pereira, representante da Bolívia na cidade alemã desde o ano anterior. E assim foi vingado o comandante Ernesto Che Guevara, líder guerrilheiro assassinado em 9 de outubro de 1967, em La Higuera, Santa Cruz. Cumpria-se ao menos parte da "maldição" lançada por Fidel Castro aos assassinos de seu companheiro revolucionário.

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As mãos perdidas

A falsa professora era Monika Ertl, nascida em 1937, em Munique. Militante do Exército de Libertação Nacional, usava o codinome Imilla. Criado por Che, o ELN levou a luta armada para a selva boliviana. Quintanilla dera a ordem para que as mãos do cadáver do comandante fossem decepadas e enviadas para os Estados Unidos com o propósito de comprovar, por meio do exame das impressões digitais, que o guerrilheiro eliminado era realmente Ernesto Guevara. Só assim a CIA se convenceu.

Monika com o pai, antes da guerrilha Reprodução

Quintanilla trabalhava em conexão com a agência central de inteligência americana. O governo boliviano o despachara para Hamburgo como prêmio pelos serviços prestados e também para protegê-lo de eventuais atentados. A tarefa de matar o cônsul já havia sido recusada antes por dois venezuelanos, contratados por Cuba. Ao chegarem à escala na Áustria, eles concluíram que a missão era arriscada demais. Imilla, então, ofereceu-se para executá-la. Ela tinha mais um motivo para servir de instrumento no acerto de contas com o militar. O coronel fora o responsável também pela morte do sucessor de Che no ELN, Guido "Inti" Peredo, com quem a jovem teria tido um romance. O fato é que ninguém conseguiu explicar ainda como Monika, de peruca e óculos, que deixou cair durante a fuga, assim como a bolsa com o revólver, desapareceu da cena do crime ilesa.

A esposa do oficial boliviano, Ana, sustenta que enfrentou a agressora logo após os disparos. A briga teria durado uns cinco minutos - quase o dobro de um round de boxe. Mesmo assim, não consta a intervenção de ninguém mais, nenhum segurança do consulado. A polícia alemã informou ao governo da Bolívia que, das 151 pistas que havia recebido, 120 eram irrelevantes. Diante das dificuldades, acabou por dar o caso como encerrado, sem solucioná-lo (ao menos oficialmente).

O assassinato e a trajetória surpreendente de sua executora foram desvendados pelo jornalista alemão Jürgen Schreiber no livro La Mujer que Vengó al Che Guevara, lançado em 2010.

Ligações perigosas

Após a Segunda Guerra, a família Ertl foi morar na Bolívia. A mudança para La Paz ocorreu em condições precárias. Monika, a mais velha de três irmãs, viajou com Heidi, Beatrix, o pai, o cameraman e cineasta Hans e a mãe, Aurélia. Ao chegar ao país, Hans, exímio alpinista, largou a família sem entender uma palavra do idioma local e foi escalar. A vida se prenunciava diferente da realidade que Monika conhecia até então. Os Ertls frequentavam círculos importantes da Alemanha nazista. Aurélia foi secretária do Comitê dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, e o marido trabalhava com a famosa cineasta Leni Riefenstahl, que ditou a estética do Reich no cinema (e por quem, aliás, era apaixonado). A família de classe média levava uma vida confortável, próxima do poder. Durante a guerra, Hans serviu ao próprio Adolf Hitler como fotógrafo do Ministério da Propaganda.

"Monika era uma jovem muito alegre e expansiva", diz a irmã, Beatrix. Tinha quase 16 anos quando saíram da Alemanha. No primeiro parto da mulher, Hans estava certo de que viria um menino. Nasceu Monika, e o pai a tratou entusiasticamente como um rapaz. A garota respondeu como pôde à expectativa. Foi inclusive assistente de câmera em suas expedições amazônicas e andinas, pouco depois da chegada à Bolívia, em 1953. Foi nesse período que o pai a ensinou a atirar. Nas excursões, ela carregava uma arma calibre 22 para "segurança pessoal", nas palavras de Hans. Em uma das viagens com o pai, durante a filmagem de Hito Hito, sobre os índios sirionos, o cacique, encantado com a jovem de olhos claros, quis se casar.

Planejamento cuidadoso

Projeto prioritário para o ELN, o assassinato de Roberto Quintanilla consumiu cerca de um ano de preparo. Monika Ertl tinha passaporte alemão, o que permitiu que viajasse para Hamburgo sem sobressaltos. Ela percorreu 11 mil km até lá. Saiu de Santiago, onde se juntara ao exilado e amante, Chato Peredo. Passou por La Paz e depois rumou para a Alemanha. Contactado por Chato, o empresário Giangiacomo Feltrinelli ajudou na logística e fez a ponte com guerrilheiros italianos (do Gruppi di Azioni Partiggiana, que fundou em 1970) e alemães (Baader-Meinhof). Custeou quase toda a operação e, diz Jürgen Schreiber, teve um caso com Monika (no livro, o autor dá destaque aos amores de Imilla). A polícia rastreou a arma do crime até o italiano, mas ele, então, já vivia como clandestino - morreu em 1972.

Hans e Monika filmando um documentário Reprodução

A beleza de Monika chamava a atenção na alta sociedade boliviana. Vestia-se com esmero, jogava golfe e era inteligente e admirada, sobretudo na colônia alemã. Passado o tumulto da adaptação, a família se estabeleceu com relativa tranquilidade - Aurélia morreria de câncer em 1958. Nesse ano, a primogênita casou-se com Johan Harrjese, engenheiro rico da comunidade germânica, no esforço de se desvencilhar do controle do pai. Entre os admiradores da jovem estava Klaus Altmann, ou melhor, Klaus Barbie, o Carniceiro de Lyon.

Depois da guerra, o nazista e informante da CIA foi se esconder na Bolívia, onde conseguiu o primeiro emprego graças a Hans Ertl. Mais do que ninguém, o pai de Monika garantiu que Barbie, sob nome falso, fosse bem recebido. Segundo Schreiber, ela o chamava de "tio".

O casamento durou pouco. Em 1968 - com Che já morto e ultrajado (seu corpo seria localizado só 30 anos mais tarde) -, Monika visitou a Alemanha, onde teve contato com grupos organizados da juventude europeia. Quanto mais se apaixonava pelos ideais revolucionários, mais aumentavam os conflitos com seu pai. De volta a La Paz, conheceu os irmãos Guido "Inti" e Oswaldo "Chato" Peredo. Ela ofereceu abrigo à dupla (Inti escapara do cerco que deteve Che), pediu para entrar no ELN e transformou parte da residência do pai, no bairro de Sopocachi, em base da guerrilha.

Vida curta

Monika levava uma vida dupla. Trabalhava no Centro San Gabriel para órfãos e dava aulas de alemão no Instituto Goethe. Até que largou tudo para ser só Imilla. Pai e filha se encontraram pela última vez no fim de 1969. Ele a havia alertado sobre as forças de repressão e o crescimento da violência, mas ela estava determinada a continuar. Recebeu formação militar em Cuba e conheceu o empresário italiano Giangiacomo Feltrinelli, colaborador dos movimentos de extrema esquerda europeus e figura decisiva no apoio ao plano de eliminar Quintanilla.

O ódio contra o coronel só aumentava - ele teria torturado Inti, preso e executado em La Paz, em setembro de 1969. Klaus Barbie participou dos esforços para localizá-lo. "Barbie foi o elo entre as ditaduras sul-americanas e os terroristas de ultradireita da Itália e da Alemanha. Na Bolívia, ajudou a criar milícias como os Noivos da Morte", disse o historiador Julio Tomás Molina Céspedes em entrevista a José Casado, de O Globo. Segundo Schreiber, Hans Ertl confirmou que o nazista foi consultor da polícia secreta boliviana para adequá-la ao "modelo das SS". Sem que ele e o governo pudessem evitar, o planejamento e a preparação do ataque para o qual se ofereceu Imilla levaram vários meses.

Monika Ertl morreu aos 32 anos, por volta das 11 horas do dia 12 de maio de 1973, em La Paz. Imilla caiu em um cerco das forças de repressão do governo Hugo Banzer junto com o argentino Osvaldo Ukaski e um terceiro combatente, que conseguiu fugir. Há quem diga que "tio" Barbie planejou a emboscada. De qualquer modo, ela sabia dos riscos que corria e imaginava que sua hora estava próxima. Após o assassinato de Quintanilla, sabia que fora exposta. A mulher do coronel prontamente ajudou a montar um retrato falado da assassina, e a polícia rastreou a arma usada na execução. O revolver fora comprado por Feltrinelli.

Monika Ertl Reprodução

O jazigo dos Ertls que tem o nome de Monika gravado, num cemitério da capital boliviana, está vazio. Até hoje, diz a irmã Beatrix, a família não tem a menor ideia de onde ela foi enterrada. O governo informou apenas que ela teve um "sepultamento cristão". A outra irmã, Heidi, vive na Alemanha. Há anos, Beatrix tenta descobrir onde estão os restos mortais de Monika. A chegada da esquerda ao poder na Bolívia não mudou a situação: "Nem com Evo (Morales) consegui falar", queixa-se ela. 

Entrevista: Osvaldo Chato Peredo, ex-guerrilheiro

Osvaldo Chato Peredo é médico e ex-combatente do Exército de Libertação Nacional. Seu irmão Inti sucedeu Che à frente do ELN. Chato comandou o plano para eliminar Quintanilla e teve com Imilla grande (e íntima) convivência. Ele acusa Jürgen Schreiber de valorizar a "vingança de Che" para ajudar a vender seu livro e chama de desrespeito "com os ideais e a conduta de Imilla" resumir a ação dela a uma desforra.

Quem foi Imilla?

Era uma revolucionária extraordinária, que, depois de muita discussão, evoluiu de uma atitude filantrópica para uma ação consequentemente revolucionária. Discordo de Schreiber em vários aspectos. Ele poderia ter feito um perfil mais próximo da revolucionária autêntica e não de um D’Artagnan que age por vingança.

Por que ela foi escolhida?

Ela não foi escolhida - tinha o melhor perfil para praticar uma ação de justiçamento contra um torturador e agente da CIA. Depois de Teoponte (onde se realizou a segunda operação guerrilheira do ELN na Bolívia), adotamos uma política de justiçamento para evitar que as torturas continuassem impunes, mas isso foi secundário na nossa linha de ação.

Como Imilla conseguiu fugir depois de matar o coronel?

A mulher dele, ouvindo os disparos do revólver (a família morava no consulado) lutou com ela e Imilla, para não feri-la, acabou deixando cair a peruca e a arma. Ela fugiu apressada, em direção ao carro que a esperava. Dentro, estava um companheiro e, fora, um vigia, que tinha a incumbência de observar como se desenvolvia a ação e passar adiante as informações sobre os acontecimentos. Ela saiu da área e, enquanto atravessava uma ponte, cruzou com a policía, que já vinha em direção ao consulado. O carro era dirigido por um alemão, amigo dela. O autor preferiu inventar que o motorista era um suposto ex-cunhado e namorado (Reinhard).

Depois que executou Quintanilla, quando Imilla voltou à Bolívia?

Imediatamente após a ação, ela se comunicou com Feltrinelli, que colaborou com toda a infraestrutura e os meios para a operação, e retornou à Bolívia em poucos dias. Sabíamos que a polícia alemã, a Interpol e todos os organismos de inteligência chegariam a ela com rapidez com as informações fornecidas pela mulher de Quintanilla.

Ela se transformou na chefe do ELN?

Depois de um ano do justiçamento de Quintanilla e com a brutal pressão e assassinatos da ditadura Banzer, o ELN recolheu seus quadros ao Chile para colaborar com o governo Allende. Imilla ficou com a responsabilidade de cuidar da imprensa na Bolívia. Foi nessas condições que caiu numa emboscada, num bairro industrial de La Paz.

Saiba mais

La Mujer que Vengó al Che Guevara - La Historia de Monika Ertl, Jürgen Schreiber, Capital Intelectual, 2009
Combate nas Trevas, Jacob Gorender, Ática, 1987

Gilberto Pauletti


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