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Na Ucrânia, pessoas trans não conseguem cruzar as fronteiras

Diante de questionamentos, análises de documentos e transfobia, pessoas trans ficam presas no local que vive a invasão russa

Pedro Paulo Furlan, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 02/03/2022, às 17h26

Soldados ucranianos (2022) e foto ilustrativa de uma bandeira trans
Soldados ucranianos (2022) e foto ilustrativa de uma bandeira trans - Getty Images

Durante a invasão da Rússia na Ucrânia, grande parte que tentou cruzar as fronteiras ou fugir para fora de terras ucranianas conseguiram sair do local que passa pela invasão, chegando a um lugar mais seguro. No entanto, pessoas trans ainda estão sendo forçadas a ficarem dentro de suas casas por medo ou políticas preconceituosas.

Diversos indivíduos que se identificam como trans apontaram que militares ucranianos não permitem sua passagem, devido a documentos que têm o gênero colocado em seu nascimento, ou que sofrem violência transfóbica no caminho às fronteiras. Organizações e ativistas têm tentado  conseguir a atenção da comunidade internacional a isso.

À revista VICE, uma pessoa não-binária revelou que algumas pessoas trans não estão sentindo-se confortáveis com essa passagem, pois, os outros países, como a Polônia e Hungria, contam com uma gestão ainda mais transfóbica que a ucraniana.

Eu preciso escolher entre meu próprio país, no qual eu aprendi a navegar e viver, ou um local completamente estrangeiro, onde posso me sentir ainda mais excluide e em perigo”, explicou.

A cantora Zi Faámelu, de 31 anos, mora em Kiev e já até apareceu na televisão da Ucrânia, porém, agora, se vê presa em sua casa, completamente sozinha em sua vizinhança. Em sua conversa com VICE, explicou que, na Ucrânia, a troca do gênero nos documentos vem com “meses de instituições mentais, com testes físicos e psicológicos, para provar”.

Devido a isso, muitos, inclusive a musicista, não conseguiram alterar e ainda carregam o errado em suas identificações, o que leva a medo de violência, recrutamento ao exército e até morte em alguns casos. Faámelu solicita a todos que escrevam a caridades e governos para prestar auxílio, qualquer ajuda possível.

Pessoas trans agora se sentem esquecidas, negligenciadas, abandonadas. Nós realmente somos invisíveis no momento. Nós precisamos das Nações Unidas, nós precisamos de organizações dos direitos humanos. Precisamos de pessoas para nos ajudar a sermos percebidos”, afirmou.

Algumas caridades, como Forbidden Colors, e ativistas, como Rain Dove, têm conversado com ucranianos trans e LGBTQ+ e dado dicas de como melhor se comportar no caminho a outros países, além de pedido doações e voluntários. Dove, modelo e ativista, explicou como algumas pessoas estão conseguindo fugir.

“Se você é uma mulher trans, com um ‘M’ no seu passaporte, ou uma pessoa não-binária com um ‘M’, nós recomendamos que você 'perca' seu passaporte antes de falar com oficiais ucranianos. Esconda sua identificação. Se você for parado, fale que não é da Ucrânia, é um estudante ou só está visitando. [...] Se você é um homem trans, com um ‘F’ na sua identificação, prepare-se para ser manipulado pelas autoridades. Eles irão dizer ‘se você é mesmo um homem, lute pelo seu país. Essa é, infelizmente, uma coisa muito comum. Você também pode esconder sua identificação, mas conhecemos pessoas que ficaram para lutar”.