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Raro esqueleto neandertal de 70 mil anos pode provar que espécie era muito mais sofisticada do que se imaginava

Achado retoma debate sobre se os antigos eram suficientemente sofisticados culturalmente para realizarem rituais de sepultamento

Fabio Previdelli Publicado em 19/02/2020, às 12h09

Raro esqueleto neandertal de 70 mil anos
Raro esqueleto neandertal de 70 mil anos - Divulgação

O esqueleto de um neandertal, que viveu há 70.000 anos, foi encontrado no Iraque. Os restos mortais — que consistem em um crânio esmagado, mas completo, tórax superior e duas mãos — foram desenterrados recentemente da Caverna de Shanidar, no Curdistão iraquiano, considerado um dos locais mais importantes da arqueologia do século 20.

O achado é o primeiro esqueleto articulado de neandertais — com seus ossos dispostos em suas posições originais — encontrado nas últimas duas décadas. Embora seu gênero ainda não tenha sido determinado, análises iniciais sugerem que a ossada, apelidada de Shanidar Z, tem os dentes de um “adulto de meia idade”.

Raro esqueleto neandertal de 70 mil anos / Crédito: Divulgação

 

No final dos anos 1950 e início de 1960, outros dez restos de neandertais foram encontrados na Caverna Shanidar. O que inclui o famoso “enterro de flores”, que provocou um debate sobre se os antigos eram suficientemente sofisticados culturalmente para realizarem rituais de sepultamento. A descoberta do Shanidar Z, que parecia descansar apoiado com uma pedra na cabeça, é uma evidência mais recente que apoia essa ideia.

“Pesquisas sobre como os neandertais tratavam seus mortos precisam abranger o retorno de descobertas feitas a 60 ou até mesmo 100 anos atrás, quando as técnicas arqueológicas eram mais limitadas”, disse Emma Pomeroy, do Departamento de Arqueologia em Cambridge, e principal autora do novo artigo.

"Ter evidência primária de tal qualidade neste famoso local dos Neandertais nos permitirá usar tecnologias modernas para explorar tudo, desde o DNA antigo até a resolução de perguntas de longa data sobre como os Neandertais lidavam com a morte".

Quatro dos dez restos mortais encontrados na caverna ao longo dos anos — incluindo o Shanidar Z e o 'enterro das flores' — estavam posicionados juntos em uma “assembleia única”, o que levantou questões sobre se os neandertais estavam retornando ao mesmo local para colocar seus semelhantes que haviam morrido.

"Temos quatro corpos em uma área do tamanho de uma pequena mesa”, explica o Chris Hunt, um dos responsáveis pela pesquisa e paleontólogo cultural da Universidade de John Moores, de Liverpool. "Se estivéssemos lidando com um contexto mais moderno, poderíamos empregar o uso da palavra ‘cemitério’, mas este é um passo longe demais para nossa compreensão do comportamento neandertal".

Raro esqueleto neandertal de 70 mil anos / Crédito: Divulgação

 

Além dos restos mortais, a equipe também está analisando amostras de sedimentos em torno de Shanidar Z — junto com vestígios de pólen e carvão vegetal do local — para ajudá-los a investigar o comportamento da antiga civilização.

Os esqueletos foram transportados para Cambridge, onde um pesquisador usará uma tecnologia de escaneamento de ponta para construir um modelo digital do Neandertal Shanidar Z.

Tomografias feitas no osso petroso revelaram que o crânio está intacto e pode até conter DNA da época em que os humanos deixaram o continente africano. As conclusões completas do estudo foram publicadas na revista Antiquity.