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À deriva com tubarões: a trágica viagem de Brad Cavanagh e Deborah Kiley

A dupla considerou canibalismo após verem os próprios colegas serem devorados vivos por enormes tubarões brancos

Vanessa Centamori Publicado em 09/06/2020, às 17h00

Brad Cavanagh e Deborah Kiley, quando foram resgatados
Brad Cavanagh e Deborah Kiley, quando foram resgatados - Divulgação

Quando um milionário faz um convite para alguém dar uma voltinha em seu iate, certamente a maioria das pessoas aceitaria a oportunidade para viver um sonho luxuoso, nem que seja só por um momento. Foi essa a oferta tentadora que recebeu a navegante Deborah Scaling Kiley, no ano de 1982. 

Ela prometeu levar uma embarcação de alto padrão pelos Estados Unidos, movendo-a de Maine até seu novo proprietário na Flórida. Foram junto da marinheira o capitão John Lippoth, sua namorada Meg Mooney, e dois rapazes: Brad Cavanagh e Mark Adams.

Partida 

A aventura começou tranquila em outubro daquele ano, com dias de sol e um mar sereno. Mas, dois dias depois, o céu azul escureceu e uma tempestade se formou no horizonte. Ao cair da noite, começou uma chuva tropical violenta. 

Justamente quando o clima mudava para pior, John e Mark começaram a se estranhar. Ambos bebiam muito no deck, na companhia de Meg. Enquanto isso, Brad e Deborah ficaram no comando do barco. 

Deborah Scaling Kiley, na época do incidente / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Quando os que bebiam finalmente ficaram sóbrios, trocaram de turno com quem capitaneava a embarcação — Brad e Deborah, que foram descansar. No meio da noite, a dupla acordou subitamente, ao ouvirem gritos desesperados. 

Salve-se quem puder 

Para o espanto de todos, o barco começava a inundar e a água marinha o preenchia lentamente. A razão do incidente podia ser explicada por uma atitude de John e Mark. Ambos tinham prendido o leme para voltarem a dormir. 

Sem ninguém pilotando o veículo marinho, aquilo acabou mal. Desesperados, todos da tripulação procuraram por um barco salva vidas, mas esse tinha sido levado pela tempestade.

Por sorte, eles localizaram um bote inflável, onde todos entraram. Um pouco antes disso, porém, a chuva caía forte demais e as ondas se revoltavam contra os marinheiros. Meg caiu violentamente, ao ponto de ficar com a perna aberta, e com cortes quase até o osso. Ela foi a única que já chegou ferida no bote. 

“Dava para ver as contusões [de Meg] começarem”, relatou a colega Deborah, na série de 2005 do Discovery Channel, I Shouldn't Be Alive (Sobrevivi, no Brasil). "Eu poderia dizer que ela estava com muita dor."

Isca humana 

O grupo observou o barco deslizar sob o oceano furioso, e afundar para sempre. No dia seguinte, enquanto eles estavam no bote salva-vidas, a tempestade se acalmou um pouco, mas a situação ainda estava longe de estar tranquila.

Os marinheiros se espantaram ao verem o estado deplorável em que Meg se encontrava: ela mal falava e se movimentava. Sua perna sangrava muito e isso acabou atraindo tubarões brancos — os mais mortais da Terra. Nos próximos cinco dias, os peixes cartilaginosos fariam um estrago e tanto. 

Tubarão-branco / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Por ora, os navegantes lutavam pela sobrevivência. Mark e John, em uma estratégia infeliz, tomaram água do mar, o que acelerou ainda mais o seu processo de desidratação (o sal marinho é traiçoeiro, ocasionando a perda de água das células por osmose). 

O pânico e falta de água nos tecidos fizeram com que os dois rapazes tomassem atitudes cada vez mais incoerentes. John, por exemplo, saiu do bote, pensando ter visto terra firme. Ele disse que ia comprar alguns cigarros, foi em direção ao mar e nadou uma pequena distância.

Até que o homem afundou para sempre, deixando apenas rastros de sangue na água. Não havia dúvida do que havia o pegado. Os tubarões famintos mal permitiram que John tivesse tempo de gritar. Não houve choro, nem nada. Somente um terrível silêncio. 

Pouco tempo depois, Mark também acabou saindo do bote e sentiu algo cutucar sua perna. “Nós sentimos esse bam. E então sentimos esse bam novamente. Houve esse ataque frenético e os tubarões estavam comendo Mark embaixo do bote", descreveu Deborah. "Foi sem dúvida o momento mais horrível de toda a minha vida."

Brad Cavanagh / Crédito: Divulgação / Discovery Channel 

 

Presas fáceis 

Na quarta noite, deitada no barco de borracha, contaminada por urina, pus e sangue, Meg estava quase morrendo. Sua perna tinha ficado preta e seus colegas sobreviventes a assistiam morrer lentamente. 

Na manhã seguinte, Brad e Deborah notaram que o cadáver de Meg estava rígido. Nessa altura, a fome era tanta que eles consideraram comer o corpo da colega para evitar que ambos morressem também devido à miséria de seus estômagos. 

Porém, repensaram aquilo: o cadáver estava infeccionado demais para ser comido. Além disso, por um momento, recobraram a humanidade. Decidiram jogar Meg no mar, onde a moça finalmente teve seu descanso eterno. Rezaram por ela, fazendo um funeral improvisado. A perda foi apenas um dos múltiplos sofrimentos que eles passaram.

Deborah Kiley / Crédito: Divulgação / Discovery Channel 

 

Pequeno fio de esperança 

Brad e Deborah estavam feridos, famintos, desidratados e, acima de tudo, traumatizados. Logo, foi difícil acreditar quando Brad olhou para cima no horizonte e viu um navio de carga à distância. Ele olhou de novo. E de novo. Não era uma miragem, era a salvação chegando. 

A dupla começou a gritar e acenar. Alguém de pé no convés acenou de volta. Os dois pularam na água. Após agarrarem uma bóia, foram levados a bordo do navio. Desde então, puderam dizer pelo resto de suas vidas que sobreviveram à uma grande tragédia. 

Surpreendentemente, Brad continuou a trabalhar como marinheiro, tornando-se capitão de barco. Muitas vezes, ele chegou a navegar pela mesma rota onde esteve um dia à deriva no meio do Oceano Atlântico.

Deborah tornou-se uma palestrante motivacional e, em 1994, escreveu um livro sobre sua experiência, chamado Albatross: A True Story of a Woman's Survival at Sea (Albatross: A verdadeira história da sobrevivência de uma mulher no mar, em tradução livre). 

"Todo dia eu acordo, e é um novo dia e estou feliz", afirmou a sobrevivente, ao Discovery Channel. "Eu sempre tento encontrar algo bom nas coisas ruins que acontecem comigo. Nunca há um dia em que você seja mais grato pela vida do que no dia em que quase morre".


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