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A explosiva trajetória de Winnie Mandela: 'Não sou um produto de Mandela'

Falecendo em 2018, Winnie foi uma das principais aliadas do ex-presidente sul-africano enquanto ele esteve preso. Porém, após 38 anos de união, a relação acabou se desvirtuando

Fabio Previdelli Publicado em 14/02/2021, às 10h00

A ativista Winnie Madikizela-Mandela
A ativista Winnie Madikizela-Mandela - Getty Images

Vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1993, Nelson Mandela foi um dos principais defensores do direito dos negros na África do Sul. Líder do movimento contra o Apartheid, ficou preso por 27 anos devido ao seu ativismo.  

Ainda assim, dentro da cadeia, exercia uma influência ímpar na batalha contra a supremacia branca e a favor dos direitos iguais para os negros.

Apesar de toda sua importância, ele não foi o único a lutar pela causa, tendo em Winnie Madikizela-Mandela, sua segunda esposa, uma de suas principais aliadas — ainda que a relação tenha se desvirtuado com o passar do tempo.

Luta atirracista 

Nomzamo Winifred Zanyiwe Madikizela nasceu, em 26 de setembro de 1936, na província de Cabo Oriental, no sul da África do Sul. Desde sua juventude, presenciou episódios flagrantes de racismo em sua terra natal. Isso, inclusive, foi um dos fatores que a influenciou lutar pelos direitos iguais do povo negro africano.  

Em 1967, conheceu Nelson Mandela, quando o ativista ainda era casado com Evelyn Mase. Porém, pouco depois, Mandela acabou se divorciando e os dois passaram a se relacionar. Eles se casam no ano seguinte.  

Porém, a união era constantemente abalada pela vida política do marido. “Nunca tivemos uma vida familiar (…) não podíamos tirar Nelson de seu povo. A luta contra o Apartheid, pela Nação, vinha primeiro”, escreveu Winnie em suas memórias.  

Não demorou muito até que Mandela fosse preso, em maio de 1969, o que a deixou sozinha com suas filhas. Aquele seria o maior período que Madiba (apelido de Mandela), ficaria preso: 27 anos, sendo solto apenas em 1990. Lembrando que os dois ficaram juntos por 38 anos.

Além disso, Madikizela passa a ser alvo de intimidações, com recorrentes ameaças contra sua vida. Isso fez com que suas filhas fossem parar num internato na Suazilândia, com o intuito de privá-las de uma perseguição pelo governo.  

A revolução 

Mesmo assim, nada abalou sua resistência. Ela continuou lutando pelos seus ideais, assim se tornando uma das maiores figuras do Congresso Nacional Africano (ANC). Por seu papel, acabou sendo presa, ainda em 1969, sob auspícios da Lei Antiterrorismo. Winnie passou 17 meses em cárcere. 

Com voz ativa na luta antiapartheid, Madikizela, em 1976, também criou a Federação das Mulheres Negras e a Associação dos Pais Negros, afiliadas ao Movimento da Consciência Negra. Em um discurso em Soweto, ela convocou todos os estudantes a “lutar até o fim”.  

No ano seguinte, acabou presa novamente, sendo banida para o Estado Livre de Orange. Quando retornou, em 1986, passa impor métodos de castigo aos supostos dissidente e traidores da causa antiapartheid.  

Supostamente, segundo explica reportagem da IstoÉ e também da Veja, seus opositores eram queimados, ainda vivos, com pneu no pescoço. Ela dizia que os sul-africanos deveriam se libertar com “caixas de fósforos”. O pensamento ia de desencontro ao seu marido, que pregava a reconciliação.  

Cada vez aplicando métodos brutais e particulares de tortura, Winnie criou sua própria guarda: o “Mandela United Footbal Club” (MUFC). Uma de suas vítimas mais notórias é o ativista Stompie Seipei, que foi decapitado depois de ter sido acusado de ser um informante.  

Em 1991, ela foi considerada culpada por ser cúmplice no sequestro do jovem. Com isso, acabou sendo condenada a seis anos de prisão, entretanto, após processo de apelação, sua pena fora comutada para uma multa simples.  

Mais tarde, em 1998, a Comissão de Verdade e Reconciliação (TCR) disse, em seu relatório final, que Madikizela foi "politicamente e moralmente responsável por graves violações dos direitos humanos". 

“Ela foi uma formidável defensora da luta, um ícone da libertação”, comentou Desmond Tutu, vencedor do Prêmio Nobel da Paz, presidente da TRC e amigo de Nelson Mandela. “Mas, então, algo deu terrivelmente errado”.  

Porém, seus escândalos não pararam por aí. Em 1994, logo após ser nomeada vice-ministra da Cultura, após as primeiras eleições multirraciais, Winnie acabou sendo mandada embora por insubordinação. 

Mais tarde, foi banida da AFC. Em 2003, ela acabou sendo sentenciada novamente, desta vez por fraude. Quatro anos depois, retornou à vida política ao se juntar ao Comitê Executivo do partido.  

A essa altura, já havia se separado há mais de uma década de Nelson Mandela. O divórcio ocorreu em 1992, por “motivos pessoais”, o que muitos dizem ser casos de infidelidade de Winnie.  

Com isso, passou a ser severa crítica do acordo histórico assinado por Mandela, que colocaria fim à segregação. “Mandela nos abandonou. O Acordo que ele fez é ruim para os negros”, declarou. 

Já em determinado momento, segundo repercutido em matéria da Folha, disse: "Não sou um produto de Mandela. Sou o produto das massas do meu país e o produto do meu inimigo".

A diferença entre os dois persistiu até depois da morte do ex-presidente sul-africano, que não deixou nenhuma herança para sua ex-mulher. Descontente, recorreu para tentar recuperar a casa da família em Qunu, no sul do país. Entretanto, a Justiça rejeitou seus pedidos.  

Winnie Madikizela-Mandela faleceu em 2 de abril de 2018, aos 81 anos, em decorrência de complicações causadas por uma infecção no rim.


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