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A partir de relatos da mãe, que vivenciou o nazismo, jornalista lança obra emocionante

Em entrevista exclusiva para o Aventuras na História, o jornalista e escritor Rubens Glasberg deu detalhes sobre 'Os Indesejados: Uma história de refugiados no tempo do nazismo'

Penélope Coelho Publicado em 19/06/2021, às 07h00

Imagem do livro Os Indesejados: Uma história de refugiados no tempo do nazismo
Imagem do livro Os Indesejados: Uma história de refugiados no tempo do nazismo - Arquivo pessoal/ Editora Terceiro Nome

Em março de 2020, o jornalista Rubens Glasberg, se viu na mesma situação de todos os brasileiros com o lockdown imposto pela pandemia do novo coronavírus.

Aposentado, com mais de 50 anos de profissão, após trabalhar em redações renomadas, como, Folha de São Paulo, Estadão e Exame, Glasberg sentiu que o isolamento social poderia ser o momento propício para começar a escrever um livro sobre a história de seus pais, Elisa Klinger e Hans Glasberg, que se conheceram nos terríveis anos do nazismo, quando fugiam de navio para o Brasil.

Elisa possuía uma das centenas de vistos diplomáticos que foram concedidos pelo embaixador Luiz Martins de Souza Dantas, na tentativa de salvar vidas, mesmo que a medida fosse contrária às leis do Estado Novo.

Hans foi um dos mais de cem judeus salvos pelo acordo entre o Brasil e o Vaticano, para que fossem acolhidos no país os chamados “católicos não-arianos”.

Foto presente no livro Os Indesejados: Uma história de refugiados no tempo do nazismo / Crédito: Arquivo pessoal/ Editora Terceiro Nome

 

Certa vez, essa história rica e cheia de detalhes foi contada pela mãe de Rubens, em relatos manuscritos que ficaram guardados por muitos anos, que resultaram na obra intitulada: Os Indesejados: Uma história de refugiados no tempo do nazismo (2021). 

O processo

“É uma história que começa em 1992, minha mãe ainda estava viva e estava nos visitando, ela vivia em Israel na época, e minha mulher pediu para ela relatar a história de vida dela”, afirmou o jornalista em entrevista à AH.

“A história principal vem da época do nazismo na Áustria, da fuga dela pro Brasil, como ela conheceu meu pai depois da viagem, para ela anotar isso tudo para os netos e bisnetos saberem da história, conhecerem, terem um depoimento dela pessoal”, nos conta.

Capa da obra “Os Indesejados" (2021) / Crédito: Divulgação / Editora Terceiro Nome

 

O jornalista afirma que manteve os relatos da mãe e decidiu fazer uma cópia para todos os netos. Uma vez, uma de suas netas levou o depoimento pra ler em classe e, consequentemente, teve muita repercussão na escola.

“Eu pensei: ‘Puxa, eu sou jornalista profissional’, então eu fiz uma copidescagem daquilo, pra deixar melhor e mostrei para uma amiga minha, dona de uma editora”.

A colega de Glasberg gostou do que viu, mas, se questionou sobre a falta de um texto do jornalista. “Na mesma época veio a pandemia, tive que me recolher já estou na chamada ‘boa idade’, e ai aproveitei e escrevi o livro”, afirmou.

Com o auxílio de imagens, ilustrações, relatos e textos do jornalista, a obra surgiu. Em entrevista, o escritor nos contou detalhes sobre o processo de escrita do livro: “A ideia que eu tive foi reunir o que eu tinha de memória dos meus pais, meus avós maternos, além do que a minha mãe escreveu”.

“Há certa dificuldade porque há uma distância no tempo, das pessoas que testemunharam, que viveram aquilo, poucas delas estão vivas, da família praticamente ninguém”.

“Além disso, eu procurei contextualizar, ou seja, ai eu recorri a clássicos sobre a época do nazismo, sobre a Terceira República na França. É um trabalho parecido com o jornalístico, tem que entrevistar pessoas, consultar fontes seguras, checar essas informações com historiadores e pesquisadores e o uso da internet”, disse Glasberg.

Enquanto escrevia, o jornalista ainda descobriu informações inéditas. Nas fotos de álbuns de família, Rubens encontrou mensagens escritas atrás das fotografias, que naquela época, eram usadas comumente como cartões portais.

Fotografia de Rubens Glasberg / Crédito: Divulgação/Arquivo Pessoal 

 

“Descobri parentes distantes que não conhecia nesse processo de pesquisa. Eu tenho depoimentos, por exemplo, de primas do meu pai que antes do livro, eu nem sabia da existência”, revelou o escritor.

Para ele, o todo esse processo foi prazeroso: “Foi uma coisa gostosa de fazer, até estimulante. Eu tinha as histórias e conforme fui lendo, fui encaixando e descobrindo razões de coisas que eu nem sabia”, afirmou.

Aprendizados 

Na entrevista, o jornalista foi questionado sobre seu sentimento ao escrever um livro a partir dos relatos de sua família, para entender se de alguma forma, a relação pessoal com a história foi difícil ou levantou questões. Glasberg foi enfático ao afirmar que essa não é uma história exclusiva:

“A história não é pessoal minha, tem a minha visão das coisas [...] é a história da minha família, mas também de uma geração, que é a geração dos meus pais. É uma história pessoal, mas de certa forma pode ser generalizada, é uma história que muitos viveram”.

Comparações 

Para Rubens, a obra pode contribuir para esclarecer e dar maiores informações sobre a época. O jornalista afirma que existem algumas semelhanças entre o triste período do mundo em que seus pais se conheceram e o momento atual que vivemos:

“Discriminação, intolerância, preconceito, indiferença, e essas manifestações humanas elas se acentuam conforme períodos são circunstâncias muitas vezes da economia, política, social, que vão acentuar mais essas coisas [...] Eu não diria que as situações são iguais, as coisas não se repetem de maneira igual na história, mas, há semelhanças”.

Para o escritor, é importante mostrar as raízes desses problemas.

“São situações em que a sociedade apresenta problemas como grandes crises de desemprego, ou mudanças no modo de produção, relações de trabalho; e o medo dos pequenos produtores em meio à revolução industrial, o medo do imigrante, de quem vem de fora, medo de perder poder de compra. Isso se repete hoje em dia, você vai ver várias semelhanças e fenômenos semelhantes, não são exatamente iguais”, afirmou.

Aprovação 

Por fim, quando questionado sobre o que seus pais iriam achar do livro que Rubens escreveu sobra a história deles, o escritor fez um comparativo com a pressão de mostrar o boletim com suas notas na época do colégio. Entretanto, ele acredita que a recepção seria positiva. 

“Difícil dizer, é como chegar com o boletim da escola: ‘o que minha mãe vai dizer do que eu fiz aqui?’. Talvez, eles tivessem uma ou outra interpretação diferente da que eu tive, logicamente, são visões e concepções de mundo distintas [...] Mas, no mais, eu acho que eles ficariam felizes, de certa forma, o que eu quis fazer é uma homenagem para eles”, finalizou.


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