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"A vida me compensou de verdade": Andor Stern, o sobrevivente brasileiro de Auschwitz

Andor conversou com o site Aventuras na História sobre perda de entes queridos, apreciação pela vida e outros temas universais

Ingredi Brunato Publicado em 19/11/2020, às 17h46

Fotografia de Andor Stern
Fotografia de Andor Stern - Gustavo Amorim

Andor Stern é um judeu nascido no Brasil, mas que se mudou com os pais para a Hungria quando tinha quatro anos, portanto, crescendo em meio ao ódio antissemita que se fortalecia a cada dia no país. 

O momento de estouro de tudo isso foi quando a Alemanha ocupou a Hungria, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi nesse momento que Andor, apenas um adolescente, acabou sendo deportado para Auschwitz, campo de extermínio nazista na Polônia, onde viveu atrocidades por meses.

Atualmente com 92 anos de idade, Stern ainda carrega consigo as marcas do Holocausto:  algumas estão em sua mente, e outras no corpo, como a gravação dos números 83892 em seu braço, que foi feita no dia que chegou ao campo de concentração.

Apesar desse passado difícil, o sobrevivente foi capaz de reconstruir uma vida que lhe enche de felicidade todos os dias - a felicidade de saber que é um homem livre. 

Fotografia do braço marcado de Andor / Crédito: Gustavo Amorim

 

Diante dessa trajetória, o site Aventuras na História conversou mais uma vez com Andor sobre suas experiências do passado e seus pensamentos do presente. 

Os horrores do Reich

Impossível não se chocar com as experiências que os judeus foram submetidos nos campos de concentração. O brasileiro não demorou muito para, como os outros, sentir que sua humanidade fora arrancada dele. 

A falta de higiene teria sido um fator que contribuiu para esse sentimento. Em um ambiente eternamente sujo, com pessoas que não tinham a oportunidade de tomar um banho, estavam sempre vestidas com o mesmo pijama e frequentemente sofrendo de diarreia, ainda acabava surgindo outra tortura: os parasitas.

Piolhos, sarna e percevejos viravam moradores permanentes do corpo dos judeus em campos de concentração. "Havia um zoológico inteiro vivendo sobre mim", disse Stern, que precisava conviver diariamente com feridas e coceiras causadas pelos hóspedes desagradáveis.

Pijamas usados pelos judeus nos campos de extermínio / Crédito: Wikimedia Commons

 

Estômago vazio  

A fome constante e insuportável também levava Andor e seus colegas a tomarem medidas extremas, comendo, por exemplo, o papelão e o barbante dos sacos de cimento que eles carregavam nas costas durante o dia, apenas para "ter o que mastigar".

Um dos hábitos que Stern desenvolveu durante seu período em Auschwitz para tentar lidar com a situação foi fantasiar com comida sempre que podia. Se imaginava fazendo um sanduíche para si mesmo, ou então diante de uma fartura de pães e bolos. Não era o único: segundo conta, "só se falava em comida, o tempo todo". Era uma fome, não doía apenas no físico, mas no psicológico. 

Os últimos dias de Andor como um prisioneiro foram passados em um vagão de trem, que teria sido onde os nazistas colocaram os judeus dos campos de concentração ao perceberem que a derrota estava próxima. 

Os mais fragilizados acabaram morrendo ali mesmo. Não que a morte fosse incomum para Stern, depois de meses vendo pessoas falecendo por desidratação devido à diarreia excessiva. 

Os soldados norte-americanos teriam ficado assustados com a condição sub-humana em que encontraram os sobreviventes de Auschwitz. Disseram que todos estavam livres, mas ainda demorou alguns dias para essa percepção se instalar na mente de Andor. 

Quando ele afinal conseguiu assimilar aquela notícia, se permitiu a um luxo que a meses não tinha: pensar em algo além do momento presente. Depois de acalmada sua fome e lavado do seu corpo o "zoológico" que vivia nele, sua capacidade humana de imaginar afinal retornou.

Projeções  

Então, Stern pensou sobre o que ele queria no futuro. "Um par de sapatos", decidiu. Um que pudesse manter seus pés protegidos da terra áspera, e quentinhos durante o inverno. Nem tinha pensado na meia ainda - a ideia de ter sapatos, por si só, já o deixava maravilhado.   

Além disso, tinha uma vontade singular: depois de anos sentindo fome, queria ter uma roupa com um bolso enorme, para poder colocar uma baguete dentro, e comer quando tivesse vontade. 

Apesar de ter passado por experiências extremas, o senhor Andor não vive preso nos horrores do seu passado, mas na alegria de sua vida atual. “Eu tive o privilégio de ter reposto tudo que eu perdi. A vida me compensou de verdade: me deu, por exemplo, uma família maravilhosa e a oportunidade de, ainda com a minha idade, ser lúcido. Eu não tenho muito do que reclamar da vida, ainda que tenha vivido o que eu presenciei”, afirmou ele, que é pai de cinco filhos após voltar para o Brasil. 

Para quem passou pelos horrores dos nazistas e voltou, a passagem pela Terra certamente acaba ganhando uma nova perspectiva: “Acho que nunca tá tão ruim que não tenha sido pior, sabe?”, refletiu Stern.  

Portão principal de Auschwitz / Crédito: Wikimedia Commons

 

Força invisível 

Apesar disso, ele também acredita que cada um reage às situações de sua própria maneira, de forma que, embora seja um sobrevivente, não saberia dar conselhos para outra pessoa que estivesse passando por dificuldades. 

Ele acredita na ideia de que somos mais fortes do que pensamos: “Quando você teve uma boa educação, teve carinho dos seus, teve uma vida normal, acho que na maioria das vezes vai saber lidar com a morte e com todas as dificuldades”. Andor perdeu 94 membros de sua família no Holocausto, somando o lado de sua mãe e do seu pai. Apenas 4 voltaram com vida.

“O único elemento do meu passado com o qual eu não consegui acertar as contas foi com minha mãe, até hoje acho que tá fazendo falta”. Tirando esse luto difícil de superar, ele majoritariamente conseguiu recuperar a normalidade de sua vida. 

Ainda que sua experiência tenha “mudado tudo que veio antes e tudo que veio depois”, Andor voltou a ter uma cama limpa para dormir, um chuveiro para tomar banho, comida fresca para quando sente fome e liberdade para ir onde quiser, e se existe algo que levou consigo de Auschwitz, foi uma nova apreciação pela vida: “Eu acho que essa historiazinha que eu carrego nas costas, tudo que ela me fez foi enxergar melhor o valor da vida, nisso se resume tudo”, conta ele. 

A verdade é que a existência humana é muito breve e frágil, e isso nunca fica tão evidente quanto para aqueles que precisaram olhar a morte nos olhos. Até hoje, Andor compartilha palavras que sua mãe falecida lhe disse desde muito cedo, e que são de uma sabedoria que todos nós precisamos às vezes: “Eu tive uma mãezinha muito especial. Ela me falava que o mundo não foi inventado para mim, e eu tive sorte de fazer parte dessa vida.” 

A sua trajetória foi narrada na obra Uma Estrela Na Escuridao, Gabriel Davi Pierin, lançada por Gabriel Davi Pierin em 2018.


++Relembre a entrevista em vídeo do site Aventuras na História com Andor Stern.


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