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Abortos, espancamentos e estupros: os insólitos sequestros de Cleveland

Entre 2002 e 2004, três jovens foram sequestradas e mantidas em cativeiro pelo mesmo homem até 2013, quando uma delas conseguiu se libertar

Pamela Malva Publicado em 28/01/2020, às 18h50

Gina, Amanda e Michelle, respectivamente
Gina, Amanda e Michelle, respectivamente - Arquivo pessoal

A preocupação de Michelle Knight não poderia ser maior no dia 23 de agosto de 2002. Ela tinha apenas 21 anos e estava lutando pela custodia de seu filho, que já tinha perdido para o Estado uma vez. Ela caminhava pela rua, a caminho de mais uma audiência.

De repente, um carro parou ao seu lado e o motorista ofereceu uma carona. Michelle estava ansiosa, então aceitou. Uma vez no veículo, o homem deu uma desculpa que justificasse a mudança de rota. Depois disso, Michelle desapareceu.

No ano seguinte, Amanda Berry, de 16 anos, tinha acabado de sair do trabalho quando um homem gentil lhe ofereceu uma carona. Para conquistar a confiança da jovem, ele disse a ela que seu filho trabalhava na mesma lanchonete que Amanda. Ela entrou no carro no dia 21 de abril, véspera de seu aniversário de 17 anos.

Gina e Amanda, respectivamente / Crédito: Arquivo pessoal

 

Um ano mais tarde, Gina DeJesus falava ao telefone público, acompanhada de sua melhor amiga Arlene, ambas com 14 anos. As duas queriam dormir juntas na casa de Gina, coisa que a mãe de Arlene, Grimilda Figueroa, não concordava.

A mãe da menina negou o pedido, as duas se separaram e tomaram caminhos diferentes. Em poucos minutos, um homem apareceu, oferecendo uma carona à Gina. Depois disso, ela desapareceu, no dia 2 de abril de 2004.

Todas as histórias têm muito em comum, mesmo que as meninas sejam levemente diferentes. O sequestrador, um motorista tão gentil à primeira vista, no entanto, era o mesmo. Com 43 anos na época, Ariel Castro levou todas as garotas à mesma casa, na 2207 Seymour Avenue.

O caso

Os sequestros de Michelle Knight, Amanda Berry e Gina DeJesus aconteceram em Cleveland, no estado de Ohio, Estados Unidos. Elas foram mantidas em cativeiro na casa de Ariel, cada uma em um quarto diferente, separadas por finas paredes.

Logo que Amanda desapareceu, seu rosto tomou as manchetes dos jornais e as telas das televisões. Sua mãe, Louwana Miller, buscou a jovem incessantemente durante três anos, até que faleceu em 2006, de insuficiência cardíaca.

Ariel Castro já preso / Crédito: Wikimedia Commons

 

Os três casos já estavam sendo conectados, graças às suas semelhanças. As ligações só se intensificaram quando Gina foi sequestrada, bem como as investigações do FBI. Logo que a garota de 14 anos foi dada como desaparecida, o próprio FBI publicou um retrato falado do suspeito.

Ele havia sido identificado como um hispânico entre 25 e 35 anos, com cerca de 80kg e 1,78 m de altura. Segundo testemunhas, ele tinha olhos verdes, um cavanhaque e, possivelmente, uma barba fina. Quase tudo combinava com Castro, que tinha barba e cavanhaque, peso e altura aproximados e olhos castanhos.

Os dias de terror

Assim que Michelle, a primeira vítima, foi levada a casa, ela foi trancafiada em um dos quartos do andar superior. Foi abusada durante anos, foi alvo de espancamentos e foi obrigada a abortar cinco vezes. Ela perdeu a audição de um dos ouvidos e precisou de uma reconstrução facial devido aos socos que levou.

Amanda também engravidou após ser estuprada pelo sequestrador, mas seguiu com a gravidez. O bebê nasceu no dia 25 de dezembro de 2006, três anos depois do sequestro de sua mãe. O parto foi feito dentro da casa onde as mulheres eram mantidas em cárcere.

Casa de Ariel, onde as três mulheres ficaram presas / Crédito: Wikimedia Commons

 

Naquele dia, segundo Michelle, ela mesma participou do nascimento da criança, sempre sob as ameaças e agressões de Castro. Durante o parto, o sequestrador afirmava que mataria Michelle caso o bebê não sobrevivesse.

As três mulheres, enquanto prisioneiras, sofriam todo tipo de abusos, desde sessões de espancamento, até agressões sexuais de todo tipo. Elas passaram anos presas dentro dos quartos, pouco vendo os rostos uma da outra ou a luz do sol. Por vezes eram amarradas por cordas ou correntes.

A pequena filha de Amanda, que cresceu no cativeiro até seus seis anos, desconhecia um mundo diferente daquele e convivia com a imagem da mãe presa à cama. Diferentemente das mulheres, ela era tratada por Ariel com certa ternura. Michelle, Amanda e Gina, no entanto, eram obrigadas a escutar os gritos umas das outras durante as sessões de abusos.

Durante seu julgamento, Ariel confessou que, como parte de um ritual macabro, comemorava as datas dos sequestros de cada uma das três mulheres. Ele as colocava em uma mesa, na frente de um bolo. Nas comemorações, ele as fazia assistir suas respectivas famílias buscando-as na televisão.

Ariel sendo interrogado pelo FBI / Crédito: Wikimedia Commons

 

Doce liberdade

O terror acabou apenas em 2013, por um descuido do sequestrador. Castro costumava tomar diversas precauções para que as mulheres não fossem vistas, nem ouvidas, mas acabou escorregando.

No dia 6 de maio daquele ano, ele saiu de casa e esqueceu-se de trancar uma das portas internas da casa. Essa foi a salvação das três mulheres. Percebendo o erro, Amanda rapidamente tentou alcançar a porta da frente da residência.

Como esta sim estava trancada, a jovem não pensou duas vezes: começou a bater na porta e gritar por socorro. Um dos vizinhos da rua, Angel Cordero, escutou os estrondos e resolveu averiguar. Como não entendia inglês direito, chamou outro morador, Charles Ramsey.

Para os homens, Amanda gritava que havia sido sequestrada e que estava acompanhada da filha e de duas outras mulheres. Angel e Charles, por sua vez, derrubaram a porta e tiraram Amanda e a pequena menina de seis anos do cativeiro.

Amanda e Gina em 2015 / Crédito: Getty Images

 

Uma vez na rua, com sua filha no colo, Amanda ligou para a polícia pelo celular de uma das vizinhas. “Me ajudem, eu sou Amanda Berry... Eu fui sequestrada e estive desaparecida por dez anos... Eu estou aqui, estou livre agora”, disse, aliviada.

A casa foi invadida pelos policiais e, assim, Michelle e Gina foram libertadas, após serem encontradas no andar superior. Em entrevistas na época, o policial que tirou Michelle do cárcere contou que a mulher pulou em seus braços, emocionada, dizendo que ele havia salvado ela.

As três mulheres, que ficaram em cárcere por entre 9 e 11 anos, e a menina foram levadas ao Metro Health Medical Center para receberem os tratamentos necessários. Lá, através de um exame de DNA, a paternidade do sequestrador em relação à filha de Amanda foi confirmada.

Notícia do dia em que as três mulheres foram encontradas / Crédito: Getty Images

 

Julgamento

Ariel foi preso e, durante seu testemunho, detalhou os sequestros e se descreveu como alguém de "sangue-frio, viciado em sexo e sem controle sobre seus impulsos sexuais". Ele ainda disse que os raptos não foram planejados, mas resultados de um impulso.

Durante os julgamentos, Anthony Castro, filho de Ariel, declarou que, quando visitava a casa do pai, percebia diversas portas trancadas. “Várias áreas dela eram proibidas para mim; havia cadeados no porão, no sótão e na garagem”, disse.

Castro declarou-se inocente ao Grande Júri, mas foi condenado por 329 crimes — entre eles sequestro, violação e homicídio, por ter provocado um aborto em uma das mulheres ao espancá-la na barriga.

Ariel Castro em seu julgamento, em 2013 / Crédito: Getty Images

 

Em julho de 2013, mais 648 acusações foram apresentadas pela promotoria. Pouco tempo depois, Michelle Knight foi a única a comparecer no julgamento do sequestrador, no dia 1 de agosto daquele ano. Ela depôs como testemunha de acusação.

Michelle ouviu em primeira mão quando Castro recebeu a condenação de prisão perpétua mais 1000 anos, sem direito a liberdade condicional. A casa onde as três foram mantidas por anos foi demolida em agosto de 2013, como um acordo entre Castro e a promotoria, para que ele fosse condenado à prisão perpétua e não à pena de morte.

No dia 3 de setembro, no entanto, pouco tempo depois de iniciar sua pena, Ariel Castro cometeu suicídio, enforcando-se em sua cela individual. Ele estava preso na prisão do Centro de Reabilitação Correcional de Orient, em Ohio.


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