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Ann Mitchell, a matemática que ajudou a decifrar mensagens nazistas

A britânica, que morreu esse ano por Covid-19, esteve presente no grupo liderado por Alan Turing, o pai da computação

Ingredi Brunato Publicado em 28/11/2020, às 09h00

Foto de Ann Mitchell em 2014
Foto de Ann Mitchell em 2014 - Divulgação Jane Barlow

Ann Mitchell foi uma matemática em uma época em que a sociedade acreditava que matemática não era para garotas. Foi o que a diretora de seu colégio, inclusive, disse a seus pais quando ela demonstrou interesse na disciplina. Felizmente, eles não deram ouvidos, estimulando a filha a buscar seus sonhos. 

Por conta disso, quando a Segunda Guerra Mundial veio, a britânica foi recrutada para o projeto governamental ultrassecreto em que as mensagens alemãs eram decodificadas. Para tanto, é claro, não se pode descartar a presença da Enigma, a máquina idealizada por Alan Turing, considerado até hoje o pai da computação. 

Embora a Enigma tenha tido um papel muito importante na Vitória dos Aliados, todavia, não teria funcionado se não fosse pelo trabalho de dezenas de outras pessoas, entre essas Ann, que era responsável por desenvolver muitas das fórmulas que eram inseridas na máquina. 

Fotografia de Ann Mitchell já senhora / Crédito: Divulgação/ Andy Mitchell

 

Como ela acabou em um projeto ultrassecreto 

A trajetória de Ann Mitchell, cujo sobrenome de solteira era Williamson, inegavelmente começa com seus pais recusando o conselho de uma diretora com uma visão limitada pelo preconceito de seu tempo. 

"Ela mesma ensinava química, o que certamente era ainda menos elegante. No entanto, meus pais a rejeitaram e eu segui o caminho que escolhi", relembrava a britânica, segundo divulgado pela BBC em maio desse ano, quando entrevistou os familiares dela em homenagem à sua morte. 

Williamson acabou sendo uma entre as cinco mulheres que foram aprovadas para entrar no curso de matemática da Universidade de Oxford, e logo depois de formada já foi chamada para a vaga de emprego que colocaria seu nome na História. “Ela não tinha ideia do tipo de trabalho que estava aceitando", revelou seu filho Andy, de 61 anos, ao site. 

Fotografia de Ann Mitchell após se formar / Crédito: Divulgação/ Andy Mitchell 

 

O Ministério de Relações Exteriores da Inglaterra direcionou a recém-formada matemática para a célebre Bletchley Park, a mansão onde ficou escondida a sede de decodificação de mensagens durante o conflito. 

Não foi fácil: Ann ficava na mansão durante 9 horas por dia, e 6 dias por semana, além de precisar manter seu ofício um segredo para todas as pessoas de sua vida. A inglesa só começou a falar a respeito de seu serviço na guerra na década de 1970 — quinze anos depois de seu fim. 

1970 para cá 

De acordo com seus parentes, Mitchell teria ficado “maravilhada” ao descobrir que as pessoas estavam falando dessa parte da guerra que havia sido mantida confidencial por tanto tempo, como o lançamento de livros explicando sobre a Enigma. O que também significou que pôde afinal contar ao marido, Angus, a respeito de seu passado. 

Fotografia de Ann e seu marido Angus Mitchell, que faleceu em 2018 / Crédito: Divulgação/ Andy Mitchell 

 

Foi nessa época, ainda, que conheceu a historiadora Tessa Dunlop, que escreveu o livro “The Bletchley Girls” (Ou “As garotas de Bletchley”, em tradução livre), que conta a perspectiva das mulheres que trabalhavam na famosa mansão — que, na verdade, tinha três quartos de seu pessoal sendo feminino. A grande maioria dessas, todavia, tinha um trabalho de caráter mais fabril, operando a Enigma, diferente de Ann, que tinha acesso às mensagens em si.  

Por conta de seu cargo alto, a senhora passou a ser chamada para dar palestras sobre o cotidiano em Bletchley Park, o que ela fazia com prazer. "Foi um impulso ter de repente ganhado importância no fim da minha vida, passar de ninguém a alguém. Todo um passado em que ninguém estava interessado e de repente muitas pessoas estão. É muito estranho", declarou a matemática, de acordo com a BBC. 

Ann Mitchell morreu em maio desse ano em decorrência da covid-19, aos 97 anos, na casa de repouso em que vivia. “Estou satisfeito por ela ter recebido o reconhecimento por uma vida bem vivida”, afirmou seu filho. 


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