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Antes do Rock in Rio: A conturbada e marcante passagem do Queen na América Latina

A turnê, que contou até com o encontro da banda com Diego Maradona, ficou marcada por subornos, alguns apertos e muita excentricidade

Caio Tortamano Publicado em 16/05/2020, às 17h00

Membros do Queen no Estádio do Morumbi
Membros do Queen no Estádio do Morumbi - Divulgação

Por onde quer que passasse o Queen deixava a sua marca. Foi assim em absolutamente todos os lugares que esteve, muito por conta da personalidade gritante de Freddie Mercury, que levava estádios inteiros ao delírio devido sua confiança e vitalidade nos palcos. 

Mas não somente neles, os bastidores de suas turnês reúnem uma série de grandes histórias e a do Brasil de 1981 — antes da lendária apresentação no Rock in Rio de 1985 — contou com alguns absurdos.

O grupo enxergava o país de maneira preconceituosa, bem como acontecia com a maior parte dos estrangeiros, de forma exótica e selvagem em um preconceito que tende a perdurar até os dias hoje. Contudo, eles tiveram alguma razão quando acharam estranhos se depararem com alguns absurdos.

Argentina

Além de vir para o Brasil, o Queen se apresentou na Argentina. A ideia de Freddie era fazer uma turnê do tamanho que faziam na Europa ou nos Estados Unidos. Para isso, a produção alugou um escritório em Buenos Aires para tratar de todas as apresentações que iriam fazer no continente sul americano.

Chegando na Argentina, o país vivia sob um regime militar ditatorial, então foram alertados de que as leis eram levadas bem a sério no país. Dito isso, a dica era de que não usassem drogas, “este é um país católico” ouviram os astros do rock de um dos produtores.

O show que eles iriam fazer seria no estádio de futebol onde joga o time do Vélez Sarsfield, e como eles gostariam que a pista ficasse no próprio campo — como era costume em diversos locais do mundo  — trouxeram grama artificial para cobrir o atual gramado. Além desta vez em Buenos Aires, a banda ainda tinha que fazer um show em Córdoba, mas foi cancelado sem nenhum motivo aparente.

Por conta da instabilidade política que havia no país após uma série de golpes de estado bem e mal sucedidos, a organização pediu que a banda não tocasse o clássico Don’t Cry for Me, Argentina. Dessa forma, o evento não correria o risco de tomar um ar politico e de protesto.

Uma das passagens mais marcantes de Freddie, Bryan May, Roger Taylor e John Deacon com os hermanos foi, sem dúvidas, o momento em que conheceram Diego Maradona no camarim antes do show. Em uma sessão de fotos, Mercury aparece mostrando o traseiro para a câmera.

Queen e Maradona / Crédito: Divulgação

 

Brasil

Mais de 100 toneladas de equipamento foram trazidas do Reino Unido até a Argentina, e esse peso todo teria que ser levado de caminhão até o Brasil. Quando a equipe chegou na fronteira ao sul do país, tiveram que pagar uma — alta — quantia suspeita em dólares americanos para que tudo que fosse necessário entrasse em território brasileiro.

Provavelmente sem ter consciência disso, entre os guarda costas, que faziam parte da segurança da banda durante os shows em São Paulo nos dias 20 e 21 de março, havia membros do chamado Esquadrão da Morte. Essa era uma ramificação não oficial da polícia militar que cometia sérios delitos contra os direitos humanos, principalmente execuções de pessoas inocentes e abordagens extremamente violentas.

Mercury contou que mesmo sendo parte de sua própria segurança, os homens eram realmente ameaçadores, e pareciam “aqueles policiais realmente brutais, capazes de matar pessoas por qualquer motivo banal”.

Os shows foram realizados no Estádio do Morumbi, no qual os equipamentos de luz alugados pela equipe tiveram problemas e foram substituídos. Curiosamente, esses novos spots tinham a logo da banda Earth, Wind and Fire, e depois os produtores vieram a descobrir que se tratava do equipamento confiscado da banda, que realizou turnês no país no ano anterior.

Membros do Queen tiram foto no Morumbi antes de show em São  Paulo / Crédito: Divulgação

 

Com medo de serem as próximas vítimas da alfândega extremamente seletiva do Brasil, logo depois do show as toneladas de equipamentos foram levados para o aeroporto. Um dos integrantes da produção ficou 18 horas esperando no mesmo lugar para que nenhuma peça da equipe sumisse antes de embarcar de avião até os Estados Unidos.

São Paulo foi a única parada do Queen no Brasil, mas não por opção deles. Um show estava marcado para acontecer em Belo Horizonte, mas foi cancelado sem nenhuma explicação maior. Além disso, a banda tinha muito interesse em tocar no Maracanã.

O governador carioca na época, Chagas Farias, entretanto, era contra a concessão do estádio (de posse do governo estadual até os dias de hoje) para um evento que não fosse de relevância desportiva, religiosa ou — pasmem — cultural. Mesmo diante dessa leve alfinetada os britânicos se ofereceram até a fazer doações generosas para os projetos da primeira-dama do Rio, mas nada disso foi suficiente.

Queen só viria a se apresentar na Cidade Maravilhosa, em 1985. O resultado é o que ficou na memória das 300 mil pessoas que acompanharam Love of My Life ao vivo — recorde de público que, até hoje, não foi batido.


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