Matérias » Inglaterra

Bethlem Royal Hospital: os horrores do hospício mais macabro da Era Vitoriana

Fundado em 1247, o Bedlam — como ficou conhecido — recebia visitantes que pagavam para ver os pacientes sofrendo extrema tortura

Fabio Previdelli Publicado em 09/02/2020, às 08h00

Pacientes do Bethlem Royal Hospital de Londres
Pacientes do Bethlem Royal Hospital de Londres - Divulgação/ News Dog Media

Em toda sociedade, independente a que período ela pertença, existem casos de pessoas que sofreram por algum problema mental. Felizmente, com o passar do tempo, esses distúrbios começaram a ser estudados amplamente. Pacientes com essas patologias foram vistos com um olhar mais humano.

Com o abandono de técnicas médicas ultrapassadas, asilos insalubres deram espaços a modernos hospitais psiquiátricos. No entanto, ao decorrer da história, existiu um manicômio tão notório que seu nome entrou para o dicionário inglês como sinônimo de caos e confusão. Essa instituição é o Bethlem Royal Hospital de Londres — apelidado de Bedlam.

Cena do Bethlem Royal Hospital / Crédito: Wikimedia Commons

 

Fundado em 1247, o Bedlam é o centro mais antigo da Europa dedicado exclusivamente ao tratamento de pessoas com doenças mentais. A instalação foi fundada pelo bispo italiano Goffredo de Prefetti e construída diretamente sobre um esgoto que frequentemente transbordava.

Inicialmente, o local não servia como um centro para abrigo de loucos, mas sim para ajudar a arrecadar dinheiro para as Cruzadas por meio da coleta de esmolas. Não há uma exatidão quando o lugar passou a receber indigentes que muitas vezes apresentavam casos de distúrbios mentais.

O que se sabe, é que em 1330, a instituição já era referida como um hospital e que por volta de 1.600 seu controle foi transferido da igreja para o estado. Em 1975, a instalação, surrada e clamando por metros a mais de espaço, foi transferida para o norte de Londres, na cidade de Beckenham.

Desenho do Bethlem Royal Hospital de Londres / Crédito: Wikimedia Commons

 

Duas estátuas ameaçadoras foram instaladas na entrada do local: uma chamava Melancholy — que retratava uma pessoa calma — e outra ganhou o nome de Raving Madness — que mostrava uma pessoa acorrentada e zangada.

À medida que o lugar aglomerava mais esquizofrênicos, epiléticos e pessoas com dificuldades de aprendizado, o tratamento de enfermos tornou-se mais sinistro. Uma dos tratamentos foi a chamada terapia rotacional: que consistia em um paciente ser colocado em uma cadeira suspensa, onde era girado — às vezes a mais de 10 rotações por minuto — com a ajuda de um médico.

Frequentemente, o paciente vomitava e experimentava vertigem extrema. Apesar da aparente crueldade, essas práticas eram vistas como reações saudáveis para uma potencial cura.

Em 1728, James Monro virou o médico chefe do Bedlam — iniciando uma dinastia da família Monro que durou cerca de quatro gerações. Com a mudança de tratamentos farmacêuticos para cirúrgicos, os procedimentos de tratamento pioraram.

Melancholy e Raving Madness / Crédito: Wikimedia Commons

 

Os pacientes eram rotineiramente espancados, mergulhados em banhos gelados e deixados longos períodos em jejum. Os internos também foram submetidos a tratamentos com sanguessugas, terapia com ventosas e indução de bolhas.

Os tratamentos eram tão severos, que o lugar se recusava a admitir pacientes considerados pouco propensos a resistirem às intervenções. Investigações contemporâneas revelaram valas comuns na propriedade, que eram destinadas para aqueles que morreram sob os cuidados médicos do Bedlam.

Um outro período que ficou muito marcado por atos de crueldade foi quando o centro abriu suas portas para o público. Inicialmente, o ato visava que membros da família pudessem visitar os enfermos que estavam em tratamento no local.

Lamentavelmente, os mandatários da instituição foram seduzidos pelo dinheiro das famílias ricas de Londres que pagavam para visitar o manicômio e observar os enfermos como se fizessem parte de um zoológico humano de aberrações, ficando maravilhados com cada surto psicótico que presenciavam ao seu redor.

Bethlem Royal Hospital de Londres atualmente / Crédito: Wikimedia Commons

 

Por sorte do pacientes, os tempos mudaram. O centro médico de Bedlam renunciou às práticas obsoletas e imorais e hoje a equipe da instituição trabalha ao máximo para dar o melhor tratamento possível para os internos. No local, até existe um espaço dedicado a exibir obras de arte criadas pelos enfermos da instalação.


+ Para saber mais sobre a história dos manicômios:

Diário do hospício & O cemitério dos vivos, Lima Barreto, 2017 - https://amzn.to/38aFnch

Manicômio Judiciário. Da Memória Interrompida ao Silêncio da Loucura, Elza Ibrahim, 2014 - https://amzn.to/2S5wgnA

Manicômios, prisões e conventos, Erving Goffman, 2015 - https://amzn.to/2OBdMcA

Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex, Ebook - https://amzn.to/31BYLMX

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, assinantes Amazon Prime recebem os produtos com mais rapidez e frete grátis, e a revista Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.