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De ossos de vidro a reencarnação de São Jorge: a insana saga do monarca Carlos VI

O monarca francês supostamente sofreu de esquizofrenia

Fabio Previdelli Publicado em 19/01/2021, às 09h30

Carlos VI, rei da França
Carlos VI, rei da França - Wikimedia Commons

Carlos VI nasceu em Paris no dia 3 de dezembro de 1368. Filho de Carlos V, da casa de Valois e Joana de Bourbon, o monarca não chegou a conhecer seus irmãos mais velhos, pois os primogênitos morreram antes mesmo dele nascer e, assim, foi instituído Delfim da França.

Contexto histórico

O mundo em que ele nasceu passou os últimos 50 anos em plena deterioração, muito por conta de quase ser dizimado pela peste negra. Ele tinha apenas 11 anos quando herdou o trono. Seu reinado foi uma mera formalidade até os 21 — quase sete anos a mais dos quais já era considerado legalmente maior de idade.

Isso aconteceu muito em virtude da situação terrível que o país passava por estar envolvido na Guerra dos Cem Anos. Ele se casou aos 17 anos, com Isabel de Baviera, quando ela tinha apenas 14. O casal teve 12 filhos, mas a maioria deles morreu quando jovens.

Retrato do rei da França, Carlos VI / Crédito: Getty Images

 

Antes de assumir o trono, a França era regida por seus tios que desperdiçaram os recursos financeiros em proveito próprio. Quando Carlos assumiu, ele restaurou o poder aos conselheiros competentes de seu pai, os chamados Marmousets.

Por um tempo, Carlos VI foi amplamente chamado de Carlos, o Amado, pelas novas perspectivas positivas que ele restaurou na França. Mas tudo viraria de ponta cabeça.

Indícios de esquizofrenia

Ao crescer, ele começou a dar indícios de instabilidade mental e emocional, provavelmente provindas de uma esquizofrenia. Durante uma viagem de caça com seu séquito, ele ficou completamente furioso e agarrou uma espada e de repente cortou um de seus cavaleiros, matando-o no local.

Coroação de Carlos VI / Crédito: Wikimedia Commons

 

A expedição foi interrompida e ele retornou à Paris. Apesar do episódio de insanidade, como nada pudesse ser feito, Carlos, recém batizado de o Louco, foi autorizado a continuar no trono. Embora muitos concordassem que durante os momentos de lucidez, o reinado dele era ótimo, essas recordações foram se perdendo com o tempo.

Um ano após a fatídica viagem, o soberano já não se lembrava mais de seu nome e não reconhecia a própria esposa, quando recebia visitas dela, ele ordenava para que seus atendentes ajudassem no que ela precisava e depois a dispensava.

Ilustração São Jorge e o Dragão, de Gustave Moreau / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ele passou a maior parte do inverno alegando ser São Jorge e insistiu para que o brasão da família fosse redesenhado para refletir isso. 

O declinío 

Segundo o Papa Pio II, o monarca passou vários meses recusando-se a tomar banho e ameaçava matar quem o tocasse, pois ele imaginava ser feito de vidro e poderia quebrar a qualquer instante.

Efígies de Carlos VI e Isabel da Baviera,na Basílica de Saint-Denis / Crédito: Wikimedia Commons

 

Durante seu período de loucura, a França, por consequências, também ia de mal a pior. O tesouro estava vazio, apesar dos impostos esmagadores, a guerra estava indo tão mal quanto possível e muitas reuniões aconteciam para barrar seu reinado. Eventualmente, os franceses perderam a guerra e o Tratado de Troyes foi assinado pelo incapaz rei louco.

Carlos VI, antes conhecido como Carlos, o Amado, mais tarde conhecido como Carlos, o Louco, morreu de causas naturais em 1422, antes de completar 54 anos. Sua morte deu início a uma luta pelo poder entre seu neto, Henrique VI da Inglaterra, e seu filho, Carlos VII. Eventualmente, Carlos VII venceria e se tornaria o próximo Rei da França.


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