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Biscoito: Instrumento de guerra

Desde a antiguidade, soldados eram basicamente movidos a biscoito, criado para a guerra (ou seria bolacha? também aqui)

sexta 30 março, 2018
Ao menos com o capacete a gente concorda no nome
Ao menos com o capacete a gente concorda no nome Foto:Shutterstock

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A ideia não podia ser mais simples: assar um pão uma segunda vez, para retirar toda a água. Bactérias e fungos não podem viver sem água – com isso, você tem um alimento quase indestrutível. 

Obviamente, ninguém tinha ouvido falar de micro-organismos quando eles foram criados. Biscoitos talvez sejam pré-históricos, das primeiras receitas preparadas com a domesticação dos cereais. Os marinheiros egípcios já carregavam consigo um bolo duro chamado dhourra. E os romanos haviam chegado à forma final, com seu buccellatum – de buccella, “bocada”. O Código de Teodósio, a compilação de leis romanas de 429, exigia que a ração dos legionários incluísse o buccellatum, e receitas sobreviveram. Era praticamente igual a um biscoito água e sal moderno, feito de farinha, água e sal, incluindo azeite em algumas variações. Era assado uma vez e depois retornado a um forno mais frio, para retirar toda a umidade. 

Daí vem a palavra “biscoito”, do latim medieval biscottum – “cozido duas vezes”. Já era usada no tempo das cruzadas. Biscoitos, chamados já assim, estavam presentes nos navios que levaram os portugueses ao Brasil e aos confins da Ásia no século 16. Era o combustível das Grandes Navegações.

Esses biscoitos, diferentes  dos que são comprados no pacote hoje, eram estritamente utilitários. Um biscoito militar típico – que os britânicos chamavam de hardtack, algo como “grude duro” – era espesso e denso a ponto de ser intragável por si só. Literalmente, era possível quebrar os dentes neles. Os soldados então os amoleciam com água, sopa, chá etc., ou chupavam ao longo de horas.

Um hardtack da Guerra Civil Americana Reprodução / Youtube

Foi no século 19, com os processos industriais modernos, que biscoitos caíram no gosto dos civis. Basicamente como versões mais leves da dura ração de guerra, sem a capacidade de resistir tanto – ou quebrar dentes.  

Não é exagero dizer que biscoitos são para sempre. O youtuber Steve Thomas, que fez carreira provando rações militares guardadas por muitas décadas, bateu seu próprio recorde ao sobreviver a um biscoito da Guerra Civil Americana, assado em 1863. “Tem gosto de naftalina e livro velho”, afirmou. Mas comeu assim mesmo.


E a bolacha?

Reprodução

É com dor no coração que nós, uma publicação de São Paulo, admitimos que “biscoito” é a palavra com tradição histórica mais estabelecida. Quanto a “bolacha”, é uma palavra portuguesa, com certeza, que apareceu em navios do século 16. Mas sua etimologia não é tão bem esclarecida – nem por que cargas d’água dividiu o país como divide. A tese mais aceita é de que seja uma variação de “bolo”. Ainda que hoje seja um exato sinônimo para o velho biscoito.

Fabio Marton

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