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Kowloon: Cidade das Sombras

No monstruosa favela vertical de Hong Kong, a luz não chegava ao chão. 2 pessoas por metro quadrado viveram no mais denso povoamento humano já feito

terça 10 julho, 2018
Vista superior da cidade
Vista superior da cidade Foto:Reprodução / Ian Lambot

Era 23 de março de 1993 quando os tratores se postaram diante de uma das mais impressionantes, se não exatamente fáceis para os olhos, criações da espécie humana. A morbidamente fascinante Cidade Murada de Kowloon concentrou a maior densidade populacional jamais experimentada pelo homem.

Um ano depois, em abril de 1994, coincidindo com a morte de Kurt Cobain, do Nirvana, estava feito. A favela não mais existia. Para o governo, já ia tarde o lugar mais caótico de Hong Kong, uma ferida aberta na paisagem, uma vergonha diante do mundo. Mas, para seus milhares de moradores, o triste adeus a uma comunidade vibrante, que conseguiu prosperar de forma autônoma por quase 40 anos, sem qualquer ajuda governamental.

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Em seu apogeu, no final dos anos 80, a Cidade das Sombras, como era conhecida, tinha construções de 40 metros de altura e abrigava em seus 27 mil metros quadrados, o equivalente a pouco mais que dois campos de futebol, cerca de 50 mil habitantes. Isso dá quase duas pessoas por metro quadrado.

Milhares de pessoas tocavam sua vida diariamente e muitas se contentavam com o espaço que tinham nas varandas – para plantar, por exemplo – logo acima de lojas lotadas Greg Girard

“Os residentes da favela tiveram sucesso ao criar o que arquitetos modernos, com todos os seus recursos e expertise, não conseguiram: uma megaestrutura orgânica, que respondia às constantes mudanças de seus usuários”, diz o jornalista Peter Popham em City of Darkness: Life in Kowloon Walled City ("Cidade das Sombras: Vida na Cidade Murada de Kowloon", sem tradução).

Fortaleza murada

Diferentemente da maioria das grandes favelas, que surgem de cortiços, sob viadutos, ou em áreas descampadas, a Cidade das Sombras se sobrepôs às ruínas de um antigo forte amuralhado. Desde o período da Dinastia Song (960 a.C.-1279), havia, ao norte da península de Kowloon, um pequeno posto militar que era usado para gerenciar o comércio de sal e monitorar piratas que espreitavam a região.

“Esse posto se manteve esquecido até 1842, quando os chineses precisaram dele novamente para proteger a península de Kowloon”, comenta a historiadora Diana Preston, da Universidade de Oxford, sobre a tentativa desesperada da China em conter a expansão dos britânicos, que já haviam tomado a ilha de Hong Kong após a primeira Guerra do Ópio.

O antigo posto transformou-se, então, em uma cidade murada, que foi posta à prova diversas vezes. Sua sorte, porém, não duraria para sempre. Em 1898, o domínio da Grã-Bretanha se estendeu e a China foi obrigada a ceder a ela os chamados “Novos Territórios” de Hong Kong, incluindo 235 ilhas vizinhas e Kowloon. “Os britânicos puderam usufruir dessas regiões por 99 anos”, comenta o jornalista Pepe Escobar em seu livro 21, O Século da Ásia.

Em 1899, a península já estava completamente dominada, e a fortificação, rendida ao controle inimigo, foi poupada da destruição e deixada em segundo plano.

Fora do Estado

Nas décadas seguintes, alguns de seus antigos armazéns e casebres foram convertidos em igreja, asilo, escola e hospital. “Mesmo com as intervenções, a cidade murada não perdeu sua antiga essência e tornou-se uma atração para colonos e turistas ingleses”, comenta a jornalista Julia Wilkinson no livro City of Darkness.

Com o tempo, os governos britânico e chinês começaram a ver a anárquica cidade como algo cada vez mais intolerável – apesar da baixa taxa de criminalidade relatada Greg Girard

Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão invadiu Hong Kong. A cidadela foi totalmente evacuada e sua muralha, demolida. O entulho serviria de material de construção para as obras de expansão do antigo aeroporto internacional de Tai Kai, que ficava ali ao lado e atendia aos militares.

Nesse meio-tempo, os britânicos ainda tentaram reaver o controle de sua colônia, mas só obtiveram êxito em 1945, com o fim da guerra. A Cidade “Murada” lhes escapou aos dedos. Durante a ocupação japonesa, as fronteiras com a China foram abertas e, sem suas muralhas, a cidadela recebeu milhares de refugiados, incluindo marginais e anticomunistas em busca de asilo político.

Depois de uma tentativa fracassada de evacuar a área em 1948, os britânicos preferiram lavar as mãos. A polícia de Hong Kong não tinha permissão para entrar na favela que havia se formado sobre os escombros e a China continental se recusava em dar um jeito na baderna. Com isso, o local passou a existir por si só, desprovido de quaisquer serviços públicos, como segurança, saúde, educação, água e eletricidade.

Oásis do caos

Em meio à anarquia, a favela prosperou. Sem poder crescer para os lados, pois não tinha permissão de avançar um centímetro sequer sobre território britânico, começou a subir como um único bloco estrutural, uma escabrosa façanha que até hoje intriga a mente de físicos e engenheiros civis.

Vendo a encrenca aumentar de tamanho, as autoridades britânicas tentaram intervir de todas as formas. Especula-se até que tenham encomendado um incêndio criminoso que desestabilizou a comunidade na década de 50. Fato é que só conseguiram furar seu bloqueio quase dez anos mais tarde, depois que um assassinato ocorrido lá dentro provocou um impasse diplomático com a China.

Quem trabalhava com processamento de alimentos admitiu a mudança para a cidade para se beneficiar dos aluguéis baixos e evitar a jurisdição dos inspetores governamentais de saúde e saneamento Greg Girard

Como era uma terra sem lei, facções criminosas conhecidas por Tríades, como 14K e Sun Yee On, promoviam negócios ilícitos, controlando o narcotráfico, bares de ópio, redes de prostituição e de casas de jogos de azar ali instaladas. Além disso, os criminosos acolhiam médicos e dentistas sem registro para atender a população local e até financiavam esquemas para abastecer a cidade com água encanada e energia elétrica. Kowloon era o lugar para ir se você quisesse evitar ter contato com a Justiça.

Civis 

Apesar das notícias e estereótipos que corriam por Hong Kong e o mundo, a maioria de seus moradores era gente trabalhadora, que não se envolvia com a criminalidade e vivia pacificamente com a vizinhança. Chan Pui Yin, proprietário de uma loja e residente da Cidade das Sombras por mais de 40 anos, descreve:“Não existiam assaltos – apesar de os criminosos usarem a cidade para se esconderem, todos se conheciam, então ninguém nunca tentava se machucar. Era um pouco como a vida nos vilarejos da China antigamente”.

Os gritos das crianças brincando nos telhados eram constantemente abafados pelo som dos motores a jato, quando os aviões passavam pelos 100 metros finais de pista no aeroporto de Kai Tak Greg Girard

Numerosas fábricas, lojas e comércios familiares também prosperavam ali, e alguns civis até se reuniam em associações para discutir e propor melhorias. Existia uma rede de coleta de lixo, um jardim de infância, várias ONGs de reabilitação de dependentes químicos e até um corpo de bombeiros voluntário. “Ainda assim, histórias sensacionalistas da cidade foram contadas durante esse período”, comenta Seth Harter, professor de estudos asiáticos, em Hong Kong’s Dirty Little Secret (O Segredinho Sujo de Hong Kong, sem tradução).

Era um reduto onde os chineses podiam viver entre os seus, sem pagar impostos ou serem perseguidos por fiscais da colônia à procura de explicações sobre vistos, taxas, condições de trabalho ou de higiene. Ali, todos podiam negociar, prosperar e enriquecer.

Uma das muitas pequenas lojas da cidade para o comércio de itens essenciais, como papel higiênico e comida enlatada. Também é possível ver cigarros expostos Greg Girard

Na Cidade Murada, gente desocupada não tinha vez. Os jovens, por exemplo, aprendiam desde cedo, com os pais, algum tipo de ofício e o desenvolviam na prática para que no futuro pudessem se garantir sozinhos ou até mesmo abrir seus próprios negócios. Diversos casos mostrados no livro City of Darkness transmitem uma noção clara de como havia dignidade no modo de viver dos moradores da favela e de como era latente o preconceito dos que a enxergavam do lado de fora. “A população da grande Hong Kong não acreditava que alguém da própria comunidade pudesse ser bem-sucedido”, comenta Harter.

Velas sombrias 

Quanto ao seu crescimento espacial, o lugar passou por um boom durante a década de 60, que se manteve em ritmo crescente até o fim dos anos 80. Por quase 30 anos, cerca de 500 edifícios não licenciados surgiram sem planejamento, formando um conglomerado de pequenos apartamentos.

Por serem tão próximos, os edifícios da favela impediam a circulação de ar em seu interior. Empilhados uns sobre os outros, tinham varandas gradeadas e uma rede compartilhada de escadas verticais conectada a um labirinto de ruas sujas, úmidas e escuras. A sujeira vinha do lixo atirado da janela pelos moradores com menos consideração. A umidade, dos canos e roupas pingando do alto – o que obrigava os habitantes a andar com capas ou guarda-chuvas no solo. E a escuridão, do fato que o espaço todo, até o último andar, era tomado por fios, canos, varais e extensões das construções. Misericordiosamente, aqui e ali havia lâmpadas fluorescentes,quando muito, que eram postas pelos próprios moradores.

Greg Girard

Essa enorme estrutura modular só parou de crescer quando uma restrição em relação à sua altura foi imposta pelas autoridades. Devido à trajetória de voo dos aviões que subiam e desciam do aeroporto de Kai Tak, havia a possibilidade de uma colisão ocorrer caso os prédios não parassem nos 14 andares. Se não fosse por isso, provavelmente chegariam a níveis mais elevados, comparados aos de modernos arranhacéus vizinhos.

Adeus ao lar 

Apesar de o crime organizado ter diminuído na década de 70, após uma série de incursões policiais que resultaram em mais de 2 500 prisões e o enfraquecimento das Tríades, com a aproximação de 1997, data de devolução das posses britânicas à China comunista, as autoridades concluíram que não era “bonito” manter uma favela dentro de Hong Kong. “Em 1987, sem negociar com a comunidade, o governo desapropriou os moradores e as empresas da favela, mediante compensações financeiras muito menores do que mereciam”, comenta, em City of Darkness, o fotógrafo Greg Girard.

A medida teve a aceitação de alguns, mas foi reprovada por uma maioria esmagadora, que foi despejada à força e obrigada a recomeçar sua vida do zero. De 1988 a 1992, as moradias, então, se esvaziaram lentamente. Em entrevistas a emissoras locais, muitos argumentavam que a compensação oferecida era humilhante e não valia a pena se comparada ao paraíso isento de impostos que a favela proporcionava.

Para quem morava nos andares superiores da cidade, o telhado era um santuário inestimável: um respiro de ar fresco em relação à claustrofobia dos apartamentos inferiores sem janelas Greg Girard

Finalmente, em janeiro de 1993, a Cidade das Sombras se esvaziou por completo. Com a eletricidade interrompida, suas quitinetes, barracões e vielas abandonadas se apagaram em silêncio antes que as máquinas de demolição iniciassem o estrondoso ruído do “progresso”.

Na área, desde 1995, funciona o Parque da Cidade Murada de Kowloon, ornamentado com belos jardins do início da Dinastia Qing (1644-1912) e dividido em setores batizados com os nomes de construções e vielas da antiga fortaleza, mas que em nada recordam a ela. Maquetes em pequena escala são a única lembrança física de um dos mais singulares experimentos da História, a aterradora mas familiar face do que, para até 50 mil pessoas, um dia foi chamado de lar.


A vida em Kowloon

A cidade Reprodução

➽ Havia 77 poços na cidade, alguns com 90 metros de profundidade. Bombas elétricas levavam água até grandes tanques nos telhados. De lá, tubos estreitos iam até as casas.

➽ Sem serviços municipais, o descarte de itens volumosos acontecia nos telhados, onde objetos eram abandonados. As áreas com torres altas interconectadas eram erguidas sem arquitetos e engenheiros, sem o controle das regras de construção e saneamento de Hong Kong.

➽ No nível da rua, misturavam-se dentistas e médicos sem licença, barracas e cafés – com cães no menu. Carne e outros alimentos vinham de locais com pouco ou nenhum saneamento.

➽ Existiam muitas escolas e jardins de infância, alguns controlados por organizações como o Exército da Salvação.

➽ Pequenas lojas de fabricação de metais compunham boa parte das cerca de 700 instalações industriais. A maioria ficava entre o solo e o quinto andar 

➽ Alguns telhados serviam para se exercitar, relaxar e até para corridas de pombo.

➽ Moradores usavam guarda-chuvas para se protegerem da água pingando de canos, de forma constante, nos becos estreitos.

➽ Os traficantes de heroína eram muitos, mas intocáveis. A polícia não podia prender não residentes.

Marcelo Testoni


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