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Clare Hollingworth, a jornalista que deu o grande furo da Segunda Guerra

Com apenas uma semana no The Telegraph, a correspondente de guerra foi responsável por dar a notícia do início do grande conflito mundial

Isabela Barreiros Publicado em 01/09/2020, às 17h22

A correspondente de guerra Clare Hollingworth
A correspondente de guerra Clare Hollingworth - Divulgação/General Cost Library

O período entre os últimos dias de agosto e o começo de setembro de 1939 foi essencial para definir o que aconteceria nos anos seguintes. Naquele momento, uma dúvida ficava no ar, transformando-se em medo e descrença. Seria a segunda vez no mesmo século em que o mundo se enfurecia e virava o cenário de uma guerra.

Mas, como se trata de um evento tão grande, o momento exato em que a batalha foi anunciada quase nunca é colocado como uma questão: geralmente não nos perguntamos sobre ele. Quanto à Segunda Guerra, os veículos de informação ficavam à espreita tentando identificar quando o conflito se tornaria, de fato, oficial. E eles conseguiram definir isso, a partir da atuação de uma jornalista.

A correspondente de guerra

Clare Hollingworth nasceu em Knightone, no Reino Unid, e era filha de um dono de uma fábrica de sapatos. Embora fosse apaixonada por escrita, nunca teve o apoio de seus pais tanto nesse gosto tradicional e outro mais incomum: a guerra. Nascida em 1911, já tinha vivido o terrível período da Primeira Guerra Mundial.

Esse interesse veio muito de seu pai, que a levava para locais que representavam inúmeras batalhas, como o Bosworth Field, onde ocorreu a última ofensiva da Guerra das Rosas, em 1485, e Naseby, região em que foi travada uma das lutas da Guerra Civil Inglesa, que terminou em 1651. Os dois faziam piqueniques enquanto o homem descrevia as batalhas para a jovem.

No entanto, por mais que alimentasse a paixão peculiar da filha ao contar detalhes sobre guerras sangrentas, não a apoiava nessa questão. Pelo contrário: Clare foi até mesmo enviada para uma faculdade de ciências domésticas em Leicester, onde deveria aprender a cuidar da casa e a ser uma dama. Ela, porém, não gostou nada do tempo que passou lá.

A mulher não se deixou levar pela obrigatoriedade imposta por seus pais para a vida de dona de casa. Tempos depois, trabalhou na Liga das Nações, em Genebra, ganhou uma bolsa para estudar na Escola de Estudos Eslavos e do Leste Europeu da UCL em Londres, e ainda causou uma boa impressão no Partido Trabalhista em 1940, que até mesmo a chamou para concorrer a uma cadeira parlamentar no distrito de Melton.

Todos esses passos foram importantes para Hollingworth, mas ela ainda não tinha encontrado sua maior vocação, pela qual viria ficar mundialmente conhecida. Pouco antes do estourar da Segunda Guerra, ela começou a escrever esporadicamente, como freelancer, para a revista britânica New Statesman. O gosto pelo jornalismo tinha apenas começado.

Três dias antes

Clare Hollingworth e Geoffrey Hoare / Crédito: Divulgação/General Cost Library

 

Antes de se tornar uma das jornalistas mais importantes da história, Hollingworth atuava no sigilo para ajudar refugiados a fugirem da Alemanha Nazista. Ela era responsável por negociar a emissão de vistos para essas pessoas, no intuito que elas fossem levadas, em segurança, para a Grã-Bretanha.

Como representante do Comitê Britânico de Refugiados, acredita-se que ela tenha ajudado entre 2 mil e 3 mil pessoas com sua entrada na região britânica. Isso, porém, era mantido como segredo e não era conhecido pelo público até pouco tempo atrás, quando uma das refugiadas salvas pela voluntária agradeceu a ajuda abertamente.

Essa atuação também chamou a atenção do editor do The Daily Telegraph, um dos mais importantes jornais britânicos da época, Arthur Watson. Assim, ela foi contratada pelo veículo de imprensa em agosto, pouquíssimo antes da Segunda Guerra vir se tornar a realidade dos países da Europa e do mundo.

Com apenas uma semana de trabalho no Telegraph, Hollingworth foi enviada para a Polônia como correspondente de guerra. Aos seus 27 anos, pediu emprestado o carro de um diplomata britânico e observou a movimentação estranha que estava acontecendo na fronteira entre o país e a Alemanha. Ela havia visto a invasão alemã da Polônia: carros blindados, canhões e tanques demonstravam a ofensiva nazista.

Três dias depois, foi acordada por um barulho estrondoso enquanto dormia em um quarto de hotel. Ouvindo o som exorbitante dos bombardeios na cidade polonesa de Katowice, bem próxima à fronteira. Ela telefonou para correspondente do jornal em Varsóvia, Hugh Carleton Greene alertando o que iria dar início a um dos mais sangrentos conflitos da história.

Logo depois, informou ao secretário da embaixada da mesma cidade: “A guerra começou”. Desacreditado, ele perguntou logo em seguida: "Tem certeza, garota?". Ela disse, então, que estava ouvindo a guerra. "Você não consegue ouvir?", questionou, colocando o telefone para fora da janela para que ele pudesse escutar por ele mesmo o som do terror.

Essa foi a primeira vez que o mundo ouviu que a guerra tinha começado. A jornalista, além de telefonar, também escreveu sobre o conflito que estava se dando primeiramente no país.

A nota escrita por Hollingworth / Crédito: Divulgação/The Daily Telegraph

 

Além da Segunda Guerra

Fora a sua importante atuação narrando o começo e o decorrer da Segunda Guerra Mundial, a correspondente de guerra também acompanhou outros confrontos que se deram no mundo. Ela é conhecida por ter retratado internacionalmente os horrores da guerra no Vietnã, da Revolução Cultural na China e dos conflitos que ocorreram principalmente na Argélia, no Oriente Médio e na Índia.

Após um longo período de atuação nos mais hostis territórios, Clare Hollingworth faleceu em Hong Kong, onde vivia há pelo menos 30 anos, em 2017. Ela morreu aos 105 anos de idade.


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