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Como a morte de um político fez o Brasil ter dois carnavais em um único ano

Em 1912, o evento que reúne foliões aconteceu em fevereiro e abril

Giovanna de Matteo Publicado em 20/09/2020, às 09h00

Foto de foliões no segundo carnaval do ano de 1912 no Brasil
Foto de foliões no segundo carnaval do ano de 1912 no Brasil - Reprodução/O Malho/Biblioteca Nacional

O ano de 1912 pode ter sido comum no restante do mundo, já no Brasil, ele foi palco de um evento que ficaria marcado na história. O fato é que naquele ano os brasileiros decidiram que comemorariam a tão amada festa do carnaval não apenas uma, mas duas vezes.

Três foliões comemorando o segundo carnaval do ano de 1912 no Brasil / Reprodução/O Malho/Biblioteca Nacional

 

Apesar de um sonho que se tornou realidade, isso não foi simplesmente planejado pelo povo. Por isso, a Aventuras na História vai desvendar como exatamente isso ocorreu.

Em 10 de fevereiro, num sábado, faltando exatamente uma semana para a esperada festa do carnaval, os brasileiros receberam uma notícia avassaladora: o herói nacional Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores há quase 10 anos na época, havia morrido de insuficiência renal, aos 66 anos. O Brasil inteiro parou. 

Foto do Barão do Rio Branco / Wikimedia Commons

 

No Rio de Janeiro, o caixão do barão foi levado até o Cemitério do Caju onde por todo o caminho foi acompanhado por brasileiros que lamentavam a morte do ministro, tendo até fila no Palácio do Itamaraty para que as pessoas conseguissem ver o cadáver do homem, que foi enterrado com nada mais, nada menos, que uma cerimônia que contou com honrarias de chefe de Estado.

A morte do político abalou tanto a população que várias escolas, principalmente as do Rio, que eram responsáveis pelo carnaval, e organizariam os blocos de rua, as marchinhas e os bailes à fantasia, decidiram cancelar o evento por conta do luto que assolava o país. Sabendo disso, e em solidariedade à morte de Rio Branco o presidente na época, Hermes da Fonseca, assinou um decreto que remarcava o carnaval para a semana da páscoa, em abril. 

Luto relâmpago

No entanto, o brasileiro, como fiel adorador da semana do carnaval, sentiu-se muito bem resolvido com seu luto após uma semana do acontecimento. Quando chegou o outro fim de semana, se dirigiu às ruas como se a festa nunca tivesse sido cancelada.

Os foliões vestiram fantasias, encheram-se de confetes e purpurinas, assim como também fizeram uso de lança-perfume, que na época ainda era legalizada e comum nas festas.

O presidente decidiu não fazer nada a respeito da decisão dos foliões, por medo de perder o mínimo de apoio público que ainda o restava, assim como também decidiu manter o decreto do "segundo carnaval".

Assim, a festa se seguiu normalmente, a não ser pela falta de presença dos clubes que promoviam os desfiles de samba e marchinhas, sendo então um evento exclusivamente promovido pela força do povo.

Charge em que criticava foliões acusando-os de desrespeito à morte do Barão do Rio Branco / Reprodução/O Malho/Biblioteca Nacional

 

Os foliões foram duramente criticados pela mídia, que alegou que estavam sambando sobre o túmulo de Rio Branco, desrespeitando o luto que devia estar ainda vivo no coração da nação. No entanto, isso não foi o suficiente para abalar aquele pequeno carnaval, que aconteceu normalmente.

A festa acabou, e depois de um mês lá estavam os agitadores nas ruas, novamente se esbanjando de alegria, convocando após a quaresma o segundo carnaval do ano. Historicamente incrível.


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