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Como a voadora em um torcedor mudou a carreira de Eric Cantona

Após ser expulso, o francês agrediu um torcedor quando saía do campo. Apesar disso, ele passou a ser apoiado pelo gesto: “O único erro de Eric Cantona foi parar de atingi-lo"

Fabio Previdelli Publicado em 18/04/2021, às 11h00

Cantona dando uma voadora em um torcedor
Cantona dando uma voadora em um torcedor - Divulgação

Considerado um dos maiores times do mundo, o Manchester United já teve muito dos melhores jogadores de todos os tempos vestindo sua camisa vermelha. Entre eles, um dos que mais marcou época foi o francês Eric Cantona.  

Jogando pelos Red Devils, como a equipe é chamada, Cantona marcou 82 gols e conquistou a liga inglesa em quatro oportunidades.

No clube, viveu diversos momentos vitoriosos ao lado do treinador Sir Alex Ferguson, entretanto, sempre que é questionado sobre qual deles prefere, ele é enfático: “Foi quando dei o chute de kung fu em um hooligan porque este tipo de gente não tem nada o que fazer em um jogo. Acredito que é um sonho para alguns dar um chute neste tipo de gente. Assim, eu fiz por essas pessoas, para que elas ficassem felizes”, recordou à BBC. 

Cantona com a camisa do United/ Crédito: Getty Images

 

O golpe teve diversas consequências negativas para Eric. Porém, ao contrário do que muitos possam imaginar, a vítima, Matthew Simmons, também ficou marcada de uma maneira não muito boa, afinal, posteriormente, descobriu-se seu envolvimento com grupos nacionalistas e fascistas, o que fez com que muitos atletas dissessem ter "ciúmes” do gesto do francês. Entenda! 

Segue o jogo 

Naquele 25 de janeiro de 1995, o time londrino do Crystal Palace recebia o United em seu estádio, o Selhurst Park. Conhecidos por cultivarem uma cultura ABU (“Anyone But United”, ou “Qualquer um, menos o United”, em tradução livre), os torcedores do Palace proferiam os mais diversos xingamentos quando os jogadores do Manchester pegavam na bola.  

Dentro de campo, o clima não era o mais amistoso e as coisas ficaram ainda piores para os Diabos Vermelhos quando Eric recebeu o cartão vermelho por chutar Richard Shaw, seu marcador durante o jogo. 

De cabeça quente, Cantona se dirigia para os vestiários quando Matthew Simmons, torcedor do Palace, desceu alguns degraus da arquibancada para xingá-lo, de maneira xenofóbica: "Volte para a França com a porr* da sua mãe, seu bastardo!". 

O jogador ouviu os xingamentos, mirou Matthew na arquibancada e, para surpresa de uma multidão de torcedores, saiu correndo em sua direção, o atingindo com uma voadora no peito. “Cantona enfrentou um torcedor e eles estão trocando socos. Em toda a minha vida não vi nada igual”, contou incrédulo naquele momento o famoso narrador da BBC Jon Champion, segundo relatou o jornal espanhol El DIário.  

Como explicou o The Guardian, em primeiro momento, o incidente parecia ter acabado quando a bola voltou a rolar. Inclusive, a principal frustação dos vermelhos naquela noite foi ter empatado com o Palace — afinal, uma vitória faria com que superassem o Blackburn e assumissem a liderança do campeonato.  

Naquela altura, Sir Alex Ferguson ainda não tinha real noção de tudo o que aconteceu com seu atleta. Até então, pensara que Cantona tinha sido arrastado para a multidão enquanto ele passava, explica o jornal britânico.  

Mesmo quando chegou em casa - e seu filho Jason deu a entender que o apocalipse o esperava ao ligar a televisão -, Ferguson decidiu deitar e enfrentar o dia seguinte. Porém, como conta o The Guardian, ele não conseguia dormir e finalmente assistiu ao vídeo por volta das 5 da manhã. 

Seu instinto inicial foi que Cantona teria de ser demitido e o conselho do United concordou com isso. Mas o advogado do clube, Maurice Watkins, aconselhou que tal ato poderia prejudicar qualquer processo legal e o Manchester esperou até a noite de quinta-feira para discutir o que iria fazer. Foi então que as coisas começaram a mudar de figura e Ferguson passou a defender a permanência de Eric.  

A punição de Cantona 

Apesar de reconsiderar sua demissão, o clube puniu o francês até o final da temporada, o impedindo de disputar outra partida. Posteriormente, a Liga Inglesa estendeu essa reclusão até setembro de 1995, o que significaria 8 meses foras dos gramados para Eric.  

Condenado por agressão pela Justiça britânica, Cantona foi condenado a duas semanas de prisão, porém, como explica o portal Premiere League Brasil, a pena foi revertida em 120 horas de serviço comunitário. 

Mas, afinal, o que fez o Manchester mudar sua postura? Acontece que com a agressão que sofreu, era evidente que o nome de Matthew Simmons iria rodar por toda a imprensa do Reino Unido. E não demorou muito para que os primeiros podres dele viessem à tona.  

Conforme explica matéria do PressFut, o rosto de Simmons não era tão desconhecido assim. Afinal, ele era figurinha carimbada nos comícios do National Front (ou “Frente Nacional Britânica"), um partido político de extrema-direita conhecido por suas ideologias populistas e por seu flerte ao fascismo.  

“O único erro de Eric Cantona foi parar de atingi-lo. Quanto mais descobrimos sobre o Sr. Simmons, mais o ataque de Cantona parecia a expressão instintiva de um julgamento moral sem falhas”, declarou Richard Williams, do jornal The Independent, eu um tom mais irônico.  

Torcedora do United com o rosto pintado com uma mensagem de apoio a Cantona/ Crédito: Getty Images

 

No programa Fantasy Football League, Nick Hancock, um ferrenho adepto do ABU, concordou que a voadora de Cantona foi “confortavelmente a melhor coisa que aconteceu nesta temporada — foi absolutamente brilhante”, aponta o The Guardian. Mais tarde, Ian Wright, ídolo do Arsenal e do próprio Crystal Palace, disse que sentiu “ciúme” de Eric. Logo ficou claro que o francês tinha um apoio esmagador entre os torcedores do United. 

O que aconteceu com Matthew Simmons? 

Apesar do holofote que conquistou na ocasião, Matthew Simmons acabou caindo no esquecimento popular por décadas. Porém, em 2011, ele voltou a estampar as páginas dos jornais por conta de outro episódio de agressão.  

Simmons, simpático a grupos neonazistas e que já tinha condenações anteriores por ofensas à ordem pública e uma tentativa de roubo, segundo o El DIário, agrediu Stuart Cooper, o técnico do time de seu filho de oito anos, durante uma partida de um campeonato para crianças.  

Segundo o Globo Esporte, Simmons se defendeu dizendo que Cooper havia tirado seu filho do time por saber de que ele havia sido agredido por Cantona e, por conta disso, temia que pudesse ser agredido. Assim, bateu no treinador como uma forma de se defender.  

Entretanto, sua versão não acabou ganhando muita credibilidade e, em abril daquele ano, Matthew acabou sendo condenado em um júri composto por cinco homens e duas mulheres. Como pena, foi condenado a reclusão por dois anos, durante os quais teve de cumprir 150 horas de trabalho voluntário.  

Além do mais, teve que indenizar Cooper em mil libras e desembolsar outras duas mil para custear o processo. Michael Hopmeier, juiz responsável pelo processo, comparou sua atitude a de um Hooligan: 

“Em 7 de agosto de 2010, seu filho e o filho da vítima estavam jogando um campeonato de futebol e você, por alguma razão desconhecida, decidiu agredir a vítima socando-o repetidamente no rosto e no corpo. Você agiu como um hooligan agressivo. É uma espécie de antagonismo em relação ao que você sofreu no passado”, declarou. 


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