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Futebol, homofobia e suicídio: Justin Fashanu, o primeiro jogador a se assumir gay publicamente

Considerado uma promessa do futebol inglês, Fashanu foi contratado por uma equipe bicampeã da Liga dos Campeões, mas acabou sendo desprezado quando revelou sua orientação sexual

Fabio Previdelli Publicado em 22/08/2020, às 09h00

Justin Fashanu com a camisa do Norwich City
Justin Fashanu com a camisa do Norwich City - Getty Images

Apesar de ser um esporte popular que se moderniza, de certa forma, com o passar dos anos, o futebol ainda tem campo para muitos tabus e preconceitos. Se dentro das quatro linhas sobram atletas multimilionários e influentes, fora delas ainda falta uma força que lute por uma maior representatividade no esporte.

Afinal, não é incomum nos depararmos com casos de racismo, machismo e homofobia em estádios, torcidas e até mesmo na mentalidade de dirigentes e atletas. Se faltam debates, sobram comentários e "piadas".

Mas um caso que deveria servir como tiro de meta para essas questões, foi deixada para escanteio com o passar dos anos. Entretanto, isso não significa que ela deva ser esquecida e que não possa ser revivida. Sendo assim, conheça a história de Justin Fashanu, o primeiro jogador a se assumir gay publicamente.

Justin Fashanu em ação pelo Norwich City / Crédito: Getty Images

 

Filho de um nigeriano e uma guianense, Justinus Soni Fashanu nasceu na humilde região londrina de Hackney. A primeira dura falta que Fashanu recebeu em sua vida foi logo quando nasceu. Renegado e abandonado pelos pais, ele e seu irmão mais novo, John, foram deixados em um orfanato.

O futuro futebolista tinha apenas cinco anos quando ele e o caçula foram adotados por Alf e Betty Jackson, que viviam em Attleborough, na região de Norfolk — que fica a cerca de 120 quilômetros da capital.

As incertezas em sua vida continuaram ainda na juventude. Aos oito anos, o racismo escancarado de uma sociedade conservadora o perseguira. Naquela ocasião, Enoch Powel, político do Partido Conservador fez um triste e marcante discurso contra a criminalização do preconceito racial. “Neste país, dentro de 15 ou 20 anos, o negro terá sob seu controle o homem branco”.

A superação através do esporte

Antes de se tornar boleiro, o garoto parecia trilhar cada vez mais o caminho do sucesso em outro esporte: o boxe. Duas vezes finalista dos pesos pesados, ele tinha tudo para se tornar um pugilista profissional. Mas um persistente olheiro do tradicional Norwich City o convenceu do contrário.

Aos 17 anos, em janeiro de 1979, debutou profissionalmente como a camisa verde amarela do time que carregava o nome da cidade. Dentro de campo, sua velocidade força física o ajudaram a driblar os mais duros zagueiros ingleses, mas foi sua mente e persistência que o ajudou enfrentar os torcedores racistas espalhados por todo o país — que quase sempre o recepcionavam imitando sons de macaco ou arremessando bananas em campo.

Artilheiro do time, marcou 40 gols em três temporadas pelo Norwich, um deles, inclusive, o marcaria para o resto da vida. Naquele 9 de fevereiro de 1980, sua equipe enfrentava o todo poderoso Liverpool, para o qual perdia de 3 a 2 até os 74 minutos, quando Fashanu marcou um belíssimo gol de sem pulo, empatando a partida. Aquele, mais tarde, viria a ser o “Gol da Temporada”.

Mas antes mesmo dessa atuação de gala, seu talento já chamara a atenção de Brian Clough, técnico do Nottingham Forest, que na época era bicampeão da Liga dos Campeões da UEFA. A partir daquele momento, Fashanu se tornava um marco: o jogador negro mais caro do futebol inglês, sendo vendido por um milhão de libras.

Mas sua estrela não brilhou dessa vez, marcando apenas três gols em 32 partidas. Assim, os rumores sobre sua vida extracampo começaram a crescer, principalmente os preconceituosos que falavam das idas e vindas de Justin a boates gays na pequena Nottingham. Esse murmurinho logo chegou aos ouvidos do linha dura Clough, que era bastante conservador.

Sua aversão a orientação sexual de Fashanu era tamanha que o treinador o proibiu de treinar com o resto do time. Em uma ocasião, por exemplo, o Clough chamou os policiais para impedi-lo de entrar em campo. Era o final de sua passagem pelo time.

Assim, foi emprestado ao Southampton e, depois desse período, foi comprado por 100 mil libras pelo Notts County, clube de uma cidade próxima a Nottingham. Mas logo em sua primeira temporada por lá, sofreu uma grave lesão no joelho que o afastaria dos gramados.

Após sua operação, foi se recuperar em Los Angeles, o que consumiu uma por parte do dinheiro que havia ganhado em sua carreira. Recuperado, mas em declínio, se tornou um homem religioso e foi até a Nigéria tentar se aproximar do pai que o abandonou. Sem êxito.

Longe da principal liga do país, rodou por times menores da Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. Em 1989 voltou à terra da rainha com uma proposta do modesto Manchester City, mas acabou defendendo o West Ham.

Sexualidade assumida

Apesar das diversas especulações que o permeava, Justin parecia não ligar para elas, embora a recusa em se assumir. Mas tudo mudou quando seu agente o convenceu a conceder uma entrevista exclusiva ao The Sun, em 22 de agosto de 1990. “Estrela do futebol de 1 milhão de libras: eu sou gay”, dizia a manchete da matéria.

Capa do The Sun e foto de Justin Fashanu com a camisa da seleção inglesa sub-21/ Crédito: Divulgação e Getty Images

 

“Na minha carreira, quando acontecia algo, eu ia para o The Sun. Quando virei um jogador de £ 1 milhão, saiu no The Sun. Virar cristão renascido, saiu lá. Então pensei que, se for para fazer direito e ser franco, vou usar o mesmo meio que usei nas vezes anteriores”, disse o jogador em entrevista.

Logo seu rosto ganhou novamente os holofotes, não pelo futebol, mas pela sua vida pessoal, que era debatida de técnicos a jogadores, dirigentes a torcedores, que, em boa parte conservadores, sentiam repulsa só de imaginar a presença de um homossexual no vestiário.  

A entrevista lhe rendeu 70 mil euros do jornal, mas ele perdeu mais do que o dinheiro poderia comprar: a união de seu irmão. Recusando a aceitar a orientação de Justin, John chegou a lhe oferecer 100 mil euros para que o irmão declinasse expor sua sexualidade. “Ele era minha luz brilhante e se tornou meu arqui-inimigo”, declarou ao The Guardian.

O fim de carreira

O promissor atacante nunca mais recuperou o bom futebol, que há tempos era superado pelos assuntos de sua vida particular — o que incluiu um suposto relacionamento com um parlamentar casado, o que nunca foi confirmado. Longe da Inglaterra desde 1993, pendurou as chuteiras quatro anos depois, quando virou treinador em Maryland, nos Estados Unidos.

Mas a vida fora das quatro linhas não o isentou de polêmicas. Em fevereiro de 1998, um jovem de 17 anos o acusou de estuprá-lo após uma festa. Apesar da história jamais ter sido provada, Justin já não se sentia mais seguro no país.

Foto de Justin Fashanu / Crédito: Getty Images

 

Com medo de ser preso, retornou a Inglaterra. Dois meses depois da denúncia, foi encontrado morto, em 2 de maio de 1998, em uma garagem no leste de Londres. Ao seu lado, havia sua carta de suicídio que dizia:

“Percebi que já havia sido considerado culpado. Não quero mais ser uma vergonha para minha família e meus amigos. Ser gay e uma personalidade é muito difícil, mas não posso reclamar disso. Queria dizer que não agredi sexualmente o jovem. Ele teve sexo consensual comigo e, no dia seguinte, me pediu dinheiro. Quando eu recusei, ele falou ‘espere e você vai ver só’. Se esse é o caso, eu ouço vocês dizerem, por que eu fugi? Bom, a Justiça nem sempre é justa. Senti que não teria um julgamento justo por conta da minha homossexualidade”.


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