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Conheça Gioconda Mussolini, a primeira antropóloga do Brasil

Com exclusividade à AH, o professor Andrea Ciacchi narrou a trajetória da mulher que rompeu padrões para se tornar professora e ainda moldou o cenário da pesquisa antropológica no país

Pamela Malva Publicado em 11/04/2021, às 10h00

Gioconda Mussolini
Gioconda Mussolini - Divulgação

“É difícil afirmar com certeza”, segundo o professor Andrea Ciacchi, qual o motivo que levou Gioconda Mussolini até a antropologia. Mas, caso ela não tivesse uma aula com o famoso Claude Lévi-Strauss durante sua graduação, o Brasil talvez perdesse sua primeira mulher antropóloga — uma verdadeira expoente na área.

Dona de um sobrenome, no mínimo, polêmico, Gioconda era uma descendente de italianos que, com sede de conhecimento, irrompeu no universo acadêmico e colocou em prática algumas das pesquisas mais relevantes da antropologia brasileira.

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, Andrea Ciacchi contou a história da pesquisadora. Autor do dossiê ‘Do desembarque do navio ao embarque na canoa’, o professor revelou detalhes da trajetória biográfica e intelectual da antropóloga.

Origens italianas

Nascida em 1913 no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, Gioconda era a terceira das sete filhas do italiano Umberto Mussolini, que chegou ao Brasil em 1888. Sua linhagem, contudo, não tinha qualquer relação com Benito Mussolini. "As famílias são originárias de regiões italianas diferentes. A de Gioconda, que emigrou para o Brasil em 1886, vinha do Vêneto. A do ditador, da Romanha", narra o professor.

Uma vez estabelecidos entre a elite paulistana, então, os pais de Gioconda a enviaram para um colégio de freiras francesas, o Santa Inês. “Depois, ela estudou numa escola pública, o Grupo Escolar Regente Feijó, na Av. Tiradentes, também no Bom Retiro.”

“Mas a ‘virada’, social e educacional, veio em 1927, quando Gioconda entrou no ensino secundário, na Escola Normal Padre Anchieta”, narra Andrea. Na instituição, a estudiosa ultrapassou todas as normas da época e tornou-se professora, em 1932.

Fotografia de Claude Lévi-Strauss, um dos professores de Gioconda / Crédito: Wikimedia Commons

 

Pioneirismo feminino

No mesmo ano em que a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) foi criada, então, a mais nova educadora foi aceita no Curso de Aperfeiçoamento de professores primários. “Isso marca oficialmente o seu ingresso na USP”, conta Ciacchi.

Com uma inteligência excepcional, Gioconda graduou-se em 1937 — período que pode ter sido essencial para que ela descobrisse a antropologia. Isso porque, segundo Andrea, foi na USP que a mulher teve aula com Lévi-Strauss, então professor de Sociologia.

“Mais tarde, entre 1941 e 1945, ela cursou um mestrado em Antropologia na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo”, explica Ciacchi. No curso, ela contou com a orientação do célebre antropólogo alemão Herbert Baldus.

Para Andrea, que estuda a história da professora há anos (e não pretende parar tão cedo), contudo, “o que levou Gioconda ao encontro com a Antropologia foi a grande humanidade dela, a empatia, que a levava a ser sempre interessada pelos outros”.

Vida para ensinar

“Ela foi uma extraordinária professora, formadora de antropólogos que consolidaram a Antropologia no Brasil”, afirma Ciacchi. “Todos os cientistas sociais formados na USP entre os anos 1940 e 1960 devem o melhor da sua formação a ela.”

Entretanto, o sucesso de Gioconda não quer dizer que ela não encontrou obstáculos em sua trajetória. “É verdade que ela sofreu as agruras de ser mulher num mundo como o acadêmico, naqueles tempos, quase exclusivamente masculino”, lembra Andrea.

O professor, inclusive, teoriza que a antropóloga não conseguiu defender sua tese de doutorado por ser uma mulher, depois que o prof. Egon Schaden, seu orientador, se aposentou da USP. “Acabei me convencendo, com base nos depoimentos de vários colegas dela, que essa questão não é inocente e se relaciona com um viés de gênero”.

Dois dos trabalhos de Gioconda / Crédito: Divulgação

 

As dores de uma profissional

Apaixonada pela sala de aula, Gioconda estava dando uma aula sobre a Evolução Humana quando descobriu que Florestan Fernandes, um ex-aluno e grande amigo, “fora arrastado para um camburão a fim de ‘prestar depoimentos’” durante a Ditadura Militar. 

Segundo um depoimento recolhido por Andrea, Giogonda “continuou a aula, curvando-se para mostrar como caminhavam nossos antepassados do Pleistoceno, e comentou, quase chorando, que as espécies não tinham evoluído” coisa nenhuma.

Na mesma época, enquanto seus companheiros de profissão desapareciam, a antropóloga decidiu ajudar seus alunos. “Chegou a dormir algumas noites na Faculdade de Filosofia quando foi ocupada pelos estudantes, em 1968”, pontua Andrea.

As heranças de Gioconda

Tendo dedicado grande parte de seu tempo à pesquisa de comunidades de pescadores artesanais do litoral Norte de São Paulo, Gioconda se destacava por relatar os aspectos econômicos, sociais e territoriais da vida dos caiçaras, além dos aspectos culturais da sociedade. “No meu entendimento, se trata de uma obra precursora”, narra o professor.

Por isso, inclusive, Andrea e Acauã Allende Silva Capucho, um aluno da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, buscam publicar a tese de Gioconda, a fim de alcançar a população e a administração de Ilhabela. “Acauã e eu gostaríamos muito que ela fosse lembrada no lugar que ela mais amou”, pontua o professor.

No final, os pesquisadores esperam que a vida de Giogonda seja lembrada para além da comunidade científica, já que “o papel que ela desempenhou, ao longo dos 30 anos de magistério superior, é importantíssimo”. Pioneira, a antropóloga, afinal, criou “trabalhos que ajudam a compreender muitos dilemas da sociedade contemporânea brasileira”.


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