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Coração embalsamado: a múmia mais antiga da história a apresentar doenças cardíacas

Sepultado durante a Décima Oitava Dinastia do Egito, o corpo da Princesa Ahmose surpreendeu estudiosos por suas condições raras

Pamela Malva Publicado em 24/04/2020, às 08h00

Foto da múmia de Ahmose em exposição
Foto da múmia de Ahmose em exposição - Wikimedia Commons

As múmias egípcias são algumas das melhores fontes de conhecimento antigo que a humanidade dispõe. Bem preservadas ou não, elas trazem muitas pistas sobre a vida na época e ainda ensinam sobre uma cultura rica e os rituais tradicionais.

Dessa forma, diversos estudiosos dedicam grande parte do seu tempo para analisar e desvendar os corpos mumificados. Para estes cientistas, uma tumba pode apresentar a resposta para um problema moderno, ou a explicação para um costume antigo.

Muito além das peles preservadas pelo processo de mumificação, os especialistas ainda contam com a ajuda de artefatos raros e centenários. Enterrados junto das pessoas, as peças decorativas e sagradas contam várias outras histórias. 

Nesse sentido, uma determinada tumba de 3,5 mil anos trouxe à tona novos dados sobre uma doença que assola a humanidade até hoje. Foi no sarcófago da Princesa Ahmose que os cientistas encontram uma narrativa inusitada.

Imagem meramento ilustrativa da tumba de Nefertari / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma princesa nas sombras

Ainda hoje, pouco se sabe sobre a vida e morte de Ahmose, cujo nome significa Filha da Lua. Nascida em meados de 1580 a.C., a princesa era filha de Tao II, o Bravo, o faraó da Décima Sétima Dinastia do Egito.

Ahmose também era meia-irmã do faraó Ahmose I e da rainha Ahmose-Nefertari, ambos líderes durante a Décima Oitava Dinastia. Ocupando o posto de menos conhecida da família, a jovem recebia os meros títulos de Filha e Irmã do Faraó.

Apesar de pouco famosa, Ahmose viveu por mais tempo que seus irmãos mandantes. Enquanto ele morreram ainda muito jovens, a princesa faleceu apenas durante o reinado de Tutmés I, quando ela tinha cerca de 40 anos.

Uma tumba simples

Mesmo que não fosse absolutamente homônima no Egito, Ahmose foi enterrada no mesmo lugar que outras rainhas do país. Ainda mais, segundo registros, ela foi a primeira mulher a ser enterrada no Vale das Rainhas.

Chamado de Ta-Set-Neferu (o lugar da beleza), o Vale das Rainhas era um sítio egípcio composto por uma grande duna de areia e outras dunas menores. Nos grandes amontoados desérticos já foram encontrados cerca de 110 túmulos.

Foto do Vale das Rainhas, no Egito / Crédito: Wikimedia Commons

 

Todos as tumbas, pertencentes a grandes rainhas e princesas egípcias, remontam a Décima Oitava Dinastia. Ainda assim, não se sabe exatamente o que motivou a escolha das dunas como local de enterros tão importantes e sagrados.

Enquanto, muito provavelmente, seu irmão foi enterrado no Vale dos Reis com toda pompa e circunstância, a múmia de Ahmose foi coberta pela areia em um sarcófago simples. Apesar de localizado no Vale das Rainhas, o enterro foi pouco elaborado. 

Quando foi encontrada por Ernesto Schiaparelli entre 1903 e 1905, a princesa jazia em uma tumba singela, composta por uma câmara e um poço de sepultamento. Junto do corpo, foram descobertos fragmentos do caixão, sandálias de couro e um pedaço de linho inscrito, que trazia cerca de 20 páginas do Livro dos Mortos.

Anos de silêncio

Uma vez descoberta, a múmia da Princesa Ahmose passou a ser exposta ao público e, hoje, pode ser visitada no Museu Egípcio de Turim, na Itália. Entretanto, em 2011, ela foi retirada de seu lugar de visitação para ser estudada.

Em laboratório, um grupo de especialista composto por pesquisadores dos Estados Unidos e do Egito passaram a analisar 52 múmias. O objetivo era detectar traços de doenças modernas nos corpos antigos.

Imagem meramente ilustrativa de trecho do Livro dos Mortos / Crédito: Wikimedia Commons

 

Todas as múmias da pesquisa foram submetidas a tomografias computadorizadas e cada uma delas apresentou um diferente estado de saúde. Mas foi a possível causa da morte de Ahmose que mais chocou os cientistas.

Durante os estudos, descobriu-se que a princesa foi a pessoa mais antiga já registrada a ser diagnosticada com uma doença do coração. A partir dos exames, foi possível identificar indícios de placas de gordura nas artérias coronárias de Ahmose.

Um estilo de vida saudável

Com os resultados dos exames de Ahmose em mãos, os cientistas começaram a fazer perguntas que, até então, não haviam sido feitas. Se a princesa vivia de forma ativa e saudável, como ela apresentava tanta gordura em suas veias?

Durante a vida, Ahmose comeu alimentos orgânicos, não teve cigarros à disposição e nem conhecia o conceito de gorduras trans. Ainda assim, para os cientistas, a princesa apresentava um quadro tão crítico que, hoje, precisaria de uma cirurgia no coração.


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