Black Friday Amazon 2021
Matérias » Arqueologia

Música na Idade da Pedra: arqueólogos descobrem ‘raves’ pré-históricas

A curiosa pesquisa descobriu uma curiosa característica sobre povos antigos

Pedro Paulo Furlan, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 06/11/2021, às 08h00

Ilustração de um homem das cavernas usando os instrumentos de dentes
Ilustração de um homem das cavernas usando os instrumentos de dentes - Reprodução / Universidade de Helsinki

Em meio a seus dias de caça, coleta e sobrevivência, povos antigos se envolviam em costumes de ‘festa’, que podiam simbolizar rituais ou lazer. Mas, uma nova descoberta sugere que as nossas ‘raves’ podem ter sido familiares para eles — mesmo que sem música eletrônica ou grandes caixas de som, como atualmente.

Em mais de 80 dos 177 túmulos parte do cemitério mesolítico Yuzhniy Oleniy Ostrov em Karelia, na Rússia, arqueólogos encontraram, em julho deste ano, 2021, quase 4.300 dentes individuais de alces, os quais foram usados quase como instrumentos musicais. 

Na pesquisa “Pendentes pré-históricos como estimulantes de som e movimentos corporais”, especialistas da Universidade de Helsinki mostram que os dentes eram usados nas roupas dessa população e faziam sons enquanto dançavam.

Criando um momento de dança, os sons dos dentes batendo uns nos outros eram fundamentais para as ‘festas’ pré-históricas.

Mas como eles descobriram estas ‘raves’? 

Uma das autoras da pesquisa, a arqueóloga auditiva Riita Rainio, da Universidade de Helsinki, tem a resposta para esta pergunta. Os experimentos feitos para realmente completar a pesquisas envolveram horas de dança constante.

A primeira aposta dos pesquisadores ao analisarem os dentes, e os ornamentos feitos, era que representavam uma roupa ritualística ou até decorações para diversas cerimônias. 

No entanto, após análise mais próxima, os especialistas perceberam que havia padrões de rachaduras e ‘crateras’ nos dentes de alce, que só poderiam ter sido feitos por impacto constante e não uma marcação voluntária.

Quando detectaram este fato curioso, os pesquisadores colocaram sua hipótese à prova. Com uma roupa pré-histórica, substituindo os dentes por modelos em seu formato, Rainio iniciou sua tarefa: seis horas seguidas de uma dança similar à dos povos do mesolítico.

Em uma declaração oficial da equipe de pesquisa, após a sua descoberta ser divulgada ao público, Riita Rainio revelou como se sentiu durante o longo período dançante, necessário para solidificar a aposta.

“Usar estes ‘chocalhos’ nas roupas, enquanto dançando, faz o processo de se imergir na paisagem sonora ser mais fácil, eventualmente deixando o som e o ritmo tomarem controle completo dos seus movimentos”, comentou. 

Entendendo melhor o estado de transe que tomava conta dos antigos povos, os pesquisadores também vestiram as roupas com dentes por cerca de 60 horas, para ter certeza de que as marcações não podiam ser feitas por outras atividades cotidianas, como correr ou pular.

Depois de todo este processo de teste, os arqueólogos colocaram os modelos de dentes  num microscópio e perceberam que as marcas eram similares às que estavam presentes nos dentes originais.

Uma festa pré-histórica

Zoom em um dos dentes para mostrar onde ficava a amarração - Foto: Reprodução / Universidade de Helsinki

 

Segundo a cobertura da publicação Smithsonian Magazine, os dentes de alce eram modelados para serem amarrados às roupas pré-históricas e ficarem presos durante as danças das ‘raves’.

A pesquisa descobriu que não havia uma peça específica na qual costuravam os chocalhos de dentes, inserindo em sua cabeça, vestidos, capas e túnicas — de maneira a intensificar o som destes instrumentos.

Os tipos de sons emitidos eram diferentes dependendo da quantidade de dentes, distâncias entre si ou de em que lugar do incisivo eles batem. A mistura de todos estes toques e batidas criavam um ritmo claro e alto.

Os experimentos da Universidade de Helsinki mostram que humanos, há tempos, pensava na música e dança como forma de lazer e cria estes ambientes em que os povos podem festejar ao som dos mais diversos ritmos.