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De grande estrela do cinema mudo a espiã que enfrentou nazistas: conheça Josephine Baker

Além de grande celebridade que revolucionou a arte na década de 20, Baker também atuou como agente da Resistência Francesa e ativista dos Direitos Civis nos Estados Unidos

Giovanna de Matteo Publicado em 16/09/2020, às 16h00

Foto de Josephine Baker em Havana, Cuba
Foto de Josephine Baker em Havana, Cuba - Wikimedia Commons

Josephine Baker nasceu em 3 de junho de 1906, nos Estados Unidos, e aos 19 anos estourou sua carreira como artista na França, país que alegou ser sua paixão e que tempos mais tarde se tornou sua pátria, mudando sua nacionalidade.

Vinda de uma família afro-americana e descendente de ex-escravos, ela viveu sua infância nas nas favelas de St. Louis, dormindo em abrigos de papelão, catando comida em latas de lixo e ganhando a vida "dançando pelas esquinas". Na sua adolescência, Baker se juntou a um grupo de performance de rua chamado Jones Family Band, onde começou sua carreira como artista.

Aos 15 anos, ela foi para a cidade de Nova York no período conhecido como "Renascença do Harlem", onde se apresentou nas linhas do refrão de Shuffle Along e Chocolate Dandies, da Broadway. Baker foi anunciada na época como "a corista mais bem paga do vaudeville".

Apesar disso, a celebridade contou, em uma entrevista para o The Guardian em 1974, que só obteve sua primeira grande chance no mundo da fama quando se mudou para Paris: "Não, não tive minha primeira chance na Broadway . Eu estava apenas no refrão em 'Shuffle Along' e 'Chocolate Dandies ''. Fiquei famosa pela primeira vez na França nos anos 1920. Eu simplesmente não suportava a América e eu fui uma das primeiras americanas de cor a se mudar para Paris". Além disso, foi a primeira mulher negra a estrelar um grande filme, participando de Siren of the Tropics, filme mudo de 1927.

 

Em Paris, ela se tornou um sucesso instantâneo por sua dança sensual e por aparecer praticamente nua em seus espetáculos. Seu traje em "Danse Sauvage", que consistia apenas em uma saia curta de bananas artificiais e um colar de contas. Tornou-se uma imagem icônica e um símbolo da Era do Jazz e da década de 20, que coincidiu com a Exposition des Arts Décoratifs, dando origem ao termo "Art Deco". Ajudou na renovação dos interesses por formas de arte não ocidentais, incluindo a africana, da qual Baker fazia uso em seus espetáculos, representando um aspecto dessa nova onda artística.

Em seus shows em Paris, era acompanhada no palco por sua chita de estimação, chamada "Chiquita", que aparecia no palco enfeitada por um colar de diamantes. O animal frequentemente escapava para o fosso da orquestra, que fica abaixo do palco, onde espantava e assustava os músicos, trazendo um elemento surpresa de emoção que fascinava o público.

 Josephine Baker em sua fantasia de banana; e à direita, representação desenhada por Louis Gaudin / Crédito: Creative Commons

 

Atuação na Segunda Guerra Mundial

Em setembro de 1939, após a França declarar guerra à Alemanha, em resposta à invasão dos nazistas à Polônia, Josephine Baker foi recrutada pelo Deuxième Bureau, inteligência militar francesa, como uma "correspondente honorável", agindo como espiã secreta.

Em seu trabalho, ela coletou todas as informações que pôde sobre a localização das tropas alemãs com os oficiais que conhecia nas festas que frequentava. Ela sempre participava de reuniões em embaixadas e ministérios, encantando as pessoas com suas apresentações, enquanto aproveitava para reunir informações da guerra. Sua fama permitiu-lhe conviver com pessoas que iam desde altos funcionários japoneses até burocratas italianos, conseguindo então relatar aos oficiais franceses sobre as conversas que ouvia, sem levantar suspeitas de espionagem.

Quando os alemães invadiram a França, Baker deixou Paris e foi para sua residência no sul do país. Lá ela abrigou pessoas e ajudantes do movimento França Livre, fornecendo-lhes também vistos para fuga.

Foto de Josephine Baker em 1940 / Wikimedia Commons

 

Como parte da Resistência Francesa, ela tinha a responsabilidade de carregar informações sobre campos de aviação, portos e concentrações de tropas alemãs no oeste da França para transmiti-las à Inglaterra. As notas enviadas eram escritas com tinta invisível em meio as partituras de música da artista.

Após a guerra, ela foi premiada com a Croix de guerre pelos militares franceses e foi nomeada Chevalier da Légion d'honneur pelo general Charles de Gaulle, deixando um legado como uma espiã que enfrentou o governo nazista.

Ativista do Movimento dos Direitos Civis

Josephine também é conhecida por suas contribuições ao Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos, que visava acabar com a segregação racial no país. Na década de 50, quando ela chegou a Nova York, suas reservas foram recusadas em 36 hotéis por causa da discriminação racial, fato que a levou a escrever diversos artigos sobre a segregação no país.

Ela criticou a política racial, assim como expôs e se negou a se apresentar em diversos clubes que seguiam leis segregacionistas, também desencorajando os clientes negros a frequentarem tais lugares.

Em 1951, seu serviço foi recusado no Stork Club de Sherman Billingsley em Manhattan por conta da sua cor de pele, o que acarretou em diversas acusações públicas de racismo contra o clube. Após o episódio, ela repreendeu o colunista Walter Winchell, um velho amigo, por não se pronunciar em sua defesa.

Winchell respondeu com uma série de repreensões públicas, incluindo acusações que afirmavam que Josephine simpatizava com o comunismo. Tal boato resultou no cancelamento do visto de trabalho de Baker, forçando-a a cancelar todos os seus compromissos e retornar à França. Passou-se quase uma década até que as autoridades americanas permitissem que ela voltasse ao país.

Caricatura do jornal sueco Folkets Dagblad Politiken de 1928, mostra Josephine como uma comunista / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em 1963, ela falou na marcha em Washington ao lado do Reverendo Martin Luther King Jr. e discursou com seu uniforme do Movimento França Livre e com sua medalha da Légion d'honneur. Ela apresentou as Mulheres Negras pelos Direitos Civis, reconhecendo nomes de ativistas negras como Rosa Parks e Daisy Bates.

Uma das falas de Baker que registrou seu discurso na marcha foi: "Entrei nos palácios de reis e rainhas e nas casas dos presidentes. E muito mais. Mas eu não podia entrar em um hotel na América e tomar uma xícara de café, e isso me deixou furiosa", denunciando os atos de racismo que sofreu enquanto estava nos Estados Unidos.

Após o assassinato de Luther King, sua esposa Coretta Scott King, agora viúva, abordou Baker na Holanda com um convite para que ela assumisse o lugar de seu marido como líder do Movimento pelos Direitos Civis, mas a artista recusou, dizendo que seus filhos eram "muito jovens para perder a mãe".

A história de Josephine Baker termina em 12 de abril de 1975, quando faleceu aos 68 anos, vítima de uma hemorragia cerebral. Ela foi a única mulher nascida nos Estados Unidos a receber honras militares francesas em seu funeral, que seguiu-se de uma grande procissão.


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