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Descobertos no Grindr: A revelação de padres em aplicativo de namoro LGBTQIA+

As ações chocaram a Igreja Católica após a revelação de dados nos Estados Unidos e no Vaticano

Wallacy Ferrari, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 28/08/2021, às 08h00

Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa - Pixabay

Há cerca de um mês e meio, um blog católico conservador dos EUA intitulado The Pillar ('O Pilar', em tradução livre) passou a divulgar uma extensa investigação envolvendo figuras importantes na comunidade cristã norte-americana e no Vaticano; com evidências e contatos diretos com os acusados, o portal publicou três relatórios de rastreamento de dados.

Neles, acessos de dados de dispositivos móveis ao aplicativo de namoro Grindr, destinado ao público LGBTQIA+, foram detectados de endereços relacionados a Arquidiocese de Newark, em Nova Jersey, a Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), e até em áreas restritas à turistas no Vaticano.

Mesmo sem revelar como os dados de acessos provenientes de telefones celulares foram obtidos, as provas concretizavam uma nova arma a favor da informação dentro de uma das instituições religiosas mais rigorosas, iniciando uma grande investigação aos oficiais da igreja, como detalhou o jornal The New York Times em reportagem.

Jeffrey Burrill durante apresentação / Crédito: Divulgação / YouTube / Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos

 

Relatórios reveladores

No primeiro relatório, um dos dados obtidos pelo blog foi do monsenhor Jeffrey Burril, então secretário-geral da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. O religioso teve acessos no aplicativo desde 2018, parte deles realizados dentro de seu escritório na USCCB, com relatos de conversas com outros homens e até mesmo participação em saunas gays.

Diante da acusação, Jeffrey preferiu renunciar do cargo e se desligar das atividades católicas. Três dias depois da publicação, o The Pillar confirmou o retorno do contato da Arquidiocese de Newark, que já estava em processo de investigação sobre o uso do tal aplicativo nas 212 paróquias na região após a descoberta do portal.

O último relatório, publicado em 27 de julho deste ano, localizou acessos provenientes da cidade do Vaticano em áreas de circulação exclusiva de membros da Igreja Católica, relatando que ao menos 32 dispositivos emitiram sinais provenientes do tal aplicativo de namoro.

Em todos os casos, o portal conseguiu notificar as instituições e acusados, que inicialmente manifestaram interesse em analisar as evidências e incompatibilidade com ensinamentos considerados inconsistentes com os ensinamentos da Igreja.

Basílica de São Pedro no Vaticano / Crédito: Wikimedia Commons / Xosema

 

Apesar de demonstrar a veracidade das provas para as devidas instituições, o New York Times chama atenção pela forma como o The Pillar obteve os dados, disponíveis comercialmente, conforme acordado pelos usuários do aplicativo quando aceitam os termos de condições e uso, logo ao criarem suas contas.

Indagados, os editores do portal se recusaram a responder as perguntas sobre a forma de aquisição dos dados — porém, o portal de tecnologia TechCrunch levantou em reportagem, no ano de 2018, que dados pessoais não criptografados de usuários do Grindr já eram compartilhados com terceiros, descritos como empresas de serviços destinados a melhoramentos de aplicativos móveis.

Apesar disso, a revelação dos casos retoma o debate sobre os desvios ao voto de celibato no mundo contemporâneo e o que seria considerado uma ação imprópria, visto que, nem de longe, havia representações cristãs relacionadas a aplicativos de namoro.